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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

“É hora de mudar de via”, alerta Edgar Morin

 




Mente lúcida e fala contundente o acompanham em quase um século de vida. Edgar Morin (Paris, 1921) passou estes longos anos apegado à sua fecunda obra filosófica e sociológica, sendo testemunha presencial de guerras, regimes hegemônicos, agitações políticas, explosões sociais, revoluções tecnológicas. E agora, de uma pandemia.

A reportagem é de Mariela León, publicada por Cambio 16, 16-11-2020. A tradução é do Cepat.

Morin, um dos intelectuais mais destacados da Europa, continua colaborando com ideias para o debate coletivo. Desta vez, sob os sinais de uma crise sanitária sem precedentes, que deixa rastros ainda não mensurados.

Autor da Teoria do Pensamento Complexo e de ao menos outros trinta e cinco títulos, Morin incorpora um a mais nestes tempos difíceis. Com o selo da editora Paidós, coloca no mercado Cambiemos de vía: lecciones de la pandemia, um texto reflexivo acerca dos ensinamentos que a calamidade gerada pelo SARS-CoV-2 deixa para a humanidade.

“Esta crise aberta pela pandemia me surpreendeu enormemente. Mas não surpreendeu minha forma de pensar, ao contrário, a confirmou. No final das contas, sou filho de todas as crises que meus 99 anos passaram. O leitor compreenderá, então, que eu considere normal esperar o inesperado e prever que o imprevisível pode acontecer”, comentou.

Estas páginas se somam a Rumo ao abismo? (2008), A via: para o futuro da humanidade (2011) e Penser global. L’humain et son univers (2015), para citar seus livros mais recentes.

Em Cambiemos de vía, Morin retira lições da crise que vivemos e da inimaginável quarentena de mais da metade do planeta. A partir de sua visão filosófica, deixa em seu texto uma sequência de considerações sobre a existência, a condição humana, a incerteza de nossas vidas. Também sobre a nossa relação com a morte, nossa civilização, o despertar da solidariedade e a desigualdade social no confinamento.

Também adverte sobre a diversidade de situações e a gestão da epidemia no mundo, a ciência e a medicina. Assim como sobre a falta de pensamento e ação política, a crise na Europa, a crise global.

A pandemia vista por Edgan Morin

Um vírus muito minúsculo, como todos, procedente de uma longínqua cidade da China colocou o mundo de pernas para o ar. “É evidente que a história conheceu muitas pandemias. Mas a novidade da Covid-19 é que provocou uma policrise mundial de componentes, interações e incertezas múltiplas e inter-relacionadas”, aponta.

Enfrentamos novas perspectivas: grandes incertezas e um futuro imprevisível. E a humanidade atual, que vive em um fluxo de tensões, não se preparou. “É o momento de mudarmos de via pela proteção do planeta e uma humanização da sociedade”.

Em uma entrevista publicada pelo jornal Le Monde, o filósofo e escritor argumenta que “a pós-pandemia será uma aventura incerta, na qual se desenvolverão as forças do pior e do melhor. Ainda que estas últimas ainda sejam frágeis e dispersas. Mas o pior não está dado, e o improvável pode acontecer”.

Para Edgar Morin, é difícil saber o que acontecerá após a pandemia. “Se depois da quarentena, as condutas e ideias inovadoras serão mantidas com seu impulso ou a ordem será reestabelecida, após a sacudida. Podemos ter o grande temor do retrocesso da democracia, triunfo da corrupção e a demagogia, regimes neoautoritários, iniciativas nacionalistas, xenófobas, racistas”.

Sugere que “todas os retrocessos (e no melhor dos cenários, estagnação) são prováveis, enquanto não surgir a nova via política-ecológica-econômica-social conduzida por um humanismo regenerado. Esta nova via multiplicaria as verdadeiras reformas que não se limitam a reduções orçamentárias, mas que são reformas da civilização, sociedade, vinculadas às reformas da vida”.

O bom, o ruim, o inimaginável

Desta crise, que agora acumula sua segunda onda, deve ser retirada várias lições. Edgar Morin sugere que se deve tomar consciência a respeito da existência de pessoas que viveram a pandemia na escassez e na pobreza. Daqueles que não puderam ter acesso ao supérfluo e frívolo, e que merecem chegar ao estágio no qual se dispõe do desnecessário.

Esta brutal pandemia mudou repentinamente nossa relação com a morte. “De repente, o coronavírus provocou a irrupção da morte pessoal, até então postergada para o futuro na parte imediata da vida cotidiana”. Recordou a contagem de mortes, dia a dia, e a desoladora ação de enterrar os nossos, sem ao menos uma despedida.

No entanto, apontou algumas boas lições trazidas pela pandemia. Despertou a memória (ao ser todo-poderoso, o “homem” pensou que havia dominado a natureza e esqueceu das grandes epidemias da Idade Média, as graves crises econômicas). E despertou a solidariedade, iluminadas sobre a diversidade de situações e desigualdades humanas, sobre as incertezas científicas”.

Hoje, devemos enfrentar os novos desafios do ser humano. “O desafio de uma globalização em crise, existencial, político, digital, ecológico, econômico. O perigo, caso não enfrentemos estes desafios, será um grande retrocesso intelectual, moral e democrático”.

 

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quarta-feira, 17 de junho de 2020

O convite ao fascismo

A TERRA É REDONDA


Por EUGÊNIO BUCCI*

Na superindústria do entretenimento, até mesmo nas pregações de intenções aparentemente libertárias ou antiautoritárias, o convite ao fascismo resiste latente e prevalente.

Há elementos “fascistizantes” recrudescendo nas redes sociais. Não se trata exatamente de fascismo, assim como o fascismo não foi exatamente bonapartismo e o bonapartismo não foi rigorosamente cesarismo – mas, de algum jeito abstruso e violento, setas envenenadas vindas diretamente do fascismo vazam os olhos do presente. Não é difícil perceber que arde, nas tochas dos rituais noturnos de extrema-direita pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal em Brasília, o mesmo fogo das Marchas das Tochas (Fackelzug) com que os nazistas comemoraram a nomeação de Hitler para chanceler na Alemanha, em 1933.

As tochas nazistas, também presentes nas manifestações racistas da Ku Klux Klan, alastram-se para incendiar florestas no Brasil. As chamas são as mesmas. Em suma, embora o fascismo que aí esteja não seja propriamente o fascismo histórico da primeira metade do século XX, há sim, elementos fascistizantes recrudescendo entre nós, especialmente nas redes sociais da direita braba.

Em parte, ao menos em parte, a explicação para isso pode ser encontrada no ambiente comunicacional posto em marcha pela superindústria do entretenimento e pelos conglomerados das mídias digitais, que monopolizam globalmente os negócios na internet. Essa indústria não faz propaganda explícita do fascismo, é verdade. Ao contrário, as vozes oficiais que a representam alegam ser contra toda forma de autoritarismo e a favor das liberdades. No entanto, seus padrões de comunicação não primam pelo argumento racional e não convidam à reflexão crítica. Em lugar disso, preferem os apelos sentimentais e os laços libidinais, de tal forma que, mesmo onde não há sinais aparentes de discursos fascistizantes, os padrões comunicacionais convidam ao fascínio das soluções autoritárias. Como no fascismo.

O problema não reside tanto nas expressões explícitas de intolerância, tidas como politicamente incorretas pelos próprios standards da indústria, mas nos padrões comunicacionais engendrados por ela, mesmo quando a causa é aparentemente boa (alertas contra o aquecimento global, por exemplo), justa (divulgação de agendas contra a desigualdade e a fome) ou bela (homens e mulheres considerados bonitos e atraentes mobilizados em defesa da Amazônia). Também aí, nas campanhas de marketing “do bem” (sempre de viés publicitário, que massificam slogans acriticamente), o modus operandi da comunicação não ativa o pensamento, mas as sensações ou, mais ainda, um sentimentalismo melodramático.

A fórmula do melodrama, como se sabe desde Goebbels, predispõe a simplificações infantis das quais emergem não diretamente o fascismo, mas uma cadeia de identificações que se inclina mais para as soluções de ultradireita do que para os equacionamentos racionais da política orientada para os direitos humanos. Não deveria nos surpreender que a política, nas redes sociais, tende a ser considerada “chata”, ao passo que a propaganda de perfil melodramático é considerada excitante e divertida. Logo, a tarefa de tornar a política excitante, em linha com a propaganda, em simbiose total com a propaganda, só seria possível dentro da fórmula de engajar as massas e, em resumo, de despolitizar a política.

Assim é. Mesmo nas pregações de intenções aparentemente libertárias ou antiautoritárias, o convite ao fascismo resiste latente e prevalente. Basta observar que as massas da era digital, hospedadas nas bolhas de fanatismo, têm na propaganda a fonte primordial da verdade. Elas se comportam como quem busca líderes e ídolos para tudo, inclusive para as posturas que em tese se inclinariam para a negação das idolatrias. Não raro, as massas se dobram a venerações de algum dublê do pai primordial, como Freud diagnosticou em Psicologia das massas e análise do eu, de 1921.

Freud sustentou que os laços libidinais se caracterizam pela recusa da razão, do juízo de fato e de qualquer princípio de realidade. Não por acaso, os habitantes das bolhas de extrema direita do nosso tempo festejam as profecias violentas, embalados na apologia do autoritarismo estatal. Como massa que são, eles prosseguem desejando ardentemente ser tiranizados, ou, como diria Freud, seguem desejando ser dominados “com força irrestrita”, com “ânsia extrema de autoridade” e “sede de submissão”.[i] Arde no coração brega das massas o desejo de se entregar a senhores de carne e osso – ou de silício, tanto faz.

Em 1951, Theodor Adorno anteviu o mesmo perigo. Quando escreveu A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista [1], tinha em mente não o fascismo alemão ou italiano, mas a presença de ideários fascistas nos debates públicos nos Estados Unidos, então às voltas com o macarthismo (mais fascista impossível). Adorno percebeu o que espreitava a democracia: “Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos”.[ii]

Relido agora, o que Adorno apontou em 1951 não se limita às hostes do fascismo, seja na Itália dos anos 1930, seja nos Estados Unidos dos anos 1950. O teórico de Frankfurt parece descrever não a propaganda abertamente fascista, mas o conjunto planetário da comunicação da era digital, em que o entretenimento, o jornalismo sensacionalista e as redes sociais, com seus incontáveis falsificadores, se embolam num jogral babélico, ao mesmo tempo caótico e certeiro. Esse ambiente comunicacional, definitivamente, não se pauta por “argumentos racionais”, mas por “processos irracionais, inconscientes e regressivos”, para ficarmos criteriosamente nas palavras de Adorno.

Os processos de que Adorno fala se impuseram como uma constante nas plataformas sociais e na indústria do entretenimento em geral (a indústria que pratica o extrativismo do olhar e de dados pessoais, como veremos adiante). As identificações, agora nos termos de Freud, trafegam no mesmo registro e, também elas, representam um gargalo para a razão. Lembremos ainda uma vez que, para Freud, as identificações estariam na “pré-história do complexo de Édipo” e seriam “a mais antiga ligação afetiva a outra pessoa”[iii]. Isso pode querer dizer, entre outras coisas, que a civilização vem depois de uma natureza em que imperam as identificações ou, mais ainda, pode quere dizer que, na formação da subjetividade, o processo de identificação precede o estabelecimento do complexo de Édipo.

Ora, o ambiente comunicacional que privilegia as identificações opera em moldes infantis e não reúne os requisitos para pautar a dialogia indispensável ao exercício da política democrática. Nesse ponto, a dialética do iluminismo dá uma segunda volta no parafuso. O que governa o aparente caos da comunicação é a ideologia em sua acepção mais funda – e mais desconhecida.

Aqui, vale qualificar minimamente o sentido adotado neste texto para a palavra ideologia. Não se trata da ideologia em seu sentido banalizado, aquele que o senso comum assimilou, o da ideologia resumida a um amontoado de statements ou a uma lista de enunciados que cabe numa folha de papel. Acredita-se vulgarmente que os dizeres de um programa partidário encarnam uma “ideologia”. Há ainda aqueles que são mais reducionistas, os que afirmam que ideologia é tudo o que não convém à verdade que professam, sendo essa verdade o decalque primário da propaganda a que se imaginam filiados.

Foi assim, com esse léxico miserável, que a palavra entrou para a língua corrente, como sinônimo de um rol de intenções ou de valores declarados e conscientes. Não é nessa perspectiva que o termo é invocado aqui. O substantivo ideologia entra neste texto a partir de uma acepção mais funda que busca tocar em camadas distantes da superfície da fala, da consciência e da intencionalidade. A ideologia assim entendida, talvez aparentada distante daquela que Althusser chamou de “ideologia em geral”[iv], é mais traiçoeira, mais inconsciente e mais estruturante.

Ela não se dá a perceber no plano do significado, mas nas leis que regem o modo pelo qual o significante adere ao seu significado. É ela quem convoca o sujeito a aderir por sensações, por vínculos libidinais, por identificações – independentemente daquilo que se enuncia, seja contra ou a favor deste ou daquele lado da política. Essa ideologia mais funda que, vale insistir, é da ordem do modo de significar e não da ordem do significado, mora na matriz da indústria do entretenimento e das redes sociais. Justamente por ser vaga, é matadora.

Em outro momento, ainda nos anos 1940, Adorno, então em parceria com Max Horkheimer, já tinha se antecipado: “A ideologia assim reduzida a um discurso vago e descompromissado nem por isso se torna mais transparente e, tampouco, mais fraca. Justamente por sua vagueza, a aversão quase científica a fixar-se em qualquer coisa que não se deixe verificar, funciona como instrumento da dominação”. [v]

Assim era a “indústria cultural” que Adorno e Horkheimer descreveram. Assim foi a “sociedade do espetáculo”, que Guy Debord enxergou e que ainda está aí, de pé. Assim é hoje o mundo monopolizado pelos conglomerados das plataformas sociais, do entretenimento e das tecnologias digitais. Esses gigantes do capitalismo jogam fora o “trabalho do pensamento” e preferem as “identificações”, as sensações (donde o sensacionalismo), as estesias industrializadas.

Dada a sua natureza, essa indústria se recusa, até onde consegue, a considerar os regramentos do Estado – regramentos que, para o bem ou para o mal, têm sua estrutura em fundamentos (adulterados ou não) próprios da razão. Um traço crucial dessa indústria é que ela atua em todo o planeta, instalada numa altitude operacional acima do alcance das legislações nacionais, e produz para si um lugar a partir do qual pode rejeitar com arrogância qualquer tentativa de regulação democrática. Ela não aceita ser regulada pela democracia; ao contrário, age como quem quer regular os cânones da política, redefinindo o sentido da palavra liberdade e da palavra censura, agora em termos privados.

Tudo isso vai tornando mais improváveis e mais custosos os espaços críticos pelos quais a democracia pode estabelecer limites para a concentração de mercado, de poder e de capital. Entregues à sua própria lógica de acumulação, as mídias digitais e a indústria do entretenimento preferem os “processos irracionais, inconscientes e regressivos” aos argumentos da razão. A democracia se vê diante de barreiras que desconhecia. O autoritarismo latente produz suas colagens e suas aderências e, por isso, o autoritarismo aparente ganha adeptos. É nessa perspectiva que os padrões comunicacionais das redes favorecem, como um caldo, a propagação de discursos fascistizantes.

Vivenciamos hoje o advento de uma nova Caverna de Platão. Suas paredes são feitas de telas eletrônicas, o que já foi indicado por alguns. Nessas telas, reinam as imagens e os dados digitais. Os dados se erigiram como uma nova religião do empirismo que se pensa objetivo. O capitalismo se converteu aos dados e os vê como o petróleo do século XXI, ou seja, como o ativo mais valioso da economia global. Em uma reportagem de capa em 2017, o semanário inglês The Economist cravou a emergência do novo ativo[vi]. A revista sustenta sua tese no crescimento de empresas que se agigantaram coletando dados – não de quaisquer dados, que existem em abundância exponencialmente crescente, mas de certos dados específicos, os dados dos usuários dessas empresas (esses usuários são, na verdade, a mercadoria dessas empresas).

Essas empresas têm nomes: Alphabet (a detentora e controladora do Google), a Amazon, a Apple, o Facebook e a Microsoft. São esses os conglomerados mais valiosos do capitalismo contemporâneo. Eles não são extratores de petróleo, mas de dados – ou, em termos mais abrangentes, como já foi adiantado acima, são extratores de olhar, que traz os dados como valor adicional.

O capital se especializou em extrair dados da humanidade e os comercializa – isso na superfície registrada por The Economist. No fundo, o que a revista não aponta, o capital desenvolveu teias subterrâneas para aprisionar o olhar. Aprisionando o olhar, essas teias aprisonam também a imaginação e o desejo. Cativando o olhar das massas, o capitalismo refabrica a linguagem, incessantemente, e mantém coesas as massas (ou as bolhas). São operações complexas, que agora não nos interessam de perto.[vii] O que nos interessa, isto sim, é que a nova Caverna de Platão conserva cativo o olhar, o que corresponde a conservar cativas as massas e, mais ainda, conservar as massas em estado de massas (principalmente quando os indivíduos acreditam receber serviços “customizados”).

Os expedientes pelos quais o capitalismo coleta os dados incluem ofertas que aparentemente conflitam com as mentalidades fascistas, como um certo “libertarismo” comercial, que tem na pornografia um de seus exemplos. Ocorre que aí não há liberdade sexual, mas confinamento do desejo, conforme intuiu Herbert Marcuse ao criar o conceito de “dessublimação repressiva”. Com as limitações inevitáveis (o conceito é datado, tendo aparecido no livro Eros e Civilização, originalmente publicado em 1955), Marcuse percebeu que, ao ofertar canais para a suposta satisfação sexual, o capitalismo não libertava, mas aprisionava em outra escala.

Hoje, em certos mecanismos de coleta de dados em massa, existe algo análogo ao que Marcuse indicou, embora menos rudimentar. O que há de aparentemente libertário nas tecnologias digitais deve ser contraposto, para fins analíticos, à tendência de concentração de multidões de clientes fiéis, quer dizer, à tendência de concentração das massas no interior na nova Caverna de Platão. A nova Caverna de Platão se compõe de campos de concentração do imaginário. Para manter os laços libidinais das massas, a indústria pode recorrer a procedimentos que, na superfície, aparentam libertar os indivíduos do domínio que ela mesma, indústria, não pode deixar de exercer.

Desse modo, mesmo que as imagens eletrônicas e os dados digitais não proclamem corolários declaradamente fascistas, há dentro deles essa propensão de fundo antiemancipatório, com um estilo que lembra, de longe, a propaganda do fascismo, com seu jeito peculiar de aprisionar o desejo e a imaginação das massas excitadas.

Nessa paisagem encavernada, avanços tecnológicos favorecem discursos belicosamente contrários à modernidade, como num regurgitar que nos traz de volta ameaças que deveriam ter sido suplantadas pelo advento da modernidade. As velhas investidas perfunctórias do fascismo italiano e do nazismo alemão, que devassavam a privacidade dos comuns, não foram assim superadas – elas foram agravadas pelas tecnologias do presente. O estado de vigilância parece absoluto, com algoritmos capazes de antecipar cada movimento íntimo, de cada indivíduo, com precisão microscópica.

Na nova Caverna de Platão, não apenas os cativos não conseguem ver através das paredes que os guardam, como, ainda mais, as paredes conseguem ver tudo através deles, de seus corpos e de suas míseras dissimulações. Outro “grande irmão” se impõe: não mais aquele grande irmão orwelliano, não mais a autoridade máxima que a todos examinava, mas outro, mais pervasivo, resultante da bisbilhotice de todos contra todos, numa espécie de totalitarismo difuso – mesmo que, por enquanto, não atue por aí um Führer visível. O poder da tecnologia e do capital se faz opaco e intangível, enquanto a intimidade de cada um se mostra com a transparência indefesa de uma gota de orvalho. E o que é o totalitarismo senão o estado em que o poder é opaco e a privacidade transparente?

O arbítrio regurgitado, que se beneficia das paredes de imagens e dados digitais da nova Caverna de Platão, por vezes se converte num pastiche de si mesmo, numa piada de mau gosto. Chefes de Estado pronunciam enunciados que não escondem sua fixação, não no falo, mas diretamente no órgão sexual masculino, num saudosismo do fascismo literal. Sentem falta do fascio, ou, mais do que dele, do fascinus.

Fascio é o nome de um feixe de sarrafos amarrados por tiras de couro vermelho, na forma de um porrete, normalmente com uma lâmina de bronze numa das extremidades, como um machado de cabo mais bojudo. Esse objeto de origem etrusca, um símbolo fálico explícito, virou o totem do fascismo italiano[viii]. O fascinus ou fascinum é menos conhecido. Trata-se de um amuleto envolvido em superstições que foi muito popular na cidade antiga de Pompeia, antes que o Vesúvio a calcinasse, em 79 a.C.. O objeto, normalmente em proporções pequenas, que cabia na palma da mão, era a escultura de um falo ereto, por vezes dotado de um par de asas. Acreditava-se que, sendo a encarnação de um falo divino (Príapo), teria poderes mágicos de repelir o mau-olhado.[ix]

Voltemos ainda aos personagens desses chefes de Estado. Eles, quando não falam de fascinum com exaltações e exultações priápicas, entram em ebulição com profusas referências verbais à fase anal. São chegados a um escancaramento escatológico da fala, tanto que por vezes enunciam expressões pouco usuais na cena política, como é o caso da palavra “cocô”.[x]

O que fazer em meio ao ranço escatológico? Talvez seja preciso pensar. O fascismo regurgitado ainda não nos matou, mas a tempestade que nos vem do passado ainda castiga.

*Eugênio Bucci, jornalista, é professor da ECA-USP. Autor, entre outros livros, de Brasil em tempo de TV (Boitempo).

[O presente artigo é uma pequena parte da conferência “Segura o Fascio”, apresentada no ano passado no Ciclo “Mutações – Ainda sob a tempestade”, organizado por Adauto Novaes. A íntegra será publicada, proximamente, na coletânea que trará todas as conferências do ciclo.]

Notas

[i] FREUD, S. Psicologia das Massas e Análise do Eu e outros textos. Tradução de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Edição Eletrônica. Kidle. O trecho citado se encontra ao final do Capítulo X: A massa e a horda primeva.

[ii] ADORNO, Theodor W. “Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”. In: Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo, Unesp, 2015. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2018/10/25/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo/.

[iii] FREUD, S. Psicologia das Massas e Análise do Eu e outros textos. O trecho citado se encontra ao final do Capítulo VII: A identificação.

[iv] ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE). Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985, 2ª edição, p. 85.

[v] Idem, p. 137.

[vi] “The world’s most valuable resource is no longer oil, but data”. The Economist. 6 de maio de 2017.

[vii] A quem interessar, há mais a respeito disso em BUCCI, E.. Extrativismo de olhar, valor de gozo e palavras em refluxo. REVISTA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE.  Órgão Oficial da Federação Brasileira de Psicanálise Volume 53, n. 3 · 2019. Pp. 97-116.

[viii] O termo italiano fascio de origem latina (fasces), designa um artefato de origem etrusca, que consiste num feixe de estacas finas, ou varas, amarradas umas às outras com correias vermelhas feitas de couro (donde fasces), que lembre uma clava, cujo comprimento corresponde mais ou menos à metade da altura de um homem. Na Roma antiga, o fasces litoris – o fascio contento uma lâmina de metal em uma das pontas, como um machado – era carregado em solenidades pelo lictor, figura encarregada da segurança dos magistrados. O fasces representava o poder dos juízes de flagelar ou decapitar os infratores. (Ver mais sobre fasces em Dicionário Oxford de Literatura Clássica, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1987, p. 226.) No século XIX, os fasci eram grupos eventualmente armados, unificados em torno de propósitos políticos ou militares. No século XX, o símbolo foi incorporado como inspiração do fascismo. Em sua primeira formação, o bando de Mussolini atendia pelo nome de Fasci di Combatimento (https://sibila.com.br/cultura/a-historia-etimologica-da-palavra-fascismo/13340) Em sua simbologia, o fascio evoca união, força, soberania e poder. Em seu aspecto físico, o fascio contém todos os elementos de símbolo fálico.

[ix] Vários desses amuletos estão expostos no Museu Antropológico de Nápolis (no Gabineto Secreto del Museo Archeologico Nazionale di Napoli). Ver em https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Tintinnabulum_Pompeii_MAN_Napoli_Inv27839.jpg. O termo fascinum está na origem do verbo fascinar e, segundo algumas fontes, do adjetivo fescenino. Não há vinculação etimológica segura entre os termos fascismo e fascinum, mas o magnetismo sonoro inconsciente, produzido pelo provável falso cognato, imanta a fala fálica dos neofascistas deslumbrados.

[x] “Bolsonaro sugere ‘fazer cocô dia sim, dia não’ para reduzir poluição ambiental”. G1. 9 de agosto de 2019. https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/08/09/bolsonaro-sugere-fazer-coco-dia-sim-dia-nao-para-reduzir-poluicao-ambiental.ghtml. Acessado em 22 out 2019.


https://aterraeredonda.com.br/o-convite-ao-fascismo/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-convite-ao-fascismo&utm_term=2020-06-18

domingo, 24 de maio de 2020

Listen, Watch, Learn: Peru's school system takes to the airwaves

Mundo Das Marcas: AL JAZEERA

A look at Aprendo en Casa, Peru's education-from-home TV show that covers school curricula for children in lockdown.


March 16, 2020, was the day Peruvian parents, teachers, and students had been preparing for - the beginning of the new school year.
But on March 15, the president appeared on national TV to declare a state of emergency and a strict nationwide lockdown.
"One day I got a call from the chairman of the network," Fatima Saldonid, a journalist and newsreader on the public broadcaster, TV Peru, told The Listening Post's Meenakshi Ravi. "He told me schools were being shut, and the Education Ministry had asked us to produce an education-from-home programme. Then he said, 'you're going to be one of the presenters'. Well, I like a challenge, so I said, 'Let's do it!'"
To call it a "challenge" would be an understatement; Aprendo en Casa (I Learn at Home) aims to put on air the core syllabus of Peru's primary and secondary school curricula, amounting to six hours of TV programming every weekday. While other countries have experimented with delivering classes to children online, authorities in Peru knew this was not an option for a country where more than 40 percent of the population does not have internet access.
"Television is one of the most used mediums," explains Diana Marchena, planning coordinator at Peru's Ministry of Education. "The internet doesn't have the same reach here as television, so we were determined that a child's progress must not depend on whether they have access to the internet."
To ensure Aprendo en Casa could reach as many children in the country as possible, the government coordinated closely not only with TV Peru, but with private channels and radio stations as well.
"No one could have guessed this sort of thing could happen," says Ernesto Cortes, general manager of the RPP Group, a private network of TV channels and radio stations that are helping to broadcast Aprendo en Casa.
"I can't recall a situation in which, for the shared goal of public education, both private and public media have united... I think it's the first time for something of this magnitude."
The show has proven to be a hit, quickly becoming one of the most-watched TV programmes in Peru. It has provided schoolteachers across the country with a vital resource with which to maintain the progress of their students.
"Watching the TV broadcasts, I am struck by how dynamic the presenters are!" says Victor Zapata, a schoolteacher in the capital, Lima. Every day, he tells his students to watch the show and assigns tasks based on the broadcast. "TV has lots of resources, and they are making the most of them. A teacher in a classroom does not have such resources. Of course, if I had them, I'd use them gladly!"
But some have struggled to benefit.
"The children I teach have nowhere near the same resources that children in cities have," says Marlith Norabuena, a teacher in rural Peru. "For example, when it rains or there are changes in the weather, the TV, radio and internet signals - which are already very weak - just stop working altogether."
While the limitations of the government's strategy have highlighted deep structural inequality in the country, the success of Aprendo en Casa has demonstrated the power of the media, both public and private, to improve prospects for young people in Peru.
"With Aprendo en Casa we're at the start of a new process," says Saldonid. "We have an opportunity to take a fresh look at education ... We have a great chance to create the kind of society we aspire to. But to get there, we need to work from the ground up. And society's foundations are its children."
Produced by: Meenakshi Ravi, Luciano Gorriti and Ahmed Madi
Contributors:
Ernesto Cortes - General manager, RPP Group
Diana Marchena - Planning coordinator, Ministry of Education, Peru
Victor Zapata - Lima-based secondary school teacher
Fatima Saldonid - Presenter, Aprendo en Casa and broadcaster, TV Peru
Marlith Norabuena - Rural school teacher