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Mente lúcida e fala contundente o acompanham em quase um século de vida. Edgar Morin (Paris, 1921) passou estes longos anos apegado à sua fecunda obra filosófica e sociológica, sendo testemunha presencial de guerras, regimes hegemônicos, agitações políticas, explosões sociais, revoluções tecnológicas. E agora, de uma pandemia.
A reportagem é de Mariela León, publicada por Cambio 16, 16-11-2020. A tradução é do Cepat.
Morin, um dos intelectuais mais destacados da Europa, continua colaborando com ideias para o debate coletivo. Desta vez, sob os sinais de uma crise sanitária sem precedentes, que deixa rastros ainda não mensurados.
Autor da Teoria do Pensamento Complexo e de ao menos outros trinta e cinco títulos, Morin incorpora um a mais nestes tempos difíceis. Com o selo da editora Paidós, coloca no mercado Cambiemos de vía: lecciones de la pandemia, um texto reflexivo acerca dos ensinamentos que a calamidade gerada pelo SARS-CoV-2 deixa para a humanidade.
“Esta crise aberta pela pandemia me surpreendeu enormemente. Mas não surpreendeu minha forma de pensar, ao contrário, a confirmou. No final das contas, sou filho de todas as crises que meus 99 anos passaram. O leitor compreenderá, então, que eu considere normal esperar o inesperado e prever que o imprevisível pode acontecer”, comentou.
Estas páginas se somam a Rumo ao abismo? (2008), A via: para o futuro da humanidade (2011) e Penser global. L’humain et son univers (2015), para citar seus livros mais recentes.
Em Cambiemos de vía, Morin retira lições da crise que vivemos e da inimaginável quarentena de mais da metade do planeta. A partir de sua visão filosófica, deixa em seu texto uma sequência de considerações sobre a existência, a condição humana, a incerteza de nossas vidas. Também sobre a nossa relação com a morte, nossa civilização, o despertar da solidariedade e a desigualdade social no confinamento.
Também adverte sobre a diversidade de situações e a gestão da epidemia no mundo, a ciência e a medicina. Assim como sobre a falta de pensamento e ação política, a crise naEuropa, a crise global.
A pandemia vista por Edgan Morin
Um vírus muito minúsculo, como todos, procedente de uma longínqua cidade da China colocou o mundo de pernas para o ar. “É evidente que a história conheceu muitas pandemias. Mas a novidade da Covid-19 é que provocou uma policrise mundial de componentes, interações e incertezas múltiplas e inter-relacionadas”, aponta.
Enfrentamos novas perspectivas: grandes incertezas e um futuro imprevisível. E a humanidade atual, que vive em um fluxo de tensões, não se preparou. “É o momento de mudarmos de via pela proteção do planeta e uma humanização da sociedade”.
Em uma entrevista publicada pelo jornal Le Monde, o filósofo e escritor argumenta que “a pós-pandemia será uma aventura incerta, na qual se desenvolverão as forças do pior e do melhor. Ainda que estas últimas ainda sejam frágeis e dispersas. Mas o pior não está dado, e o improvável pode acontecer”.
Para Edgar Morin, é difícil saber o que acontecerá após a pandemia. “Se depois da quarentena, as condutas e ideias inovadoras serão mantidas com seu impulso ou a ordem será reestabelecida, após a sacudida. Podemos ter o grande temor do retrocesso da democracia, triunfo da corrupção e a demagogia, regimes neoautoritários, iniciativas nacionalistas, xenófobas, racistas”.
Sugere que “todas os retrocessos (e no melhor dos cenários, estagnação) são prováveis, enquanto não surgir a nova via política-ecológica-econômica-social conduzida por um humanismo regenerado. Esta nova via multiplicaria as verdadeiras reformas que não se limitam a reduções orçamentárias, mas que são reformas da civilização, sociedade, vinculadas às reformas da vida”.
O bom, o ruim, o inimaginável
Desta crise, que agora acumula sua segunda onda, deve ser retirada várias lições. Edgar Morin sugere que se deve tomar consciência a respeito da existência de pessoas que viveram a pandemia na escassez e na pobreza. Daqueles que não puderam ter acesso ao supérfluo e frívolo, e que merecem chegar ao estágio no qual se dispõe do desnecessário.
Esta brutal pandemia mudou repentinamente nossa relação com a morte. “De repente, o coronavírus provocou a irrupção da morte pessoal, até então postergada para o futuro na parte imediata da vida cotidiana”. Recordou a contagem de mortes, dia a dia, e a desoladora ação de enterrar os nossos, sem ao menos uma despedida.
No entanto, apontou algumas boas lições trazidas pela pandemia. Despertou a memória (ao ser todo-poderoso, o “homem” pensou que havia dominado a natureza e esqueceu das grandes epidemias da Idade Média, as graves crises econômicas). E despertou a solidariedade, iluminadas sobre a diversidade de situações e desigualdades humanas, sobre as incertezas científicas”.
Hoje, devemos enfrentar os novos desafios do ser humano. “O desafio de uma globalização em crise, existencial, político, digital, ecológico, econômico. O perigo, caso não enfrentemos estes desafios, será um grande retrocesso intelectual, moral e democrático”.
Na superindústria do entretenimento, até mesmo nas pregações de intenções aparentemente libertárias ou antiautoritárias, o convite ao fascismo resiste latente e prevalente.
Há elementos “fascistizantes” recrudescendo nas redes sociais. Não se trata exatamente de fascismo, assim como o fascismo não foi exatamente bonapartismo e o bonapartismo não foi rigorosamente cesarismo – mas, de algum jeito abstruso e violento, setas envenenadas vindas diretamente do fascismo vazam os olhos do presente. Não é difícil perceber que arde, nas tochas dos rituais noturnos de extrema-direita pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal em Brasília, o mesmo fogo das Marchas das Tochas (Fackelzug) com que os nazistas comemoraram a nomeação de Hitler para chanceler na Alemanha, em 1933.
As tochas nazistas, também presentes nas manifestações racistas daKu Klux Klan, alastram-se para incendiar florestas no Brasil. As chamas são as mesmas. Em suma, embora o fascismo que aí esteja não seja propriamente o fascismo histórico da primeira metade do século XX, há sim, elementos fascistizantes recrudescendo entre nós, especialmente nas redes sociais da direita braba.
Em parte, ao menos em parte, a explicação para isso pode ser encontrada no ambiente comunicacional posto em marcha pela superindústria do entretenimento e pelos conglomerados das mídias digitais, que monopolizam globalmente os negócios na internet. Essa indústria não faz propaganda explícita do fascismo, é verdade. Ao contrário, as vozes oficiais que a representam alegam ser contra toda forma de autoritarismo e a favor das liberdades. No entanto, seus padrões de comunicação não primam pelo argumento racional e não convidam à reflexão crítica. Em lugar disso, preferem os apelos sentimentais e os laços libidinais, de tal forma que, mesmo onde não há sinais aparentes de discursos fascistizantes, os padrões comunicacionais convidam ao fascínio das soluções autoritárias. Como no fascismo.
O problema não reside tanto nas expressões explícitas de intolerância, tidas como politicamente incorretas pelos própriosstandardsda indústria, mas nos padrões comunicacionais engendrados por ela, mesmo quando a causa é aparentemente boa (alertas contra o aquecimento global, por exemplo), justa (divulgação de agendas contra a desigualdade e a fome) ou bela (homens e mulheres considerados bonitos e atraentes mobilizados em defesa da Amazônia). Também aí, nas campanhas demarketing“do bem” (sempre de viés publicitário, que massificamslogansacriticamente), omodus operandida comunicação não ativa o pensamento, mas as sensações ou, mais ainda, um sentimentalismo melodramático.
A fórmula do melodrama, como se sabe desde Goebbels, predispõe a simplificações infantis das quais emergem não diretamente o fascismo, mas uma cadeia de identificações que se inclina mais para as soluções de ultradireita do que para os equacionamentos racionais da política orientada para os direitos humanos. Não deveria nos surpreender que a política, nas redes sociais, tende a ser considerada “chata”, ao passo que a propaganda de perfil melodramático é considerada excitante e divertida. Logo, a tarefa de tornar a política excitante, em linha com a propaganda, em simbiose total com a propaganda, só seria possível dentro da fórmula de engajar as massas e, em resumo, de despolitizar a política.
Assim é. Mesmo nas pregações de intenções aparentemente libertárias ou antiautoritárias, o convite ao fascismo resiste latente e prevalente. Basta observar que as massas da era digital, hospedadas nas bolhas de fanatismo, têm na propaganda a fonte primordial da verdade. Elas se comportam como quem busca líderes e ídolos para tudo, inclusive para as posturas que em tese se inclinariam para a negação das idolatrias. Não raro, as massas se dobram a venerações de algum dublê do pai primordial, como Freud diagnosticou emPsicologia das massas e análise do eu, de 1921.
Freud sustentou que os laços libidinais se caracterizam pela recusa da razão, do juízo de fato e de qualquer princípio de realidade. Não por acaso, os habitantes das bolhas de extrema direita do nosso tempo festejam as profecias violentas, embalados na apologia do autoritarismo estatal. Como massa que são, eles prosseguem desejando ardentemente ser tiranizados, ou, como diria Freud, seguem desejando ser dominados “com força irrestrita”, com “ânsia extrema de autoridade” e “sede de submissão”.[i]Arde no coração brega das massas o desejo de se entregar a senhores de carne e osso – ou de silício, tanto faz.
Em 1951, Theodor Adorno anteviu o mesmo perigo. Quando escreveuA teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista[1], tinha em mente não o fascismo alemão ou italiano, mas a presença de ideários fascistas nos debates públicos nos Estados Unidos, então às voltas com o macarthismo (mais fascista impossível). Adorno percebeu o que espreitava a democracia: “Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos”.[ii]
Relido agora, o que Adorno apontou em 1951 não se limita às hostes do fascismo, seja na Itália dos anos 1930, seja nos Estados Unidos dos anos 1950. O teórico de Frankfurt parece descrever não a propaganda abertamente fascista, mas o conjunto planetário da comunicação da era digital, em que o entretenimento, o jornalismo sensacionalista e as redes sociais, com seus incontáveis falsificadores, se embolam num jogral babélico, ao mesmo tempo caótico e certeiro. Esse ambiente comunicacional, definitivamente, não se pauta por “argumentos racionais”, mas por “processos irracionais, inconscientes e regressivos”, para ficarmos criteriosamente nas palavras de Adorno.
Os processos de que Adorno fala se impuseram como uma constante nas plataformas sociais e na indústria do entretenimento em geral (a indústria que pratica o extrativismo do olhar e de dados pessoais, como veremos adiante). As identificações, agora nos termos de Freud, trafegam no mesmo registro e, também elas, representam um gargalo para a razão. Lembremos ainda uma vez que, para Freud, as identificações estariam na “pré-história do complexo de Édipo” e seriam “a mais antiga ligação afetiva a outra pessoa”[iii]. Isso pode querer dizer, entre outras coisas, que a civilização vem depois de uma natureza em que imperam as identificações ou, mais ainda, pode quere dizer que, na formação da subjetividade, o processo de identificação precede o estabelecimento do complexo de Édipo.
Ora, o ambiente comunicacional que privilegia as identificações opera em moldes infantis e não reúne os requisitos para pautar a dialogia indispensável ao exercício da política democrática. Nesse ponto, a dialética do iluminismo dá uma segunda volta no parafuso. O que governa o aparente caos da comunicação é a ideologia em sua acepção mais funda – e mais desconhecida.
Aqui, vale qualificar minimamente o sentido adotado neste texto para a palavra ideologia. Não se trata da ideologia em seu sentido banalizado, aquele que o senso comum assimilou, o da ideologia resumida a um amontoado destatementsou a uma lista de enunciados que cabe numa folha de papel. Acredita-se vulgarmente que os dizeres de um programa partidário encarnam uma “ideologia”. Há ainda aqueles que são mais reducionistas, os que afirmam que ideologia é tudo o que não convém à verdade que professam, sendo essa verdade o decalque primário da propaganda a que se imaginam filiados.
Foi assim, com esse léxico miserável, que a palavra entrou para a língua corrente, como sinônimo de um rol de intenções ou de valores declarados e conscientes. Não é nessa perspectiva que o termo é invocado aqui. O substantivo ideologia entra neste texto a partir de uma acepção mais funda que busca tocar em camadas distantes da superfície da fala, da consciência e da intencionalidade. A ideologia assim entendida, talvez aparentada distante daquela que Althusser chamou de “ideologia em geral”[iv], é mais traiçoeira, mais inconsciente e mais estruturante.
Ela não se dá a perceber no plano do significado, mas nas leis que regem o modo pelo qual o significante adere ao seu significado. É ela quem convoca o sujeito a aderir por sensações, por vínculos libidinais, por identificações – independentemente daquilo que se enuncia, seja contra ou a favor deste ou daquele lado da política. Essa ideologia mais funda que, vale insistir, é da ordem do modo de significar e não da ordem do significado, mora na matriz da indústria do entretenimento e das redes sociais. Justamente por ser vaga, é matadora.
Em outro momento, ainda nos anos 1940, Adorno, então em parceria com Max Horkheimer, já tinha se antecipado: “A ideologia assim reduzida a um discurso vago e descompromissado nem por isso se torna mais transparente e, tampouco, mais fraca. Justamente por sua vagueza, a aversão quase científica a fixar-se em qualquer coisa que não se deixe verificar, funciona como instrumento da dominação”.[v]
Assim era a “indústria cultural” que Adorno e Horkheimer descreveram. Assim foi a “sociedade do espetáculo”, que Guy Debord enxergou e que ainda está aí, de pé. Assim é hoje o mundo monopolizado pelos conglomerados das plataformas sociais, do entretenimento e das tecnologias digitais. Esses gigantes do capitalismo jogam fora o “trabalho do pensamento” e preferem as “identificações”, as sensações (donde o sensacionalismo), as estesias industrializadas.
Dada a sua natureza, essa indústria se recusa, até onde consegue, a considerar os regramentos do Estado – regramentos que, para o bem ou para o mal, têm sua estrutura em fundamentos (adulterados ou não) próprios da razão. Um traço crucial dessa indústria é que ela atua em todo o planeta, instalada numa altitude operacional acima do alcance das legislações nacionais, e produz para si um lugar a partir do qual pode rejeitar com arrogância qualquer tentativa de regulação democrática. Ela não aceita ser regulada pela democracia; ao contrário, age como quem quer regular os cânones da política, redefinindo o sentido da palavra liberdade e da palavra censura, agora em termos privados.
Tudo isso vai tornando mais improváveis e mais custosos os espaços críticos pelos quais a democracia pode estabelecer limites para a concentração de mercado, de poder e de capital. Entregues à sua própria lógica de acumulação, as mídias digitais e a indústria do entretenimento preferem os “processos irracionais, inconscientes e regressivos” aos argumentos da razão. A democracia se vê diante de barreiras que desconhecia. O autoritarismo latente produz suas colagens e suas aderências e, por isso, o autoritarismo aparente ganha adeptos. É nessa perspectiva que os padrões comunicacionais das redes favorecem, como um caldo, a propagação de discursos fascistizantes.
Vivenciamos hoje o advento de uma nova Caverna de Platão. Suas paredes são feitas de telas eletrônicas, o que já foi indicado por alguns. Nessas telas, reinam as imagens e os dados digitais. Os dados se erigiram como uma nova religião do empirismo que se pensa objetivo. O capitalismo se converteu aos dados e os vê como o petróleo do século XXI, ou seja, como o ativo mais valioso da economia global. Em uma reportagem de capa em 2017, o semanário inglêsThe Economistcravou a emergência do novo ativo[vi]. A revista sustenta sua tese no crescimento de empresas que se agigantaram coletando dados – não de quaisquer dados, que existem em abundância exponencialmente crescente, mas de certos dados específicos, os dados dos usuários dessas empresas (esses usuários são, na verdade, a mercadoria dessas empresas).
Essas empresas têm nomes: Alphabet (a detentora e controladora do Google), a Amazon, a Apple, o Facebook e a Microsoft. São esses os conglomerados mais valiosos do capitalismo contemporâneo. Eles não são extratores de petróleo, mas de dados – ou, em termos mais abrangentes, como já foi adiantado acima, são extratores de olhar, que traz os dados como valor adicional.
O capital se especializou em extrair dados da humanidade e os comercializa – isso na superfície registrada porThe Economist. No fundo, o que a revista não aponta, o capital desenvolveu teias subterrâneas para aprisionar o olhar. Aprisionando o olhar, essas teias aprisonam também a imaginação e o desejo. Cativando o olhar das massas, o capitalismo refabrica a linguagem, incessantemente, e mantém coesas as massas (ou as bolhas). São operações complexas, que agora não nos interessam de perto.[vii]O que nos interessa, isto sim, é que a nova Caverna de Platão conserva cativo o olhar, o que corresponde a conservar cativas as massas e, mais ainda, conservar as massas em estado de massas (principalmente quando os indivíduos acreditam receber serviços “customizados”).
Os expedientes pelos quais o capitalismo coleta os dados incluem ofertas que aparentemente conflitam com as mentalidades fascistas, como um certo “libertarismo” comercial, que tem na pornografia um de seus exemplos. Ocorre que aí não há liberdade sexual, mas confinamento do desejo, conforme intuiu Herbert Marcuse ao criar o conceito de “dessublimação repressiva”. Com as limitações inevitáveis (o conceito é datado, tendo aparecido no livroEros e Civilização, originalmente publicado em 1955), Marcuse percebeu que, ao ofertar canais para a suposta satisfação sexual, o capitalismo não libertava, mas aprisionava em outra escala.
Hoje, em certos mecanismos de coleta de dados em massa, existe algo análogo ao que Marcuse indicou, embora menos rudimentar. O que há de aparentemente libertário nas tecnologias digitais deve ser contraposto, para fins analíticos, à tendência de concentração de multidões de clientes fiéis, quer dizer, à tendência de concentração das massas no interior na nova Caverna de Platão. A nova Caverna de Platão se compõe de campos de concentração do imaginário. Para manter os laços libidinais das massas, a indústria pode recorrer a procedimentos que, na superfície, aparentam libertar os indivíduos do domínio que ela mesma, indústria, não pode deixar de exercer.
Desse modo, mesmo que as imagens eletrônicas e os dados digitais não proclamem corolários declaradamente fascistas, há dentro deles essa propensão de fundo antiemancipatório, com um estilo que lembra, de longe, a propaganda do fascismo, com seu jeito peculiar de aprisionar o desejo e a imaginação das massas excitadas.
Nessa paisagem encavernada, avanços tecnológicos favorecem discursos belicosamente contrários à modernidade, como num regurgitar que nos traz de volta ameaças que deveriam ter sido suplantadas pelo advento da modernidade. As velhas investidas perfunctórias do fascismo italiano e do nazismo alemão, que devassavam a privacidade dos comuns, não foram assim superadas – elas foram agravadas pelas tecnologias do presente. O estado de vigilância parece absoluto, com algoritmos capazes de antecipar cada movimento íntimo, de cada indivíduo, com precisão microscópica.
Na nova Caverna de Platão, não apenas os cativos não conseguem ver através das paredes que os guardam, como, ainda mais, as paredes conseguem ver tudo através deles, de seus corpos e de suas míseras dissimulações. Outro “grande irmão” se impõe: não mais aquele grande irmão orwelliano, não mais a autoridade máxima que a todos examinava, mas outro, mais pervasivo, resultante da bisbilhotice de todos contra todos, numa espécie de totalitarismo difuso – mesmo que, por enquanto, não atue por aí umFührervisível. O poder da tecnologia e do capital se faz opaco e intangível, enquanto a intimidade de cada um se mostra com a transparência indefesa de uma gota de orvalho. E o que é o totalitarismo senão o estado em que o poder é opaco e a privacidade transparente?
O arbítrio regurgitado, que se beneficia das paredes de imagens e dados digitais da nova Caverna de Platão, por vezes se converte num pastiche de si mesmo, numa piada de mau gosto. Chefes de Estado pronunciam enunciados que não escondem sua fixação, não no falo, mas diretamente no órgão sexual masculino, num saudosismo do fascismo literal. Sentem falta dofascio, ou, mais do que dele, dofascinus.
Fascioé o nome de um feixe de sarrafos amarrados por tiras de couro vermelho, na forma de um porrete, normalmente com uma lâmina de bronze numa das extremidades, como um machado de cabo mais bojudo. Esse objeto de origem etrusca, um símbolo fálico explícito, virou o totem do fascismo italiano[viii]. Ofascinusoufascinumé menos conhecido. Trata-se de um amuleto envolvido em superstições que foi muito popular na cidade antiga de Pompeia, antes que o Vesúvio a calcinasse, em 79 a.C.. O objeto, normalmente em proporções pequenas, que cabia na palma da mão, era a escultura de um falo ereto, por vezes dotado de um par de asas. Acreditava-se que, sendo a encarnação de um falo divino (Príapo), teria poderes mágicos de repelir o mau-olhado.[ix]
Voltemos ainda aos personagens desses chefes de Estado. Eles, quando não falam defascinumcom exaltações e exultações priápicas, entram em ebulição com profusas referências verbais à fase anal. São chegados a um escancaramento escatológico da fala, tanto que por vezes enunciam expressões pouco usuais na cena política, como é o caso da palavra “cocô”.[x]
O que fazer em meio ao ranço escatológico? Talvez seja preciso pensar. O fascismo regurgitado ainda não nos matou, mas a tempestade que nos vem do passado ainda castiga.
*Eugênio Bucci, jornalista, é professor da ECA-USP. Autor, entre outros livros, deBrasil em tempo de TV(Boitempo).
[O presente artigo é uma pequena parte da conferência “Segura o Fascio”, apresentada no ano passado no Ciclo “Mutações – Ainda sob a tempestade”, organizado por Adauto Novaes. A íntegra será publicada, proximamente, na coletânea que trará todas as conferências do ciclo.]
Notas
[i]FREUD, S.Psicologia das Massas e Análise do Eu e outros textos. Tradução de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Edição Eletrônica. Kidle. O trecho citado se encontra ao final do Capítulo X: A massa e a horda primeva.
[iii]FREUD, S.Psicologia das Massas e Análise do Eu e outros textos. O trecho citado se encontra ao final do Capítulo VII: A identificação.
[iv]ALTHUSSER, Louis.Aparelhos Ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE).Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985, 2ª edição, p. 85.
[vi]“The world’s most valuable resource is no longer oil, but data”.The Economist. 6 de maio de 2017.
[vii]A quem interessar, há mais a respeito disso em BUCCI, E.. Extrativismo de olhar, valor de gozo e palavras em refluxo. REVISTA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE. Órgão Oficial da Federação Brasileira de Psicanálise Volume 53, n. 3 · 2019. Pp. 97-116.
[viii]O termo italianofasciode origem latina (fasces), designa um artefato de origem etrusca, que consiste num feixe de estacas finas, ou varas, amarradas umas às outras com correias vermelhas feitas de couro (dondefasces), que lembre uma clava, cujo comprimento corresponde mais ou menos à metade da altura de um homem. Na Roma antiga, ofasces litoris– o fascio contento uma lâmina de metal em uma das pontas, como um machado – era carregado em solenidades pelolictor, figura encarregada da segurança dos magistrados. Ofascesrepresentava o poder dos juízes de flagelar ou decapitar os infratores. (Ver mais sobrefascesemDicionário Oxford de Literatura Clássica, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1987, p. 226.) No século XIX, osfascieram grupos eventualmente armados, unificados em torno de propósitos políticos ou militares. No século XX, o símbolo foi incorporado como inspiração do fascismo. Em sua primeira formação, o bando de Mussolini atendia pelo nome deFasci di Combatimento(https://sibila.com.br/cultura/a-historia-etimologica-da-palavra-fascismo/13340) Em sua simbologia, ofascioevoca união, força, soberania e poder. Em seu aspecto físico, ofasciocontém todos os elementos de símbolo fálico.
[ix]Vários desses amuletos estão expostos no Museu Antropológico de Nápolis (no Gabineto Secreto del Museo Archeologico Nazionale di Napoli). Ver emhttps://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Tintinnabulum_Pompeii_MAN_Napoli_Inv27839.jpg. O termofascinumestá na origem do verbo fascinar e, segundo algumas fontes, do adjetivofescenino. Não há vinculação etimológica segura entre os termos fascismo efascinum, mas o magnetismo sonoro inconsciente, produzido pelo provável falso cognato, imanta a fala fálica dos neofascistas deslumbrados.
Venho escrevendo uma matéria de quatro partes para o Field Newspaper Syndicate no início de cada ano há anos e, hoje, em 1980, com a aproximação do ano de 1984 o FNS pediu-me uma resenha detalhada do romance de George Orwell, 1984.
Eu relutei. Mal me lembrava do livro e informei-os disso — mas Denison Demac, a adorável moça que é meu contato com a FNS, simplesmente enviou-me uma cópia do livro e disse: “Leia”.
Então o fiz e fiquei absolutamente atônito com o que li. Perguntei-me quantas pessoas que falavam de forma tão confiante do livro realmente o tinham lido; e se leram, se realmente lembravam do seu conteúdo.
Senti que deveria escrever esta crítica, apenas para esclarecer as pessoas. (Me perdoem, mas eu adoro esclarecer as pessoas).
George Orwell, ou Eric Arthur Blair, seu nome de batismo.
1. A escrita de 1984
Em 1949, um livro chamado 1984 foi publicado. Foi escrito por Eric Arthur Blair sob o pseudônimo de George Orwell.
O livro tenta ilustrar como seria a vida num mundo de absoluto mal, no qual aqueles que controlam o governo se mantêm no poder por uso da força bruta, distorcendo a verdade, continuamente reescrevendo a história, hipnotizando o público em geral.
Este mundo mal se passa 35 anos no futuro, para que até homens de meia idade à época de sua publicação pudessem viver pra ver se viveram uma vida normal.
Eu, por exemplo, já era casado quando o livro saiu, e aqui estamos, a menos de 4 anos da data apocalíptica (já que “1984” se tornou um ano associado ao medo causado pelo livro de Orwell), e muito provavelmente viverei pra vê-lo.
Neste capítulo, discutirei o livro, mas, antes: Quem foi Blair/Orwell e por que ele escreveu este livro?
Blair nasceu em 1903, filho de uma casta de cavalheiros britânicos. Seu pai era um servidor civil nas Índias e o próprio Blair viveu a vida de um oficial do império britânico. Ele foi para Eton, serviu em Burma, enfim.
No entanto, lhe faltava dinheiro para viver plenamente como um cavalheiro inglês. Então, também, ele não queria passar a vida trabalhando em empregos burocráticos maçantes; ele queria ser escritor. Por último, ele sentia remorso por sua vida abastada.
Então ele fez, no fim dos anos 20, o que muitos jovens americanos ricos fizeram nos anos 60. Em resumo, se tornou o que mais tarde chamaríamos de hippie. Ele viveu em condições precárias em Londres e Paris, habitando e se identificando entre mendigos e andarilhos, conseguiu aliviar sua consciência e, ao mesmo tempo, reunir material para seus primeiros livros.
Ele também fez um giro à esquerda e se tornou um socialista, lutando com os republicanos na Espanha nos anos 30. Ali, ele se encontrou entre conflitos sectários de várias facções de esquerda, e como ele cria numa forma cavalheiresca de socialismo, inevitavelmente se encontrou no lado derrotado. Em oposição a ele estavam apaixonados anarquistas espanhóis, sindicalistas e comunistas, que se ressentiam amargamente do fato de que as necessidades de combater os fascistas de Franco, atrapalhava suas lutas entre si.
Os comunistas, os melhores organizados, venceram e Orwell teve de deixar a Espanha, pois tinha se convencido de que, se não o fizesse, seria morto.
Dali pra frente, até o fim da vida, ele se engajou numa guerra literária particular contra os comunistas, determinado a vencer nas palavras a batalha que havia perdido em ações.
Durante a 2ª Guerra Mundial, na qual foi rejeitado para o serviço militar, por suas associações à ala esquerda do partido trabalhista inglês, mas não era muito simpático de suas ideias, pois até a versão displicente de socialismo destes lhe parecia organizada demais.
Ele não parecia se afetar tanto, aparentemente, com o tipo nazista de totalitarismo, já que não lhe cabia outro inimigo exceto o comunismo stalinista contra quem travava uma guerra pessoal. Consequentemente, quando o Reino Unido lutava pela sua vida contra o Nazismo, e a URSS lutava como aliado na batalha e deu muito mais do que tinha de vidas entregues com coragem resoluta, Orwell escreveu A Revolução dos Bichos, uma sátira da Revolução Russa e suas consequências, representando em termos de uma revolta de animais da fazendo contra os senhores humanos.
Ele concluiu o livro em 1944 e teve dificuldades para encontrar uma editora, uma vez que não era um bom momento pra irritar os soviéticos. Assim que a guerra acabou, no entanto, a URSS já estava quites e o livro foi publicado. Foi recebido com muitos elogios e Orwell tornou-se próspero o suficiente para se aposentar e dedicar-se à sua obra-prima, 1984.
O livro descreve uma sociedade que em que todo o mundo é uma vasta extensão da Rússia Stalinista na década de 30, descrita com a virulência de um rival sectário de esquerda. Outras formas de totalitarismo mal aparecem. Há apenas duas menções aos Nazistas e à Inquisição. Logo de início, há uma referência ou duas aos judeus, quase como se fossem eles os alvos da perseguição, mas que logo somem, como se Orwell não quisesse que os leitores não confundissem os vilões com Nazistas.
A ilustração é do Stalinismo, e nada mais.
Quando o livro foi publicado em 1949, a Guerra Fria estava no seu pico. O livro, então, se popularizou. Era quase um dever patriótico no Ocidente, comprar e falar sobre ele e, talvez, até ler uns trechos, apesar de me parecer que mais gente comprou e falou sobre do que leu, pois esse é um livro terrivelmente tedioso — didático, repetitivo, e maçante.
A princípio ele foi mais popular entre pessoas de inclinações conservadoras, pois era claramente uma peça anti-Soviética, e a imagem da vida na Londres de 1984 que o livro projetava era muito parecida com a que os conservadores imaginavam ser a vida na Moscou de 1949.
Na era macartista dos EUA, 1984 se tornava cada vez mais popular entre aqueles mais liberais, pois lhes parecia que os EUA do início dos anos 50 se movia na direção do controle mental e que toda a malícia que Orwell descreveu batia à nossa porta.
Assim, num prefácio a uma edição publicada pela New American Library em 1961, o psicanalista liberal e filósofo Erich Fromm concluiu:
“‘Livros como o de Orwell são avisos potentes, e seria uma grande pena se o leitor pedantemente interpretasse 1984 como apenas mais uma descrição da barbárie Stalinista, sem ver que ele também se dirige a nós mesmos”.
Ainda que o Stalinismo e o Macartismo sejam desconsiderados, no entanto, cada vez mais estado-unidenses se davam conta do quão “grande” o governo havia se tornado; o quão alto eram os impostos; o quão crescente eram as regras e regulamentações sobre os negócios e a vida cotidiana; como informação a respeito de cada faceta da vida privada entrava nos arquivos, não apenas do governo mas também dos sistemas privados de crédito.
1984, portanto, veio a representar, não o Stalinismo, ou qualquer ditadura — mas governos em geral. Até o paternalismo governamental parecia com 1984 e a frase de efeito ‘Grande Irmão está te vigiando’ veio a significar tudo que fosse grande demais pro controle dos indivíduos. Não apenas grandes governos e grandes negócios eram um sintoma de 1984, mas a grande ciência, grande trabalho, grande qualquer coisa.
De fato, tão grande era a penetração da “1984-fobia” na consciência de muitos que nem leram o livro e não tinham noção alguma de seu conteúdo, que se poderia imaginar o que nos acontecerá após 31 de dezembro de 1984. Quando o ano novo de 1985 chegar e os EUA ainda existir e enfrentar os ainda muito reais problemas de hoje, como iremos expressar nossos medos de qualquer aspecto da vida que nos deixa apreensivos? Que nova data inventaremos pra substituir 1984?
Orwell não viveu pra ver seu livro se tornar o sucesso que se tornou. Não testemunhou a forma que fez de 1984 um ano que assombraria toda uma geração de americanos. Orwell morreu de tuberculose num hospital de Londres em janeiro de 1950, poucos meses após a publicação do livro, aos 46 anos. Sua consciência da morte iminente talvez tenha contribuído para o amargor do livro.
Cena do filme “1984", de Michael Radford.
2. A ficção científica de 1984
Muitos veem 1984 como um romance de ficção científica, mas praticamente o único aspecto de 1984 que o caracterizaria assim é o fato de que ele se passa, propositadamente no futuro. E olhe lá! Orwell não tinha qualquer noção do futuro, e o deslocamento da história é muito mais geográfico do que temporal. A Londres em que se passa a história não é bem uma projeção 35 anos no futuro, de 1949 para 1984, mas de milhares de quilômetros ao leste até Moscou.
Orwell imagina um Reino Unido que passou por uma revolução similar à Russa e que passou por todos os estágios que o desenvolvimento soviético. Ele não consegue imaginar qualquer variação temática. Os soviéticos passaram por expurgos nos anos 30, então o Ingsoc (socialismo inglês) também passa por expurgos nos anos 50.
Os soviéticos converteram um de seus revolucionários, Leon Trotsky, num vilão, e o seu oponente, Joseph Stalin, num herói. O Ingsoc, então, converte um de seus revolucionários, Emmanuel Goldstein, em vilão, e o seu oponente, com um bigode igual o de Stalin, em herói. Não há qualquer habilidade de fazer, sequer, mudanças sutis. Goldstein, como Trotsky, tem um rosto judeu, com uma grande auréola de cabelos brancos e um cavanhaque. Orwell aparentemente não quis causar confusões dando um nome diferente a Stalin, então, o chama simplesmente de ‘Grande Irmão’.
No começo do livro, é deixado claro que a televisão (que foi inventada na época que o livro foi escrito) servia como um meio contínuo de doutrinação do povo, sem botão de desligar. E, aparentemente, numa Londres em ruínas onde nada funciona, essas televisões nunca pifam.
A grande contribuição de Orwell à tecnologia do futuro é que a televisão tem dupla-face, onde as pessoas que são forçadas a ouvir e ver a tela da TV podem ser ouvidas e vistas o tempo todo, estando sob constante supervisão até ao dormir ou ir ao banheiro. Por isso, o sentido da frase ‘O Grande Irmão está te vigiando’. Este é um sistema extraordinariamente ineficiente de vigilância do povo. Ter pessoas sendo assistidas o tempo todo implica que outras pessoas devem estar assistindo-as (ao menos na sociedade de Orwell) e deve fazê-lo de forma tão atenta, pois há um grande desenvolvimento na arte de interpretação de gestos e expressão facial.
Uma pessoa não pode assistir mais de uma pessoa com total concentração, e pode apenas fazê-lo por um curto período de tempo sem se distrair. Calculo que é preciso, pelo menos, cinco vigias por pessoa vigiada. E, então, é claro, os vigias têm de ser vigiados, uma vez que todos são suspeitos no mundo de Orwell. Consequentemente, o sistema de opressão da TV dupla-face simplesmente não funcionaria.
O próprio Orwell percebeu isso ao limitar seu funcionamento aos membros do partido. Os ‘proles’ (proletariado), por quem Orwell não consegue esconder seu desprezo de britânico de classe alta, são abandonados à própria sorte como sub-humanos. Em um certo ponto do livro, ele diz que qualquer prole que mostra habilidade é morto — uma folha tirada do tratamento dado pelos Espartanos aos seus hilotas, 2500 anos atrás.
Ademais, ele tem um sistema de espiões voluntários no qual crianças denunciam seus pais, e vizinhos denunciam uns aos outros. Isso é impraticável uma vez que eventualmente todos se denunciariam e todas as denúncias teriam de ser descartadas.
Orwell foi incapaz de conceber computadores ou robôs, ou ele teria posto todos sob vigilância de máquinas. Nossos próprios computadores já o fazem na Receita Federal, em alguma medida, os sistemas de crédito, etc, mas isso não nos levou à distopia de 1984, exceto em pesadelos febris. Computadores e tirania não necessariamente andam de mãos dadas. Tiranos foram bem-sucedidos sem computadores (um bom exemplo são os nazistas) e as nações mais informatizadas no mundo de hoje são as menos tirânicas.
Falta a Orwell a capacidade de ver (ou conceber) mudanças sutis. Seu protagonista encontra dificuldade no mundo de 1984 para encontrar cadarços ou giletes. Eu também teria, já que no mundo real da década de 80, muitas pessoas usam sapatênis e barbeadores elétricos.
Assim, também, Orwell demonstra uma fixação tecnofóbica que cada avanço tecnológico nos levaria à ruína. Por isso, quando seu protagonista escreve, ele “encaixou um bocal na sua caneta e o sugou para remover a tinta”. Ele o faz pois “sentia que a bela folha de papel merecia ser escrita com uma caneta de verdade e não ser rabiscada com uma caneta esferográfica”.
Presumivelmente, a “caneta esferográfica” era a nova caneta lançada à época em que Orwell escreveu 1984. Por isso Orwell descreve algo ser “escrito” com uma “caneta de verdade” mas “rabiscado” com uma esferográfica. Isto é, no entanto, precisamente o contrário da realidade. Se você é velho o suficiente para lembrar das canetas antigas, você lembra que elas borram o tempo todo, coisa que as esferográficas não fazem.
Arquitetura nazista, exemplo de estilo passadista.
Isso não é ficção científica, é uma nostalgia torpe de um passado que nunca existiu. Me surpreende que Orwell não tenha largado a caneta tinteiro e escrito o livro com uma pena de ganso.
Orwell também não teve muito sucesso em prever aspectos estritamente sociais do futuro que apresentava, resultando num mundo Orwelliano em 1984 que é incrivelmente antiquado se comparado com o mundo real da década de 80.
Orwell não imagina novos vícios, por exemplo. Seus personagens são todos cachaceiros e tabagistas, e parte do horror de 1984 é sua eloquente descrição de como eram precários a cachaça e o fumo.
Ele não imagina novas drogas, nada de maconha, ou drogas alucinógenas. Ninguém espera que um escritor de ficção científica seja preciso e exato em suas previsões, mas certamente se espera que ele imagine algumas inovações.
Em seu desespero ou raiva, Orwell esquece que seres humanos têm virtudes. Todos seus personagens são, de alguma forma, fracos ou sádicos, desleixados, idiotas, ou repulsivos. Pode até ser como a maioria das pessoas seja, ou como Orwell quer insinuar que seriam sob um regime autoritário, mas me parece que, mesmo sob a pior das tiranias, até hoje, houve pessoas corajosas que enfrentaram os tiranos até a morte e cujas histórias de vida são chamas luminosas na escuridão que os cercou. Se apenas por não haver a menor presença disso em 1984, nada no livro reflete o mundo nos anos 80.
Ele também não imagina qualquer diferença no papel das mulheres ou o enfraquecimento dos estereótipos femininos de 1949. Só há duas personagens femininas importantes. Uma é uma mulher proletária bruta e ignorante que é uma lavadeira incansável, que canta sem parar canções populares de linguajar chulo dos anos 30 e 40 (que Orwell fastidiosamente despreza como “sujas”, sem qualquer noção do que viria a ser o hard rock).
A outra é a heroína, Julia, que é promíscua (mas pelo menos é impelida a atos de coragem por interesses sexuais) e também ignorante. Quando o protagonista, Winston, lê para ela o livro dentro do livro que explica a natureza do mundo Orwelliano, ela reage caindo no sono — mas como o tratado lido por Winston é estupefatamente soporífero, isso mais indica um bom senso da heroína Julia do que o contrário.
Em resumo, se 1984 for considerado uma ficção científica, é uma de péssima qualidade.
Cena do filme “1984", de Michael Anderson.
3. O GOVERNO EM 1984
O livro de Orwell é um retrato de um governo onipotente, e ajudou a consolidar a imagem de que um “governo forte” é algo a ser temido.
Temos que lembrar, porém, que o mundo do fim dos anos 40, em que Orwell escreveu o livro, era um em que houve, e ainda haviam, governos fortes com verdadeiros tiranos — indivíduos cujos desejos, por mais injustos, cruéis e vis que fossem, eram lei. Ainda mais, parecia impossível demover tais tiranos do poder a não ser pela intervenção de uma força externa.
Benito Mussolini na Itália, após 21 anos de poder absoluto, foi derrubado, mas apenas porque seu país estava sofrendo derrotas na guerra.
Adolf Hitler na Alemanha, um tirano ainda mais forte e brutal, governou com mão de ferro por 12 anos, e nem a derrota, por si só, o derrubou. Mesmo que território que dominava se tornasse cada vez menor, e mesmo que exércitos gigantescos de inimigos o encurralassem a leste e oeste, permaneceu governante absoluto sobre o que quer que restasse de território dominado — até mesmo quando esse território se reduziu ao bunker no qual cometeu suicídio. Até que ele tenha se matado, ninguém ousava atacá-lo. Houve complôs contra ele, é claro, mas nunca tiveram sucesso, às vezes por meio de caprichos do destino que só podiam ser explicadas por alguma força infernal conspirando a seu favor.
Orwell, no entanto, não deu a mínima para Mussolini ou Hitler. Seu inimigo era Stalin e, à época da publicação de 1984, Stálin governava a URSS num abraço apertado de urso há 25 anos, sobrevivido uma terrível guerra em que sua nação sofreu terríveis perdas e, ainda assim, estava mais forte do que nunca. Para Orwell, pareceu que nem o tempo nem a sorte poderiam derrubar Stálin, e que ele viveria eternamente, se tornando cada vez mais forte. — E foi assim que Orwell imaginou seu Grande Irmão.
É claro, não foi isso que aconteceu. Orwell não viveu para ver Stálin falecer 4 anos após a publicação do seu livro, e poucos anos depois denunciado como um tirano por — adivinhem só — os próprios líderes soviéticos.
A União Soviética ainda é a União Soviética, mas não mais a de Stálin, e os inimigos do Estado não são mais liquidados (Orwell prefere l termo “vaporizados”, tão pequenas sendo as mudanças que ele pode lidar) com tanta displicência.
Novamente, Mao Tsé-tung morreu na China, e ainda que ele não tenha sido abertamente denunciado, seus braços-direitos, a “Gangue dos Quatro”, foi rapidamente deposta da Divindade, e ainda que a China ainda seja a China, não é mais a China de Mao.
Franco, na Espanha, mesmo em seu leito de morte, permaneceu o mesmo líder inquestionável que foi por quase quarenta anos, mas imediatamente após sua morte, o fascismo se desmilinguiu na Espanha, assim como em Portugal após a morte de Salazar.
Em resumo, Grandes Irmãos morrem, ou pelo menos têm morrido até então, e quando morrem, o governo muda, sempre para algo menos fechado.
Não que novos tiranos não venham a surgir, mas estes morrerão, também. Ao menos na década de 80 real, temos plena confiança de que tiranos vem e vão e que um Grande Irmão imortal não é, ainda, uma ameaça real.
Na verdade, os governos da década de 80 parecem mesmos é perigosamente frágeis. O avanço da tecnologia trouxe poderosas armas — explosivos, metralhadoras, carros velozes, às mãos de terroristas urbanos, que podem e fazem sequestros, sabotagens, tiroteios, fazem reféns com impunidade enquanto governos assistem mais ou menos indefesos. Além da imortalidade do Grande Irmão, Orwell apresenta duas outras formas de manutenção da tirania eterna.
Em primeiro lugar, apresentar alguém ou algo a ser odiado. No mundo Orwelliano, era contra Emmanuel Goldstein que o ódio foi construído e orquestrado em uma função em massa e robotizada.
Nada de novo, claro. Toda nação do mundo usou países vizinhos como alvos de ódio. Esse tipo de artifício é tão facilmente manejado e facilmente assimilado pela humanidade que se pode imaginar porque teria de haver impulsos de ódio organizados no mundo de Orwell.
Não é preciso de muitos saltos lógicos para levar árabes a odiar israelenses e gregos odiarem turcos, e irlandeses católicos odiarem protestantes — e vice-versa. Pra se certificar, os nazistas organizaram reuniões em massa de delírio que todos participantes pareciam gostar, mas que não tem efeito de longo prazo. Uma vez que a guerra chegou ao solo alemão, os alemães renderam-se tão humildemente como se nunca tivessem feito a saudação nazista em suas vidas.
Em segundo lugar — reescrever a história. Quase todos dos poucos sujeitos que conhecemos em 1984 tem, como tarefa, a acelerada reescrita da história, o reajuste das estatísticas, a inspeção dos jornais — como se alguém fosse se dar ao trabalho de dar atenção ao passado, de qualquer maneira.
Esta preocupação orwelliana com tais minúcias da “comprovação histórica” é típica do política sectário que está sempre citando o que foi dito e feito no passado para provar para alguém de outro lado que está sempre citando algo no sentido oposto do que foi dito e feito.
Como todo político sabe, nenhuma evidência de qualquer tipo é jamais pedida. Basta fazer uma afirmação — qualquer uma — com força o suficiente para que um público acredite. Ninguém irá confrontar a mentira com fatos, e se o fazem, desacreditarão dos fatos. Você acha que o povo alemão em 1939 fingiram que os poloneses os atacaram e deram início à Segunda Guerra Mundial? Não! Desde que disseram que foi isso que aconteceu, eles acreditaram tão firmemente nisso, quanto eu e você acreditamos que eles atacaram os poloneses.
Para se certificar, os soviéticos publicaram novas edição de sua enciclopédia onde políticos que tinham um longo verbete biográfico em edições anteriores, de repente, são omitidos inteiramente e isso, sem dúvida, é o germe da noção orwelliana, mas as chances de levá-la ao extremo descrito em 1984 parecem-me nulas — não porque seria algo “além da maldade humana”, mas por ser totalmente desnecessário.
Orwell torna sua “novilíngua” num órgão de repressão — a conversão do idioma inglês num instrumento tão limitado e abreviado que o próprio vocabulário dos dissidentes desaparece. Em partes, ele toma tal noção do indiscutível hábito de abreviação. Ele dá exemplos como “Internacional Comunista” abreviado como “Comintern” e “Geheime Staatspolizei” (“polícia secreta do estado”) abreviado como Gestapo, mas isso não é uma invenção totalitária moderna. “Vulgus mobile” virou “mob” (máfia); “táxi cabriolet” virou “cab” (táxi); “quasi-stellar radio source” (“fonte de rádio quasi-estelar”) virou “quasar”; “light amplification by stimulated emission of radiation” (amplificação de luz por estimulação radioativa) virou “laser”, etc. Não há razão para achar que tais abreviações na linguagem tenha a enfraquecido como modo de expressão.
Na verdade, ofuscação política tendeu a ser mais verborrágica do que abreviada, usando mais palavras longas do que curtas, sendo mais prolixa do que sucinta. Todo líder de pouca educação ou limitada inteligência esconde tais fraquezas atrás de uma loquacidade inebriada e exuberante.
Assim, quando Winston Churchill sugeriu o desenvolvimento de um “inglês básico” como língua internacional (algo que, sem dúvida, também inspirou a “novilíngua”), a ideia foi abortada. Estamos, portanto, bem longe da “novilíngua” em sua forma mais condensada, embora sempre tenhamos tido uma “novilíngua” em sua forma extensa e sempre teremos.
Também temos um grupo dos nossos jovens que dizem coisas como “pode crer, mano, sacumé. É como se ele tivesse tudo ajeitado, sacumé, mano. Te digo, tipo, sacumé” e por aí vai cinco minutos de tagarelice, que poderiam ser resumidas em um simples “hã?”
Isto, no entanto, não é “novilíngua”, e temos convivido com ela desde sempre. Está mais pra algo que, na “velhíngua”, chamamos de “inarticulação”, mas não era o que Orwell pensava.
Mao e Nixon, foto de 1972.
4. A SITUAÇÃO INTERNACIONAL DE 1984
Embora Orwell parecesse, em geral, estar preso no mundo de 1949, em um sentido pelo menos ele se mostrou bastante presciente, no caso, em prever a tripartição do mundo na década de 80.
O mundo internacional de 1984 é o mundo de três superpotências: Oceania, Eurásia e Ásia Leste — e isso se encaixa, vagamente, com as três superpotências do mundo real da década de 80: Estados Unidos, União Soviética e China.
A Oceania seria uma combinação dos EUA e o Império Britânico. Orwell, que era um velho servo civil do império, parece não ter notado que o Império Britânico estava em seus últimos suspiros, no fim da década de 40, e prestes a se dissolver. Ele parecia supor, aliás, que o Império Britânico era a potência dominante dessa relação britânico-americana.
Pelo menos, todo o enredo se passa em Londres e termos como “Estados Unidos” e “Americanos” são raramente, se alguma vez sequer, citados. Porém, isto tem muito a ver com a moda dos romances de espionagem britânicos onde, desde a segunda guerra mundial, o Reino Unido (atualmente a 18ª potência militar e econômica do mundo) é retratada como a grande adversária da URSS ou da China ou de uma imaginada conspiração internacional, com os EUA, ou nunca sequer mencionado, ou reduzido a uma mera participação coadjuvante na figura de um agente da CIA.
Eurásia é, evidentemente, a URSS, que, Orwell presume, terá tomado todo o continente europeu. Eurásia, portanto, inclui toda a Europa, a Sibéria, e a sua população é 95% europeia, por qualquer padrão. Mesmo assim, Orwell descreve os eurasianos como “homens de aparência pétrea, de rostos asiáticos sem expressão”. Como Orwell ainda vivia num tempo em que “europeu” e “asiático” eram equivalentes a “herói” e “vilão”, é impossível insultar a URSS com o devido grau de emoção, sem usar a palavra “asiático”. Isto vem sob o título do que a “novilíngua” orwelliana chama de “duplipensar”, algo que Orwell, como qualquer outro ser humano, é muito bom em fazer.
Pode ser, é claro, que Orwell não esteja pensando na Eurásia, ou na URSS, mas no seu grande bête noire (fera negra), Stálin. Stálin é georgiano, e a Geórgia, localizada ao sul das montanhas do Cáucaso, é, por mera consideração geográfica, parte da Ásia.
Ásia Leste é, obviamente, a China e demais nações dependentes.
Eis a presciência. Quando Orwell escreveu 1984, os comunistas chineses ainda não tinham conquistado o controle sobre o território nacional e muitos (nos EUA, em particular) faziam seu melhor para garantir que o anticomunista Chiang Kai-Shek, mantivesse o poder. Quando os comunistas venceram, se tornou parte do credo aceito no Ocidente de que os chineses estariam sob controle soviético e que China e URSS seriam uma potência comunista monolítica.
Orwell não apenas previu a vitória comunista (até porque previu esta vitória no mundo inteiro) mas também previu que Rússia e China não formariam tal bloco monolítico, mas que seriam inimigos mortais.
Aí, talvez, sua própria experiência como esquerdista sectário o ajudou. Ele não tinha quaisquer superstições direitistas a respeito da união dos esquerdista como vilões uniformes e indistintos. Ele sabia que estes lutariam entre si tão ferozmente, pelas questões mais triviais possíveis da sua doutrina, quanto os mais devotos dos cristãos.
Ele também previu um estado de guerra perpétua entre os três; uma condição permanente de impasse com alianças sempre mutáveis, mas sempre de dois contra o mais forte. Era o velho sistema de “equilíbrio de poder” usado na antiga Grécia, na Itália medieval e na nascente Europa moderna.
O erro de Orwell está em pensar que teria de haver uma guerra de fato para manter o carrossel do equilíbrio de poder girando. De fato, num dos momentos mais risíveis do livro, ele fala sem parar da necessidade de uma guerra permanente como forma de consumir a produção de recursos do mundo e, assim, manter a estratificação social de classes alta, média e baixa em funcionamento (Isto soa como uma explicação bastante esquerdista da guerra como resultado de uma conspiração arquitetada com bastante dificuldade).
Na verdade, as décadas desde 1945 tem sido notavelmente pacíficas, se comparadas com as décadas precedentes a ela. Há guerras locais com frequência, mas não guerra generalizada. No entanto, a guerra não é necessária como um mecanismo desesperado de consumo de recursos mundiais. Isto pode ser atingido por outros mecanismos como aumento infinito da população e consumo de energia, coisas que nem passam pela cabeça de Orwell.
Orwell não previu nenhuma das mudanças econômicas significativas que aconteceram desde a Segunda Guerra Mundial. Ele não previu a importância do petróleo e sua decrescente disponibilidade, seu crescente preço, ou a escalada de poder das nações que tem controle sobre sua produção. Ele sequer menciona a palavra “petróleo”.
Mas talvez seja suficiente para reconhecer a presciência de Orwell, aqui, se substituirmos “guerra fria” por “guerra”, simplesmente. Houve, de fato, uma “guerra fria” mais ou menos contínua que serviu para manter o emprego em alta e resolver alguns problemas econômicos de curto prazo (a custo de criar outros maiores no longo prazo). E tal guerra fria é suficiente para esgotar recursos.
Além disso, as alianças mudaram como previu Orwell e quase que de repente. Quando os EUA pareciam onipotentes, a URSS e China eram ferozmente anti-americanos e estavam numa espécie de aliança. Conforme o poder dos EUA declinava, a URSS e a China romperam e, por um tempo, cada uma das potências atacava as outras duas igualmente. Então, quando a URSS parecia se tornar particularmente poderosa, uma espécie da aliança nasceu entre os EUA e a China, com ambas nações cooperando na vilificação da URSS e a falar cordialmente entre si.
Em 1984, cada mudança de aliança envolvia uma orgia de reescrita da história. Na vida real, tal tolice é desnecessária. O público muda de lado com facilidade, aceitando a mudança da circunstância sem qualquer apreço pelo passado. Por exemplo, os japoneses, na década de 50, mudaram de vilões inomináveis para amigos, enquanto os chineses mudaram no sentido oposto, sem ninguém sequer pensar em tentar apagar a história do Pearl Harbour. Ninguém se importa, pelo amor de deus.
Orwell tem suas três superpotências voluntariamente renunciando de suas armas nucleares e, só para garantir, tais bombas nunca mais foram usadas em guerra desde 1945. Isto, no entanto, talvez seja o caso pois as únicas potências com grande arsenal nuclear, os EUA e a URSS tem evitado guerra entre si. Se tivesse havido guerra, é extremamente duvidoso que um dos dois lados não teria finalmente tido a necessidade de apertar o botão. A esse respeito, Orwell nunca esteve mais distante da realidade.
Londres eventualmente sofre, no entanto, um bombardeio, cuja descrição soa muito como as velhas armas V-1 ou V-2 de 1944, e seus escombros, muito como o restolho de 1945. Orwell não consegue diferenciar 1984 de 1944 nesse respeito.
Orwell, aliás, deixa claro que, até 1984, o comunismo universal das três superpotências sufocaram a ciência e a reduziram à inutilidade, exceto em áreas vitais à guerra. Não há questionamento do porquê, apenas as nações tem mais vontade de investir em ciência quando a guerra é a aplicação em vista, mas, infelizmente, não há distinção entre guerra e paz quando se trata da aplicação das tecnologias em questão.
A ciência é uma unidade e tudo nela pode, em tese, ser usado para guerra e destruição. A ciência, portanto, não foi sufocada pela guerra, mas continua seu progresso, seja nos EUA, Europa Ocidental, no Japão, seja na URSS ou na China. Os avanços científicos são incontáveis, mas pense nos lasers e computadores que são invenções guerra e verá um sem número de aplicações pacíficas dessas tecnologias.
Em resumo: George Orwell, em 1984, estava empenhado numa rixa pessoal com o Stalinismo, ao invés de tentar prever o futuro. Ele não tinha a aptidão de ficcionista científico para prever um futuro plausível e, na verdade, em quase tudo, o mundo de 1984, pouco tem a ver com o mundo real da década de 80.
O mundo pode se tornar comunista, senão em 1984, num futuro próximo; ou a civilização pode muito bem ser destruída. Se isto acontecer, no entanto, será de uma forma tão diferente da retratada em 1984 que, se tentarmos prevenir qualquer um dos dois resultados baseando-nos neste livro, estaremos nos defendendo dos ataques de forma equivocada e seremos derrotados.
Isaac Asimov. https://medium.com/@offtopic.mvc/1984-31-anos-depois-991903a73a09