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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O editorial da polêmica - Jornal Extra

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Isso não é normal


A partir de hoje, o leitor do EXTRA passará a encontrar, em nossas páginas do jornal impresso e no site, uma expressão que, até então, nossos jornalistas evitavam: guerra do Rio. Não se trata de uma simples mudança na forma de escrever, mas, principalmente, no jeito de olhar, interpretar e contar o que está acontecendo ao nosso redor.

O EXTRA continuará a noticiar os crimes que ocorrem em qualquer metrópole do mundo: homicídios, latrocínios, crimes sexuais... Mas tudo aquilo que foge ao padrão da normalidade civilizatória, e que só vemos no Rio, estará nas páginas da editoria de guerra. Um feto baleado na barriga da mãe não é só um caso de polícia. É sintoma de que algo muito grave ocorre na sociedade. A utilização de fuzis num assalto a uma farmácia não pode ser registrada como uma ocorrência banal. A morte de uma criança dentro da escola ou a execução de um policial são notícias que não cabem mais nas páginas que tratam de crimes do dia a dia.

A criação da editoria de guerra foi a forma que encontramos de berrar: isso não normal! É a opção que temos para não deixar nosso olhar jornalístico acomodado diante da barbárie.
Temos consciência de que o discurso de guerra, quando desvirtuado, serve para encobrir a truculência da polícia que atira primeiro e pergunta depois. Mas defendemos a guerra baseada na inteligência, no combate à corrupção policial, e que tenha como alvo não a população civil, mas o poder econômico das máfias e de todas as suas articulações.

Sabemos que não há solução fácil nem mágica para o problema. Guerra pressupõe vitórias, derrotas, avanços, recuos, acertos e erros. É preciso paciência e consciência de que nada será resolvido a curto prazo. Mas temos a esperança de perder, um dia, o título de ser o único diário do planeta a ter uma editoria de guerra num país que se recusa a reconhecer que está em guerra.


Assista ao vídeo de "justificativa": https://extra.globo.com/casos-de-policia/guerra-do-rio/isso-nao-normal-21711104.html

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

The future of journalism in an age of social media and dramatic declines in print revenue

Shorenstein Center

Nicco Mele – In Search of a Business Model: The Future of Journalism in an Age of Social Media and Dramatic Declines in Print Revenue

NICCO MELE – IN SEARCH OF A BUSINESS MODEL: THE FUTURE OF JOURNALISM IN AN AGE OF SOCIAL MEDIA AND DRAMATIC DECLINES IN PRINT REVENUE

Thursday, February 18, 2016,
11:00am-12:00pm
Taubman 275
February 18, 2016 — Nicco Mele, author, digital strategist and Wallis Annenberg Chair in Journalism at the USC Annenberg School of Journalism, discussed the future and feasibility of various news outlet business models.
Mele, who is also a former senior vice president and deputy publisher of the Los Angeles Times, and a Shorenstein Center board member, said that while the production and distribution of digital journalism are well understood, “what’s not well understood is how we make money or fund journalism in the digital age.”
Mele described a deepening crisis in the newspaper industry: although some outlets are seeing the largest online audiences they have ever had, revenue is still shrinking. On a local level, preprint advertising (e.g. coupons) has seen a steep decline as retailers like Wal-Mart and Best Buy face challenges of their own. Paradoxically, print advertising still generates the vast majority of newspaper revenue – an undesirable situation, given the cost of printing.
“If the next three years look like the last three years, I think we’re going to look at the 50 largest metropolitan papers in the country and expect somewhere between a third to a half of them to go out of business,” said Mele.
Mele noted that newer entrants such as Buzzfeed, Vox and Vice rely in large part on venture capital. “None of them are yet true public companies with a clear sense of what their revenue equation looks like,” he said.
And although philanthropic and government funding could be options, Mele stressed the importance of news outlets remaining economically independent from large institutions to better fulfill their duty of holding power accountable.
What is clear is that diversity in revenue streams will be an essential part of the future, said Mele, and part of the mix could include two effective but “underappreciated” options: subscription revenue and native content.
While The New York Times and NPR have a strong subscriber base, few other outlets do, said Mele. “Part of the challenge is an overreliance on paywalls – people think you put up a wall, and that’s how you’re going to force people to pay. I think that building a subscription base is a lot more about engaging people in a variety of channels,” he said. He added that paywalls also hurt digital distribution on platforms such as Google and Facebook.
Regarding native advertising, Mele said that while the wall between editorial and advertising exists for good reason, and advertising buys must never influence coverage, there is a “huge appetite” for branded content, and cited Vice as an example of an outlet with an in-house agency that produces branded content. “It’s important that we have, industry wide, a real discussion,” he said. “That doesn’t mean that we should throw that wall away. It means we have to come to some new norms and standards for how we preserve the integrity of newsrooms but also help meet the needs of being economically sustainable and viable.”
Native advertising and other new approaches could be a way for local news outlets to win back advertising dollars lost to competitors such as Google and Craigslist. “We’ve surrendered too much to the technology industry,” said Mele. “To a large extent, Facebook and Google substantially own audiences’ attention the way that newspapers used to,” he said, even though these platforms rely on the content of established news brands. Mele said he thinks that people “are hungry for the brands they trust in their community,” and news outlets should “fight back.”
Adapting to demographic shifts in local communities is also essential for remaining relevant to both readers and advertisers. The Los Angeles Times was slow to adjust to its changing market, which is home to large populations of more than 40 nationalities, said Mele. “The very demographics and ethnic makeup of our communities and cities are changing much faster than we’re able to recognize…our media needs to understand and represent that change both inside the newsroom, as well is in the business models, and in the relationships with advertisers…you have to be a part of your community.”
But even as new business models prove to be successful, media owners will still need to temper their expectations; newspapers no longer have the high profit margins that accompanied a monopoly on audience attention. “The future of journalism is small, scrappy enterprises that are entrepreneurial, that are innovative, that are trying things. And that means that the economic expectations of the performance of those institutions has to be reset,” said Mele.
In the face of an overall “unpleasant” situation, Mele remained forward looking. “It needs to be a clarion call, not for fear and craziness, but for increased innovation, for more failure, until we’re able to find models that work more aggressively – and I think we have a pretty good idea of what those models are.”
During the question and answer session, Mele also discussed his time at the Los Angeles Times, opportunities for longform journalism, crowdfunding, microfunding, verticals for niche audiences, hyperlocal journalism, the role of social media in the 2016 election and more. Listen to the full audio recording above.
Article and photo by Nilagia McCoy of the Shorenstein Center.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O último clichê

Blog do Marceu Vieira

eueprestes
Publicado em 12 de fevereiro de 2016
Marceu Vieira

Descubro, surpreso, que, a exemplo do “Jornal do Brasil”, a querida “Tribuna da Imprensa”, onde minha história particular no jornalismo começou, ainda existe em versão on line. Apenas se suicidou no papel, ou foi suicidada, também como o velho JB.

Lembro que me entristeceu muito a notícia de que a “Tribuna” deixaria de circular. Foi no antigo jornal da Rua do Lavradio, na Lapa, que cometi meu primeiro lide. Era 1986, e eu, moleque ainda, subi aquela escada de madeira muito íngreme em busca de um estágio.

Fui recebido pelo Joaquim, chefe dele mesmo no setor de pesquisa, onde era o único funcionário. Joaquim, se minha memória não apronta desfeita, usava colares de umbanda e tinha a cara enfezada.

Contei minha história, disse que, sem o estágio, não conseguiria me formar na faculdade – eu estudava no Instituto de Arte e Comunicação Social, Iacs, da UFF – e pedi que me ajudasse.

Começava como editor-chefe naquele mesmo dia o grande jornalista Ricardo Gontijo. Joaquim, talvez tocado pela minha cara de andorinha molhada recém-pousada de um voo acidentado desde Morro Agudo, combinou de me apresentar como um afilhado ao Gontijo.

– Como é o teu nome? – perguntou.

– Marceu – respondi.

Esperei em silêncio no terceiro andar, num ambiente apinhado de jornais velhos que recendiam a mofo e a História. Joaquim foi almoçar, e fiquei ali, olhando tudo e sem tocar em nada, a não ser no embrulho do queijo quente feito em pão francês, já frio àquela altura, que eu havia comprado no botequim lá de baixo, o Boteco do Sabará, sujeito boa-praça, tão retinto quanto vascaíno, de quem eu viria a gostar tanto.

Quando o Joaquim voltou, e o Gontijo finalmente chegou para seu primeiro dia de trabalho, o meu “padrinho” me levou até ele, no segundo andar, onde ficava a redação, e disse, com seu vozeirão e sua moral de empregado mais antigo:

– Seu Gontijo, este aqui é meu afilhado, o… o… o…

– …Marceu… – cochichei.

– …meu afilhado Perceu! Ele precisa de estágio.

– …Marceu… – sussurrei de novo.

– Isso, o Alfeu! Não, o Alceu, quer dizer, o Morfeu! Ele precisa de estágio.

Depois de mais alguma espera, fui mandado para a rua com uma repórter bem bonita (não lembro agora o nome dela, mas o rosto, sim), e foi assim, com uma matéria nunca publicada sobre uma greve do metrô, que consegui minha primeira ocupação no jornalismo.

Na “Tribuna”, conheci gente que, até hoje, é referência pra mim. Tarso de Castro, que de colunista se tornaria editor-chefe no lugar do Gontijo, me apresentou a um Rio glamouroso que eu não conhecia. Iza Freaza, hoje Iza Salles, apostou em mim como um dos primeiros repórteres do suplemento “Tribuna Bis”. José Trajano, querido chefe, me fez, com meu coração rubro-negro, gostar ainda mais do seu América Futebol Clube. Teixeira Heizer, cracaço do texto e do bom senso, me deu lições de estética e ética que guardo para sempre.

Paulo Sérgio, com seu mau humor, tentou corrigir meus defeitos de repórter iniciante – e, claro, não conseguiu. Ramiro Alves viraria meu amigo da vida inteira. Celso de Castro Barbosa, idem. Vladimir Porfírio, meu irmão querido, também. Maurício Fonseca é mais um. As irmãs Lídia e Beth Pena, outras. Palmério Dória, Cosme Coelho, Paulino Senra, Venerando Martins, Carlos Ramos, Lilian Newlands, Deborah Dumar, Regina Perez, Ana Carvalho, Robertão Porto, Carla Rodrigues, os fotógrafos Alcyr Cavalcanti, Jorge I, Jorge II, Jorge Nunes e Marcus Vinícius, Continentino Porto, Hudson Carvalho, Juçara Braga, Geraldo Lopes, Arthur Parahyba, Antônio Caetano, os caricaturistas Jane e Marcelo, Argemiro Ferreira, o fabuloso Bertoldo, os velhos Napoleão e Aragão, Fábio Grecchi, tanta gente…

A começar pelo Helinho Fernandes, que assinou minha primeira carteira de trabalho na profissão e me mandou para uma temporada de um ano em Brasília, onde morei de favor na casa do amigo e baita repórter Jorge Oliveira, fui foca na Constituinte de 1988 e tive a alegria de fazer entrevistas longas (que adoraria recuperar) com políticos como o então também foca Lula, em seu primeiro e único mandato de deputado, o já emplumado e já famoso FH, Mário Covas, José Richa, Eduardo Suplicy e outros.

Nunca vou me esquecer dessas pessoas. Nunca vou me esquecer da “Tribuna”.

Pela “Tribuna”, entrevistei Luís Carlos Prestes num 1° de Maio na Quinta da Boa Vista e ganhei dele um livro autografado. Pela “Tribuna”, vi Leandro, maior lateral-direito do Flamengo, do Brasil e do mundo em todos os tempos, meter um golaço no ângulo de Paulo Victor num Fla-Flu. Pela “Tribuna”, assisti à tragédia do incêndio no Edifício Andorinha. Jamais vou esquecer.

Como também nunca vou conseguir me esquecer do “Jornal do Brasil”. Recordo que estava na África do Sul, em 2010, pelo “Globo”, quando li pela internet a notícia de que o JB de papel iria acabar.

Passei no JB os dias mais felizes da minha vida profissional. Passei no JB também os dias mais tristes. Foram oito anos. Oito anos tão intensos, divididos em dois períodos de quatro, que, na minha memória afetiva, pareceram bem mais de oito. Pareceram uma vida toda. Ainda parecem.

Quatro dias foram os mais marcantes da minha carreira de jornalista. Dois foram os mais felizes. Dois, os mais tristes. O primeiro mais feliz foi o da minha chegada ao JB, em 1988, se não me engano. O segundo foi o da minha volta, em 1994. O segundo mais triste foi o da minha primeira saída, em 1991. O mais triste de todos foi o da minha despedida para sempre, em 1998.

Talvez nada que eu ainda possa fazer nos anos que me restam na profissão marque tanto a minha carreira quanto os oito de JB. Eu gostava tanto daquela casa que, na minha neuropatia amorosa de jovem repórter, imaginava não haver ninguém que a amasse tanto. Nem seus donos.

Pelo JB, fui a Ouricuri, nos cafundós de Pernambuco, e entrevistei uma senhorinha que, nos fundos de seu quintal de chão rachado pela seca, administrava um cemitério particular. Era o cemitério informal de seus próprios filhos natimortos. Um quintal espetado por umas 15 cruzes, nenhuma delas amparada em atestado de óbito. Um Brasil que o Brasil jamais registrou. Como testemunha, estava comigo o grande repórter-fotográfico Tasso Marcelo.

Pelo JB, passei um mês na Floresta Amazônica à espera de uma epidemia de cólera que nunca chegou.

Pelo JB, em 1990, numa viagem a Porto Alegre, entrevistei Alceu Colares, então candidato ao governo gaúcho, num momento em que caía nas pesquisas depois de, em plena campanha, ter trocado a mulher negra por uma loura um pouco mais jovem, a quem a língua má da oposição chamava de “Xuxa”.

Colares chorou na entrevista, e o choro descrito e retratado na reportagem ganhou uma dimensão enorme em seu estado, e seu pranto queixoso de preconceito ecoou no Rio Grande do Sul, e o “Doutor Negrão”, como era conhecido por lá, voltou a subir nas pesquisas para vencer o direitista Nelson Marchesan.

Pelo JB, descobri uma praia deserta no Rio, onde Brizola, então governador, havia se refugiado para meditar e, em certa ocasião, levado seu amigo Mário Soares, socialista português, ali presidente de seu país. Brizola ia até lá de helicóptero, único meio de transporte possível até o refúgio.

Pelo JB, apresentei ao Rio e ao Brasil um botequim de Copacabana chamado Bip Bip.

Pelo JB, subi e desci todos os andares do Edifício Chopin, em Copacabana, num pós-réveillon, para um relato pretensiosamente antropológico da então riqueza decadente do Rio.

Pelo JB, ajudei a acrescentar linhas nas biografias do próprio Brizola, do Collor, do Lula, do FH, do Cesar Maia, do Marcello Alencar, do Moreira Franco, tantos outros políticos que ainda estão por aí ou já se foram.

Pelo JB, trabalhei quase 24 horas seguidas no dia em que o corpo de Tom Jobim chegou ao Brasil, em dezembro de 1994.

Pelo JB, tantas coisas.

No JB, tive a alegria de escrever no espaço que um dia havia sido de Castellinho. Saudade.

Por causa do JB, conheci Betinho, e muito escrevi sobre ele, seu calvário e sua morte. Saudade também.

Saudade do “200 no lugar da 20”, jargão de retrancas que só quem trabalhou lá pode entender. Saudade do quadrado de memória nas páginas de política, das minhas interinidades no “Informe JB” do meu guru eterno Ancelmo Gois.

Saudade de assistir ao amanhecer num boteco infame da Leopoldina depois das madrugadas de “pescoção”, saudade do pôr do sol em São Cristóvão, o mais bonito do Brasil. Saudade de tanta gente. Saudade de mim mesmo e do repórter-cronista que eu sonhei que poderia me tornar naquelas páginas impregnadas de tanta nobreza.

domingo, 8 de novembro de 2015

Aula de (mau) jornalismo...



Por Fernando Moraes (FB)

necrópsia profissional realizada na página de política do estadão de hoje pelo Alberto Villas - inspirado em denúncia do Chico Bicudo .

lembro que nos anos 50 o estadão afirmava que o presidente jk havia acumulado a sétima maior fortuna do planeta com a construção de brasília.
o lobo perde o pêlo, mas não perde o vício.

https://www.facebook.com/fernando.morais.1612/posts/1175095989174336?fref=nf

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Disruption In The Newspaper Industry — A Framework


Even though there have been volumes of work published on every single aspect of the current upheavals changing the face of the newspaper industry, consistent yet simple representations of the big picture seem really hard to come by. Which is why we have tried to create a framework showing a bird’s eye view of these causes and their interrelations.
Most of these trends shape the structural underpinnings of all media types, however our reflections are centered around the newspaper industry in a narrow sense.

Aim — Identify the key drivers of disruption and show how they are connected

Our flowchart is designed to help capture the most important macro trends at a glance, placing them in relation to each other. The first goal of this framework is to create an understanding of the challenges that we face as an industry. The second goal is to allow the mental positioning of projects and activities in relation to the drivers of the current structural change. This can help in assessing various options, identify innovation gaps and synchronize strategic measures. The latter being a step from the «problem level» which is visualized here to developing responses and solutions in order to tackle these challenges.
Diagrams like this are an oversimplification of reality. Yet we think that for practical purposes sometimes exactly this is necessary to facilitate high level strategic discussions.

Explanation — How to read this

By collecting and clustering the topics that are regularly discussed in news industry, we have identified four basic forces that drive the aforementioned structural change:
  1. Increasing content supply in the attention economy
  2. Increasing «power» of the individual
  3. Increasing role of technology in the core business
  4. Traditional business is no longer financially viable
While numbers 1. and 2. can be broadly subsumed under the category of market participants (indicated by the dashed line grouping them together), the forces under 3. all relate to infrastructural changes. Those under 4. fall into the category of monetization issues. Some of the subtrends originate in one category but exert their influence in other categories. «Falling barriers to market entry by declining costs» for example is a subtrend in the infrastructure category yet has «new, digital native content providers» as a consequence. These cases are indicated by corresponding colors. However: If you take away only one thing from this, it would be the four big drivers.

Feedback — A living document

We plan to treat our framework as a «living document» that will be expanded and refined. If you have feedback of any kind — be it criticism or aspects that we didn’t think of, we would greatly appreciate an email to labs_at_nzz.ch. Also: If you want to further discuss these themes, by all means, get in touch.
This post first appeared on labs.nzz.ch. NZZ Labs is the R&D team of Neue Zürcher Zeitung. Idea and concept: Florian Steglich, Thom Nagy, Gudrun Moeller. Design: Samuel Raymann. Input: Florian Gossy, Mathias Menzl, David Bauer, Markus Hametner, Nick Lüthi (thanks again!).

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O futuro da mídia impressa em debate no 'Encontros O GLOBO'

Ciclo de palestras comemora lançamento do acervo digital do jornal
Sérgio Matsuura

Desde o surgimento da internet comercial, ainda no século passado, o debate sobre o futuro dos jornais impressos esteve em pauta. Agora, com a popularização dos dispositivos móveis, o tema volta à tona com força. Reunidos na Casa do Saber, na Lagoa, representantes de três grandes veículos brasileiros de imprensa discutiram ontem os desafios colocados pelo avanço tecnológico, ressaltaram possibilidades e foram uníssonos em dizer: o papel ainda tem um longo caminho pela frente. O debate faz parte de um ciclo de palestras dentro da programação dos Encontros O GLOBO, com temas que passam em revista a realidade do país nas áreas de tecnologia, cultura, economia e política. Os painéis são realizados na Casa do Saber O GLOBO, a partir das 17h. - O papel ainda sobrevive por muito tempo, mas é evidente que o modelo de negócio vai ser complementado pelo digital. Sobrevive não pelo saudosismo, como os discos de vinil, mas porque ele é conveniente. O leitor recebe em casa um relatório impresso, da marca que ele confia, com os fatos e análises das últimas 24 horas. É um valor para o indivíduo - afirmou Ricardo Gandour, diretor de jornalismo do "Estado de S.Paulo". 

Modelo de cobrança on-line

O debate foi mediado pelo editor executivo do GLOBO Pedro Doria, que ressaltou a importância do jornalismo de qualidade, não importando o meio que é entregue, seja papel, tablet ou internet. Cumprindo a função de mediador, o jornalista destacou que os ganhos com publicidade na internet são menores comparados ao faturamento com anúncios no impresso. A pergunta colocada aos convidados foi como gerir uma grande redação caso o jornal impresso perca relevância. Um dos caminhos apontados foi o início da cobrança pelo acesso ao site. A editora de Tecnologia da "Folha de S. Paulo", Camila Marques Braga, contou um pouco da experiência do jornal paulista, que adotou o paywall há pouco mais de um ano. Segundo ela, apesar do limite imposto ao acesso ao conteúdo publicado na internet, a audiência vem crescendo, assim como o número de assinaturas digitais. - Ainda não consigo imaginar fazer o jornalismo que fazemos hoje sem o dinheiro da publicidade do papel, mas estamos tentando novas formas de faturamento. Nós estamos implementando o paywall no Brasil num momento confortável, diferente do que aconteceu nos EUA, onde os jornais estavam no vermelho. Com pouco mais de um ano de experiência, a audiência não caiu, as assinaturas digitais cresceram e a maior parte dos leitores elogia a medida - contou Camila. O GLOBO iniciou a cobrança pelo acesso ao site ontem. Segundo Gandour, "O Estado de S. Paulo" também planeja modelo semelhante. - O interessante é que o leitor passa a ser mais crítico. Quando ele paga, ele se sente mais proprietário da informação e faz mais ponderações, que nos ajudam a melhorar - destacou Camila. No embalo dos protestos de junho, o uso de novas tecnologias no fazer jornalístico também foi discutido. Gandour classificou como "equivocado" o antagonismo colocado entre "mídia tradicional" versus "novas mídias". - Há 30 anos, um cidadão ligava para o jornal e informava sobre um incêndio. Ele já era ninja. E a redação fazia o quê? Apurava. Essa participação, a inclusão da sociedade, que as redações precisam incorporar, como incorporaram o sujeito da ficha telefônica há 30 anos - afirmou.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Liberdade em risco

Segundo ANJ, houve onze casos de ações judiciais que impediram a divulgação de reportagens em 2012

MAIÁ MENEZES (EMAIL · FACEBOOK · TWITTER)


Justiça proíbe publicação de investigação contra desembargador Clayton Coutinho de Camargo, presidente do Tribunal de Justiça do Paraná
Foto: Ivonaldo Alexandre/ Agência de Notícias Gazeta do Povo
Justiça proíbe publicação de investigação contra desembargador Clayton Coutinho de Camargo, presidente do Tribunal de Justiça do Paraná Ivonaldo Alexandre/ Agência de Notícias Gazeta do Povo
RIO E BRASÍLIA - O mais novo caso de veto judicial ao trabalho jornalístico no país — a proibição de que o jornal “Gazeta do Povo”, do Paraná, publique informações sobre investigações abertas contra o presidente do Tribunal de Justiça do estado, Clayton Camargo — reabre o debate sobre a censura prévia ao trabalho da imprensa. A decisão, noticiada sábado pelo jornalista Ancelmo Gois em sua coluna em O GLOBO, é, para especialistas, mais uma no rol das que abalam a liberdade de expressão no Brasil, que, em 2012, caiu de 99 para 108 no ranking mundial sobre o tema, divulgado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras. Dados da Associação Nacional de Jornais (ANJ) mostram que, no ano passado, houve onze casos de ações judiciais que impediram a divulgação de reportagens.
— É lamentável. Trata-se de pura e simples censura, o que é proibido pela Constituição. Isso tem sido recorrente. Com muita frequência ,essas decisões posteriormente são revogadas com os recursos. Mas o mal já está feito. Porque a censura, mesmo por pouco tempo, é uma inconstitucionalidade — analisa o diretor-executivo da ANJ, Ricardo Pedreira.
Relatório da Sociedade Interamericana de Imprensa, de abril, aponta a preocupação com “a recorrência de decisões judiciais proibindo previamente a divulgação de informações pelos meios de comunicação”. A SIP cita especificamente o caso do jornal “O Estado de S. Paulo, que segue proibido de divulgar informações sobre processo contra um dos filhos do senador José Sarney, Fernando Sarney.
— Pessoalmente, entendo que liberdade de imprensa é, antes de tudo, liberdade de informação. Assim, tudo o que for veículo de informação deveria estar a salvo de qualquer censura — disse o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Ayres Britto, que, na última sessão como presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em novembro passado, criou o Fórum Nacional do Poder Judiciário e Liberdade de Imprensa.
— A informação verdadeira é um direito dos cidadãos. Quem se coloca contra a liberdade de expressão são as autoridades. Estamos diante de uma ofensiva judicial para retirar do povo, por caminhos transversos, o direito à informação — avalia o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), que acaba de assumir a presidência da comissão de liberdade de expressão da OAB-RJ.
Decisão atinge também conteúdo digital
Em abril, o CNJ abriu a investigação para apurar a suspeita de venda de sentença por Cleyton Camargo. A advogada de uma das partes de uma ação que julgou, quando atuava como magistrado da área de Família, o acusou de ter recebido dinheiro para decidir em favor da outra parte, em uma ação que envolvia disputa de guarda de filhos, em 2011. No mês passado,a corregedoria do CNJ abriu outro procedimento, desta vez para investigar suspeita de que Cleyton Camargo teria usado sua influência para favorecer a candidatura do filho, o deputado estadual Fábio Camargo (PTB), à vaga de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Paraná. Fábio tomou posse no final de julho. Procurados pelo GLOBO, o presidente do TJ e o deputado não foram localizados.
A liminar garantindo que as notícias sobre as denúncias não fossem publicadas no jornal foi concedida há um mês. O desembargador, no pedido, sustenta que “os fatos em notícia (...)vieram impregnados pelo ranço odioso da mais torpe mentira”. Ele pede, ainda, que as reportagens sejam retiradas da página do jornal na internet.
Ayres Britto admite que ainda há um vazio quando se trata de informações jornalísticas publicadas pela internet.
— Em 1988, já havia computadores, mas não havia uma rede planetarizada, não havia conectividade. Assim, a Constitução não trata de liberdade de imprensa na internet. Isso é um assunto complexo que demanda uma discussão mais aprofundada — explicou o ex-ministro.
¨— Essa indústria de ações contribui para levar o Brasil a posições ruins no ranking da liberdade de imprensa — diz o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Moreira.
Na decisão, o juiz Benjamin Acácio de Moura e Costa destaca caráter “degradante e pessoalizado” nas reportagens, “transcendendo o dever informativo”, criando o que chama de “garupa na liberdade de imprensa, constitucionalmente garantida, um instrumento por vezes leviano de se atingir a pessoa humana”. A “Gazeta do Povo”, no recurso ajuizado este mês, sustenta que “não existe qualquer agressão a direitos da personalidade do autor, mencionado nas reportagens na qualidade de autoridade pública” e que “as reportagens que abordam as investigações empreendidas servem ao acervo de informações disponíveis sobre a história do Paraná e o direito à história não permite o uso da borracha”. (Colaboraram: Martha Beck e Cleide Carvalho)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Existe uma crise nos impressos ? Nada a declarar, respondem os jornais

Empresas brasileiras negam que haja crise no setor; segundo sindicato, a portas fechadas, representantes reconhecem que negócios vão mal



Por Camila Rodrigues, Bruno Fonseca, Luiza Bodenmüller e Natalia VianaCirculação de jornais no Brasil segue tendência de crescimento



Os mesmos jornalistas que trabalham no dia-a-dia por transparência em todos os setores da sociedade ficam no escuro quando se trata da indústria em que trabalham. “Eu acho tudo muito estranho, pois, ao mesmo tempo em que acontecem esses passaralhos, somos informados, por meio de mensagens internas, que o número de venda de jornais aumentou, que o site bateu recorde etc. Ou seja, algo está fora da ordem, não!?”, resume um jornalista do Grupo Folha, recentemente demitido, que prefere não ter seu nome revelado.
“O argumento das empresas depende do interlocutor”, diz Paulo Zocchi, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. “A gente chega numa negociação de campanha salarial, e os jornais sempre dizem que o negócio está indo mal. Mas para o público externo eles falam que está indo muito bem”. Presente em diversas das negociações referentes à atual revoada de passaralhos – demissões em massa de jornalistas – Zocchi descreve que até tem quem admita, na sala de negociações, que o discurso é duplo. “Os caras falam: ‘O que você quer que a gente fale pro mercado? Mas cá entre nós, está indo mal’. É dificílimo saber com detalhes a situação real das empresas”, diz Paulo.
De fato, enquanto anunciava o corte de 24 funcionários, a Folha culpou o “fraco desempenho da economia e seu reflexo na publicidade” pelas demissões; mas dois anos atrás o Grupo Folha celebrava ter triplicado seu faturamento na primeira década deste século, chegando a R$ 2,7 bilhões em 2010 – com um lucro, antes de impostos, de R$ 600 milhões no mesmo ano.
“A situação econômica da Folha é boa, a empresa não tem dívidas”, comentou, na sua coluna, a ombudsman Suzana Singer. Na Abril, a reestruturação – e os cortes, que podem atingir centenas de funcionários – vieram apenas dois meses depois da empresa exibir sua saúde financeira, anunciando receita líquida de R$ 2,98 bilhões em 2012, sendo R$ 1,03 bilhão proveniente de publicidade. A empresa também investiu na área Abril Educação, que absorveu marcas como Ática e Scipione, e o sistema Anglo Vestibulares.
Em seu site, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) também se apresenta otimista: “Publicidade em jornais brasileiros deve aumentar 5% em 2013”, anuncia. “Apesar do pequeno crescimento do PIB em 2012, os investimentos em publicidade em jornal no Brasil devem aumentar 5%, conforme as previsões da Warc, um centro de pesquisa voltado ao levantamento das tendências do mercado publicitário mundial”. Usando outra fonte, a pesquisa Inter-Meios, uma iniciativa do jornal Meio & Mensagem com “os principais meios de comunicação do Brasil”, a ANJ mostra por A mais B que os anúncios em jornais têm aumentado ano a ano – foram de R$ 3,36 bilhões em 2011 para R$ 3,38 bilhões em 2012.
Caso o infográfico não funcione, clique aqui (recomendado para dispositivos Android)
Procurada pela Pública, a ANJ disse que não comenta casos específicos de demissões – e, sobre a famigerada crise nos meios, limita-se a indicar as otimistas análises de seu site. O diretor do Estadão disse que não se pronunciaria sobre o assunto; a Folha de S. Paulo e o Valor Econômico também foram procurados mas não responderam até o fechamento da matéria. Apenas o diretor da Editora Trip – uma editora de médio porte – Paulo Lima, conversou abertamente com a reportagem sobre as 19 demissões ocorridas em sua empresa.
MAS AFINAL, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
A inglesa Susy Young, diretora de estatísticas do centro de pesquisas britânico Warc, é uma das vozes mais confiáveis quando se trata de receita publicitária. Entusiasta do aumento de publicidade – que, em escala mundial, está concentrada na Ásia e na América Latina, contra uma decadência na Europa e nos EUA – ela verifica que não houve queda na publicidade de impressos, mas uma perda de espaço para outros setores. “Em 2012, o que nós previmos foi um crescimento modesto em gastos de anúncios para jornais e revistas. Mas previmos também que os meios impressos iriam perder em termos de fatia, nos gastos publicitários gerais”.
O fato é que, embora digam aos quatro ventos que a crise dos jornais não chegou ao Brasil, os conglomerados estão vendo os anúncios migrarem – de maneira irreversível.
“Existe a crise”, diz – em off – um alto executivo da indústria editorial. “O que não se sabe é dividir entre o que é estrutural e o que é conjuntural”. Embora a circulação dos jornais continue crescendo um pouco – o aumento foi de 2,7% em 2012– ela está sendo “puxada” pelos jornais populares como o Extra, do Rio, e Super Notícias, de Belo Horizonte. Já a circulação de revistas caiu 4,6% em 2012. Quanto à questão “conjuntural”, os jornais reclamam do fraco desempenho da economia – já que, em tempos de crise, os anunciantes recorrem à TV para se livrar dos seus produtos em estoque mais rapidamente. Não que isso seja uma novidade no panorama brasileiro.
“Hoje continua fazendo sentido investir em impressos. Agora, se tiver uma migração de publicidade mais agressiva, é algo que vamos ter que pensar daqui a um tempo”, diz o executivo.  Para ele, a internet, “ao mesmo tempo que democratizou o acesso à informação, está tirando parte do financiamento das publicações, das empresas de comunicação”.
O grande problema são os anúncios online – daí a velha bronca da indústria de notícias com o Google, que tem faturado uma grande parte da publicidade na internet. A briga é feia, e levou alguns dos maiores jornais do país a retirarem seu conteúdo da busca do Google News, exigindo o pagamento de “royalties”. Aos poucos, estão voltando.
Outros sites de buscas diretas de carros ou imóveis, por exemplo, também acabaram pulverizando um mercado que antes era concentrado nas mãos dos poucos grupos de comunicação.

INTERNET SUPEROU JORNAIS ENTRE OS ANUNCIANTES

Segundo um relatório do IAB Brasil (Interactive Advertising Bureau), a receita publicitária da Internet superou a dos jornais no primeiro trimestre de 2012, tornando-se a segunda mídia com maior receita publicitária no Brasil, depois da TV. Embora uma boa parte desses anúncios vá parar nos grupos de comunicação tradicionais – como no portal UOL, o maior da América Latina, que pretence ao Grupo Folha –, outra gigantesca fatia vai para os sites de busca.
Os dados da IAB apontam que, do total de R$ 4,57 bilhões arrecadados em 2012, R$ 2,2 bi foram investidos em publicidade display (como banners) e R$ 3,82 bilhões em ferramentas de busca – esse último modelo de anúncio cresceu 39%, sendo o que mais cresce nos últimos dois anos.
“Os anúncios em impressos irão decrescer, mas os digitais vão aumentar”, diz Susy. “Olhando os dados de nossas previsões, vejo que o total de ganhos de anúncios com a internet vai superar os meios impressos (jornais e revistas) em 2014”. Mas ela faz uma ressalva: “É difícil falar em termos de declínio de anúncios de jornais, já que muitos deles também têm uma presença digital” – e, portanto, também estão lucrando com a proganda online, mesmo que seja menos que o Google. .
Em resumo, diz o executivo, “o que está acontecendo no mundo é o mesmo que tá acontecendo no Brasil”.

QUEDA MUNDIAL NO NÚMERO DE JORNALISTAS EMPREGADOS

E o que está acontecendo no mundo é claro: os jornais têm optado por reduzir a mão de obra, aumentar a carga de trabalho e, assim, manter os lucros. Segundo a ASNE, Associação Americana de Editores de Notícia, em 2012 havia 40,6 mil jornalistas empregados em redações nos EUA; o número é o menor desde que o levantamento anual passou a ser feito, em 1973, quando havia 43 mil jornalistas empregados. “É um risco que a indústria corre”, diz o executivo, ao ser perguntado sobre o impacto dessas demissões no produto.
Para alguns jornalistas, porém, como Paulo Zocchi, o problema é mais profundo: trata-se da consolidação de um estilo gerencial que privilegia metas ambiciosas e lucros altos. “Estamos vivendo no momento uma certa pressão econômica sobre as empresas. Elas trabalham com um padrão de rentabilidade muito alto hoje, uma rentabilidade de banco. Traçam metas altas e quando ficam abaixo dessa metas está longe de dar prejuízo, mas fazem cortes. Evidentemente isso significa um aumento da exploração do trabalho. Hoje em dia, em relação há 20, 30 anos, o ritmo está muito mais acelerado”. Quando Zocchi consulta os dados da Inter-Meios – os mais confiáveis sobre a indústria – com outros olhos, o que os dados revelam é que “a receita tem aumentado muito mais que o salário dos jornalistas nos últimos 10, 15 anos”.
Para ele, é comum o discurso da indústria atribuir esse novo ritmo à informatização das redações. “É como se isso fosse resultado do avanço da técnica: tem mais tecnologia, é tudo virtual, então se trabalha mais. Na verdade, a empresa se apropria dessa tecnologia que permite unificar funções jornalísticas, e usa isso totalmente voltado para as necessidades dela, para aumentar a rentabilidade. Isso sacrifica as pessoas”.

A VOZ DO DONO E O DONO DA VOZ

No final de maio, a revista “Trip”, que se destaca por produzir conteúdo jovem, demitiu 19 pessoas, o que, segundo o editor e fundador Paulo Lima, representa menos de 8% do total de funcionários. Foram três jornalistas, quatro da área de publicidade, dois designers, quatro da área de produção de moda e ensaio sensual, e o restante de áreas de apoio, como TI (tecnologia da informação) e almoxarifado. Em entrevista à Pública, ele conta que os cortes foram resultado de uma consultoria realizada pela Falconi Consultores de Resultado, uma das principais consultorias de gestão do país. “Por isso que eu digo que essas demissões tem menos a ver com a crise momentânea e mais com um movimento planejado da empresa”, explica o publisher.
Segundo ele, a Trip cresceu em média 30% ao ano nos últimos 10 anos. “Então, é quase inevitável que você termine um ciclo como esse com algumas questões de ineficiência. Vou dar alguns exemplos: a Trip tem ensaio sensuais femininos, a TPM tem ensaios sensuais masculinos e o site também tem uma sessão de ensaios. A gente tinha em um mesmo núcleo três equipes para fazer ensaios sensuais. É evidente que havia um excesso de pessoas para fazer a mesma atividade”. Essa equipe a que se refere é de produção, já que os fotógrafos já eram terceirizados. Para poupar ainda mais recursos, Lima conta que a empresa centralizou as divisões de revistas e de produtos customizados em um só núcleo. Além disso, ele aposta na terceirização. “A forma de fazer conteúdo está mudando. A tendência, como a gente pode ver recentemente com a Record, é terceirizar a produção e trabalhar com produtores independentes. Acho que é esse o processo que a gente está perseguindo. É adequar a nossa gestão ao nosso tempo”.

O FUTURO, INCERTO

A grande maioria dos analistas que tratam do futuro do jornalismo – em especial, nos EUA – fala de “mudança de paradigma”, com o fim da indústria das notícias. Os pesquisadores C.W. Anderson e Emily BelleClay Shirky, da Universidade de Columbia, assumem esse desfecho no relatório “O Jornalismo Pós-industrial: adaptando-se ao presente”:
“Não existe mais uma indústria de notícias. (…) Antes a indústria era mantida pelas condições que determinam o que é uma indústria: métodos similares dentre um grupo relativamente pequeno e coeso de empresas, e uma inabilidade competitiva da produção de todo o resto daqueles que estavam fora deste grupo. Essas condições não são mais verdadeiras”.
Isso não significa, é claro, que o jornalismo em si esteja à beira do precipício. Como diz Paulo Zocchi, a crise ocorre porque, justamente, “o negócio de comunicação está em franca expansão”. “Nada indica, na minha opinião, que o trabalho do jornalista vai acabar. Estamos, em primeiro lugar, lutando para que as condições de trabalho não piorem mais”.
Existe, ao mesmo tempo diversas iniciativas que procuram realizar jornalismo de outras maneiras – como é o caso desta Agência Pública, uma organização sem fins lucrativos – mas, para a maioria dos jornalistas, resta a incerteza de como será o seu próprio futuro. “Eu acho que as pessoas estão vendo que vão ter que se adaptar, mas nem todo mundo, eu inclusive, ainda não sabe exatamente como se encaixar nesta nova realidade. A piada é ‘vou montar um blog e ficar rico’” – brinca uma jornalista da editora Abril que, ainda num cenário de possibilidades restritas, prefere não se identificar para não arriscar seu ganha-pão.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Jornalismo pós indústrial


Adaptação aos novos tempos


Por C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky em 25/04/2013 na edição 743
Tradução de Ada Félix


Preparado no âmbito do Tow Center for Digital Journalism da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, o documento a seguir foi traduzido com exclusividade para aRevista de Jornalismo ESPM, que autorizou sua reprodução neste Observatório. Trata-se de um relatório de pesquisa sobre o jornalismo pós-industrial, lançado em 2012, e dividido em três partes: Jornalistas, Instituições e Ecossistema. Para ler a íntegra do material, clique aqui e peça a sua Revista de Jornalismo ESPM.
O documento apresenta o atual estágio do jornalismo, em que as condições técnicas, materiais e os métodos empregados na apuração e divulgação das notícias até o fim do século 20 já não se aplicam. Estamos em meio a uma revolução, e a adaptação às novas fronteiras da profissão é a condição de sobrevivência nesse cenário, que prevê o uso intensivo de bases de dados, além da interação com múltiplas fontes e com o público.
O foco do trabalho é a imprensa norte-americana, mas as lições a serem tiradas da análise servem a todos os interessados nos rumos dessa indústria.

Introdução
Transformação do jornalismo norte-americano é inevitável
Parte pesquisa e parte manifesto, o presente dossiê trata do exercício do jornalismo e de práticas de jornalistas nos Estados Unidos. Não é, contudo, um documento sobre o “futuro da indústria jornalística”. Primeiro, porque boa parte desse futuro já chegou. E, segundo, porque já não há mais uma indústria jornalística, por assim dizer.
Antigamente, havia uma. Era uma indústria que se mantinha em pé por coisas que em geral mantêm um setor em pé: a similitude de métodos entre um grupo relativamente pequeno e uniforme de empresas e a incapacidade de alguém de fora desse grupo de criar um produto competitivo. Essas condições não se cumprem mais.
Se quisesse resumir em uma sentença a última década no ecossistema jornalístico, a frase poderia ser a seguinte: de uma hora para outra, todo mudo passou a ter muito mais liberdade. Produtores de notícias, anunciantes, novos atores e, sobretudo, a turma anteriormente conhecida como audiência gozam hoje de liberdade inédita para se comunicar, de forma restrita ou ampla, sem as velhas limitações de modelos de radiodifusão e da imprensa escrita. Nos últimos 15 anos houve uma explosão de técnicas e ferramentas. E, mais ainda, de premissas e expectativas. Tudo isso lançou por terra a velha ordem.
Não há como olhar para organizações distintas como Texas Tribune, SCOTUSblog e Front Porch Forum, ou mesmo plataformas como Facebook, YouTube e Storify, e notar qualquer coerência. Não há como olhar para novas experiências no jornalismo sem fins lucrativos, como o trabalho de Andy Carvin na National Public Radio (NPR) durante a Primavera Árabe, e acreditar que o jornalismo está seguro nas mãos de empresas voltadas ao lucro. E não há como olhar para experiências de financiamento coletivo de jornalismo pelo site de crowdfunding Kickstarter, ou para a cobertura de manifestações de protesto via celular, e acreditar que só profissionais e instituições da imprensa podem tornar a informação pública.
Muitas das mudanças discutidas na última década como parte da futura realidade do jornalismo já ocorreram; boa parte do futuro vislumbrado para o jornalismo já se converteu em presente (é como disse o escritor William Gibson lá atrás: “O futuro já chegou, só não está uniformemente distribuído”). Nossa meta, em vez de ficar tecendo conjecturas, é escrever sobre o que já ocorreu, o que está acontecendo neste instante e que lições é possível tirar disso tudo.
As transformações em curso no ecossistema jornalístico já tiveram o efeito de derrubar a qualidade da cobertura jornalística nos Estados Unidos. Estamos convencidos de que, antes de melhorar, a situação do jornalismo em solo norte-americano irá piorar ainda mais – e, em certos lugares (sobretudo em cidades de médio e pequeno porte, sem um jornal diário), piorar muito. Nossa esperança é limitar o alcance, a profundidade e a duração dessa derrocada. Como? Sugerindo saídas para a produção de um jornalismo de utilidade pública, com a adoção de ferramentas, técnicas e premissas nem sequer imagináveis dez anos atrás.
Também mostramos que novas possibilidades para o jornalismo exigem novas formas de organização. Até aqui, a tendência de veículos de comunicação tradicionais foi a de preservar tanto métodos de trabalho como hierarquias, mesmo com o colapso de velhos modelos de negócios e a incompatibilidade de novas oportunidades com velhos padrões. Em entrevista após entrevista com representantes da imprensa tradicional focados no digital, constatamos a frustração causada por velhos processos. A adaptação a um mundo no qual o povo até então chamado de “audiência” já não é mero leitor e telespectador, mas sim usuário e editor, vai exigir mudanças não só em táticas, mas também na concepção que o jornalismo tem de si. Incorporar um punhado de técnicas novas não será suficiente para a adaptação ao novo ecossistema; para tirar proveito do acesso a indivíduos, multidões e máquinas, também será preciso mudar radicalmente a estrutura organizacional de veículos de comunicação (estamos cientes de que muitas das organizações de hoje verão nessas recomendações um despautério).
Este dossiê é dirigido a diversos públicos – a veículos de comunicação tradicionais que queiram se adaptar, a novos atores (sejam eles jornalistas independentes, novos projetos de jornalismo ou até organizações que não pertenciam ao ecossistema jornalístico) – e a organizações e entidades que afetam o ecossistema da notícia, sobretudo governos e faculdades de jornalismo, além de empresas e instituições sem fins lucrativos.
Partimos de cinco grandes convicções:
1. O jornalismo é essencial.
2. O bom jornalismo sempre foi subsidiado.
3. A internet acaba com o subsídio da publicidade.
4. A reestruturação se faz, portanto, obrigatória.
5. Há muitas oportunidades de fazer um bom trabalho de novas maneiras.

O jornalismo é essencial
O jornalismo expõe a corrupção, chama a atenção para a injustiça, cobra políticos e empresas por promessas e obrigações assumidas. Informa cidadãos e consumidores, ajuda a organizar a opinião pública, explica temas complexos e esclarece divergências fundamentais. O jornalismo exerce um papel insubstituível tanto em regimes democráticos como em economias de mercado.
A atual crise de instituições norte-americanas de jornalismo nos convence de duas coisas. A primeira é que não há como preservar ou restaurar o jornalismo no formato praticado ao longo dos últimos 50 anos. E a segunda é que é mister que busquemos, de modo conjunto, novas saídas para o exercício de um jornalismo capaz de evitar que os Estados Unidos descambem para a venalidade e a pura defesa de interesses pessoais.
É óbvio que nem todo jornalismo é essencial. Muito do que se produz hoje não passa de entretenimento ou diversão. Aqui, no entanto, iremos lidar apenas com o lado sério do jornalismo – o que alguns chamam de hard news, accountability journalism ou o “núcleo duro da notícia”. Na crise atual, a notícia séria é o que importa. Em vez de tentar enumerar ou definir tudo aquilo que distingue a notícia séria da futilidade, decidimos adotar a célebre prova dos noves de Lord Northcliffe: “Notícia é algo que alguém, em algum lugar, não quer ver publicado. Todo o resto é publicidade”.
Isso não significa que o material produzido por veículos de comunicação possa ser precisamente dividido em duas categorias, a de notícias sérias e a de futilidades. Às vezes, o caderno de economia vai dar uma matéria sobre estampas de gravatas; em outras, o caderno de moda trará uma reportagem sobre algum negócio realizado no mundo da moda. No momento em que escrevo, o site do New York Daily News traz um texto sobre o novo corte de cabelo da cantora Miley Cyrus e um sobre a persistente e elevada taxa de desemprego em Nova York.
Mesmo cientes dessa diversidade, o hard news é o que distingue o jornalismo de outra atividade comercial qualquer. Sempre haverá público para a cobertura de esportes, de celebridades, de jardinagem, de culinária – mas não haveria grande impacto para o país se toda essa atividade fosse feita por amadores ou máquinas. O que tem impacto, sim, é a cobertura de fatos importantes e reais capazes de mudar os rumos da sociedade. A cobertura do insistente abrigo de pedófilos no seio da Igreja Católica, da contabilidade fraudulenta da norte-americana Enron e do escândalo envolvendo uma operação do Departamento de Justiça norte-americano, a Fast and Furious [operação Velozes e Furiosos, ligada ao tráfico de armas a cartéis de drogas mexicanos] se encaixa nessa definição.
Já que narrar fatos reais é vital, o valor do jornalismo não pode ser reduzido a outras necessidades, secundárias. Embora o jornalismo desempenhe várias funções que se sobrepõem, nunca houve muita urgência em defini-las. Na época em que o discurso público era escasso (ou seja, durante toda a história até hoje), o jornalismo era simplesmente aquilo que jornalistas faziam; jornalistas eram simplesmente gente contratada por empresários da comunicação, que constituíam o grupo relativamente pequeno de indivíduos com acesso aos meios para tornar público esse discurso.
Acreditamos que o papel do jornalista – como porta-voz da verdade, formador de opinião e intérprete – não pode ser reduzido a uma peça substituível para outro sistema social; jornalistas não são meros narradores de fatos. Precisamos, hoje e num futuro próximo, de um exército de profissionais que se dedique em tempo integral a relatar fatos que alguém, em algum lugar, não deseja ver divulgados, e que não se limite apenas a tornar disponível a informação (mercadoria pela qual somos hoje inundados), mas que contextualize a informação de modo que chegue ao público e nele repercuta.
Um crescente volume de informação obtida em primeira mão é fornecido por cidadãos – muito do que sabemos sobre o desastre nuclear de Fukushima Daiichi, no Japão, e do massacre de Pearl Roundabout, no Bahrein, veio de indivíduos que se encontravam na cena do ocorrido. Mas isso não significa que todo jornalista profissional vá ser substituído, nem que possa ou deva sê-lo. Significa, isso sim, que seu papel vai mudar, que vai se sobrepor ao do indivíduo (ao da multidão, ao da máquina) cuja presença caracteriza o novo cenário jornalístico.

O bom jornalismo sempre foi subsidiado
A questão do subsídio à atividade jornalística vem gerando polêmica há algum tempo. Observadores do meio jornalístico como Steve Coll, David Swensen e Michael Schmidt, além de Michael Schudson e Len Downie, já sugeriram a migração da imprensa norte-americana para um modelo de subsídio mais explícito. A sugestão provocou respostas acaloradas de outros analistas – Jeff Jarvis, Jack Shafer, Alan Mutter –, para quem somente veículos comerciais teriam como garantir os recursos e a liberdade que a imprensa norte-americana exigiria.
A nosso ver, é uma falsa dicotomia. Subsídios volta e meia são vistos como sinônimo de aporte direto pelo Estado, o que levantaria óbvios e sérios temores. Mas o subsídio, no sentido do apoio dado a uma atividade considerada de interesse público, pode assumir várias formas. Pode ser direto ou indireto, pode vir de fontes públicas ou privadas. Doações de cidadãos são subsídio – tanto quanto um concedido pelo Estado.
O bom jornalismo sempre foi subsidiado; o mercado nunca foi capaz de suprir o volume de informação que uma democracia exige. A forma mais óbvia é o subsídio público indireto: em troca do acesso gratuito ao espectro eletromagnético, emissoras de rádio e TV precisam (ou precisavam) montar uma operação jornalística de credibilidade. Empresas são obrigadas a pagar pela inserção de publicidade legal em jornais. Publicações impressas recebem tarifas postais favoráveis.
Há desdobramentos alentadores envolvendo a cobrança direta do leitor pelo consumo de conteúdo digital. No caso, o modelo usado é o da cobrança após ultrapassado certo número de artigos. Esses fundos obviamente são bem-vindos. Contudo, apenas alguns dos grandes veículos de comunicação que adotaram o sistema conseguiram obter 5% que seja de adesão de usuários na versão digital, e a liberação de certo número de artigos praticamente garante que a maioria dos usuários jamais terá de pagar. O resultado é que, embora sirva para retardar a queda no faturamento, a nova receita não impede o declínio, e muito menos o reverte.
A maior fonte de subsídio no meio jornalístico sempre foi indireta e privada, vinda de anunciantes. É como disse o jornalista norte-americano Henry Luce 75 anos atrás: “Se tivermos de ser subsidiados por alguém, creio que o anunciante apresenta possibilidades extremamente interessantes”.
Há, no meio jornalístico, um punhado de publicações cujos leitores pagam diretamente pelo trabalho da redação. Mas são uma parcela ínfima do ecossistema jornalístico e se concentram em áreas de especialização profissional (finanças, direito, medicina), com um punhado de casos excepcionais, como o da revista norte-americana Ms., cuja promessa é libertar o leitor da publicidade. A maioria dos veículos de notícias não atua no mercado jornalístico, mas no mercado da publicidade.
O mais importante na relação entre a publicidade e o jornalismo é que não há relação. A ligação entre anunciante e meio de comunicação não é uma parceria – é uma operação comercial na qual o meio tem (ou tinha) a primazia. A fonte básica do subsídio publicitário é a falta de opção; enquanto o anunciante tiver de contar com o meio de comunicação para aparecer, esse meio vai poder usar os fundos obtidos para bancar o jornalismo, independentemente da preferência do anunciante. A Nine West não está interessada em manter aberta uma sucursal em Washington. O que quer é vender sapatos. Mas, para chegar a potenciais consumidores, a Nine West precisa pagar a uma organização que se interessa, sim, com o destino da tal sucursal em Washington.
Além da publicidade, há muitas outras formas de subsídio privado. Durante boa parte da história norte-americana, certos empresários aceitaram publicar jornais e revistas mesmo com prejuízo. Em troca, buscavam prestígio ou influência. Tanto a revista The New Yorker como o jornal New York Post operam no vermelho. Esses veículos sobrevivem no formato atual porque seus abastados proprietários decidiram que não deveriam deixá-los totalmente expostos às forças do mercado. Na prática, uma publicação dessas é uma entidade sem fins lucrativos.
Na mesma linha, o controle de um jornal por uma família era uma proteção contra o imperativo do lucro imediatista, em parte porque o empresário em geral se dispunha a receber alguma remuneração na forma de prestígio (salário à parte, era bom ser o dono de um jornal local) e em parte porque o controle familiar significava administrar de olho na viabilidade a longo prazo, não na extração imediata de receita, outra forma de estar no mercado mas sem se submeter a ele.
Embora a recente discussão do subsídio ao jornalismo tenha se concentrado no aporte público, e não no privado, o fato é que distintas modalidades de subsídio são bastante emaranhadas. Todo ano, General Motors e Diageo gastam somas consideráveis em spots de 30 segundos na TV ou anúncios de página inteira por estarem legalmente obrigadas a fazer publicidade da marca. A GM até que gostaria de vender diretamente da fábrica, como faz a Dell, e a Diageo adoraria vender a um clicar do mouse, como faz a grife de chocolates Ghirardelli em seu site. Só que, em seu caso, leis estaduais proíbem o uso do marketing direto. A publicidade de carros, caminhões, cerveja e destilados é sustentada por um subsídio, imposto pelo governo, que impede certas empresas de investir em outras alternativas.
O público norte-americano nunca pagou integralmente pela cobertura jornalística feita em seu nome. A atividade sempre foi bancada por outras fontes, não por leitores, ouvintes ou telespectadores. Neste dossiê, não vamos explorar de onde poderia ou deveria vir esse subsídio no futuro, e nem mesmo como deveria ser direcionado. Essa receita pode vir de anunciantes, patrocinadores, usuários, doadores, mecenas ou filantropos; a redução de custo pode se dar com parcerias, terceirização, crowdsourcing ou automação. Não há uma solução universal: qualquer saída para ter mais receita do que custo é uma boa saída, seja a organização grande ou pequena, de nicho ou generalista, voltada ou não ao lucro. O que está patente é que o modelo há muito adotado pela maioria dos meios de comunicação – uma entidade comercial que subsidia a redação com receita da publicidade – está em risco.

A internet acaba com o subsídio da publicidade
O foco deste relatório é o modo como jornalistas exercem sua função, e não práticas comerciais de instituições que abrigam esses profissionais. Há, contudo, um ponto crucial de interseção de práticas comerciais e práticas jornalísticas: o apoio da publicidade, principal fonte de subsídio do jornalismo norte-americano desde a década de 1830, está desaparecendo (no caso de jornais, grande parte dessa receita já evaporou; e há mais má notícia a caminho para jornais, revistas e emissoras de rádio e TV).
Anunciantes nunca tiveram interesse no patrocínio propriamente dito de meios de comunicação; o elo entre receita publicitária e salário de jornalistas sempre foi uma função da capacidade do veículo de comunicação de atrair essa receita. Até deu certo no século 20, quando o poder de barganha no mercado de mídia estava nas mãos de quem vendia, no caso os meios. Hoje, esse modelo já não serve.
Embora tenha começado para valer com a chegada da internet comercial na década de 1990, a ruptura foi camuflada durante uma década pelo aumento da receita publicitária de veículos de comunicação tradicionais e pelo estouro da bolha pontocom, o que levou muitos veículos a crerem que a ameaça da internet fora superestimada. Embora a receita trazida pela publicidade tradicional tenha começado a cair em 2006, a transformação do mercado publicitário subjacente já estava, àquela altura, bastante avançada. A perda da receita era um indicador tardio de um cenário já transformado.
Meios de comunicação tradicionais não vendem conteúdo como se fosse um produto. Seu negócio é a prestação de serviços, com a integração vertical de conteúdo, reprodução e distribuição. Uma emissora de TV também mantém recursos para a difusão de conteúdo via satélite ou cabo; uma revista opera ou contrata serviços tanto de impressão como de distribuição do material. Na integração vertical, o custo de capital é elevado, reduzindo a concorrência e, às vezes, criando um gargalo no qual o público poderia ser induzido a pagar.
A internet acaba com essa integração vertical, pois todo mundo paga pela infraestrutura – que é, então, usada por todos. O público segue mais do que disposto a pagar pela reprodução e pela distribuição, embora hoje paguemos à Dell por computadores, à Canon por impressoras e à operadora Verizon pela entrega, em vez de pagar à Conde Nast, à Hearst ou à Tribune Co. por um pacote com todos esses serviços.
Quando queremos ler algo no papel, é cada vez mais comum imprimirmos o material em uma pequena impressora a poucos passos de nós, quando bem entendermos, em vez de pagar alguém situado a quilômetros de distância para imprimir algo que vai chegar com um dia de atraso. Quando queremos ouvir algo ou assistir a um vídeo, usamos cada vez mais a infraestrutura genérica da internet, e não a infraestrutura especializada (e financiada) de torres de transmissão e redes de cabo.
Meios de comunicação também costumam promover uma integração horizontal, juntando num mesmo saco notícias relevantes e horóscopo, colunas sociais, receitas e esportes. No passado, quem sintonizava um determinado canal ou comprava uma publicação para ler um artigo específico seguia vendo ou lendo o que mais houvesse nesse pacote por pura inércia. Embora o fenômeno volta e meia fosse chamado de fidelidade, na maioria das vezes era pura preguiça – ler outro artigo bom o bastante no mesmo jornal era mais fácil e cômodo do que buscar uma excelente reportagem em outra publicação.
A internet acaba com a integração horizontal. Antes dela, reunir uma dezena de textos bons – ainda que não excelentes – num pacote só costumava ser o suficiente para impedir que alguém saísse à cata dos dez melhores textos em uma dezena de publicações distintas. Num mundo de links e feeds, no entanto, em geral é mais fácil achar a próxima coisa a ser lida, vista ou ouvida por indicação de amigos do que pela fidelidade inabalável a uma determinada publicação. Hoje, a preguiça favorece a dispersão; em muitos sites jornalísticos de interesse geral, a categoria mais comum de leitor é aquela formada por gente que confere um único artigo por mês.
Como se não bastasse, a competição está mais acirrada. Como observou o jornalista Nicholas Carr em 2009, uma busca no Google por informações sobre o resgate pela Marinha norte-americana do capitão de um cargueiro de bandeira dos Estados Unidos sequestrado por piratas na Somália rendeu 11.264 fontes possíveis de matérias sobre o episódio – a maioria meramente reproduzindo um mesmo conteúdo sindicalizado. A internet derruba o valor de publicar um mesmo artigo de agências de notícias em St. Louis e em San Luis Obispo.
Além das mudanças trazidas pela tecnologia, a popularização de redes sociais fez surgir uma nova categoria de anúncios que, embora vinculada à mídia, não subsidia a criação de conteúdo. Na década de 1990, muitos sites tinham fóruns de discussão que geravam enorme interesse entre internautas – mas pouca receita, já que anunciantes temiam que o material produzido por usuários não fosse seguro para sua marca.
O MySpace foi o primeiro grande site a transpor esse obstáculo. Assim como na revolução dos junk bondsna década de 1980, o MySpace usou o argumento de que um inventário de anúncios de baixa qualidade poderia ser um bom investimento para o anunciante se agregado em volume suficiente e vendido a um valor baixo o bastante. O discurso feito era basicamente o seguinte: “Dependendo do preço pago, os page views do MySpace podem ter valor para sua empresa mesmo com taxas de clique [click-through rates] minúsculas”.
Com isso, abriram-se as comportas. Quando um número satisfatório de empresas decidiu que redes sociais eram um meio aceitável, o estoque disponível de anúncios passou a ser função do (ilimitado) interesse das pessoas umas nas outras, e não da capacidade do veículo de comunicação de criar conteúdo ou manter a audiência. Quando a demanda gera oferta a um custo pouco acima de zero, o efeito nos preços é previsível.
Os últimos 15 anos também testemunharam o surgimento da publicidade como um serviço independente. A perda de anúncios classificados para concorrentes superiores como Craigslist, HotJobs e OkCupid já foi exaustivamente dissecada. Menos discutida é a popularização de indicações de usuário para usuário em ambientes comerciais, como o da Salesforce e o da Amazon. Uma recomendação dessas assume parte das funções da publicidade B2B (empresa a empresa) ou B2C (empresa a consumidor), mas sem nenhum subsídio do conteúdo (ou nem mesmo o pagamento a qualquer ator que se assemelhe a um veículo de comunicação). E um serviço desses dá pouco ou nenhum subsídio a meios de comunicação. Durante 15 meses, a Amazon testou comerciais de TV – mas desistiu da ideia para a maioria de seus produtos, pois concluiu que um anúncio desses teria menos impacto nas vendas do que gastar a mesma verba para oferecer frete grátis.
Até veículos que entendem que a receita perdida não será reposta, e que a receita trazida pelo impresso (e a produção) vai continuar caindo, seguem com esperança de que a mudança no subsídio publicitário possa, de algum modo, ser revertida.
O fato de que a internet, mesmo sendo um meio visualmente flexível, tenha se adaptado mais depressa ao marketing direto do que à publicidade convencional foi uma decepção para veículos de comunicação, que sempre tiveram um ganho desproporcional com a velha publicidade. Na última década, volta e meia se afirmou que o marketing direto como forma de publicidade na internet seria só uma fase – e que alguém iria reinventar a publicidade convencional no meio digital. É, basicamente, afirmar que anunciantes vão começar a investir cifras volumosas em anúncios gráficos com animação e em transmissão de vídeo com pouca expectativa de retorno além da certeza de que a marca terá conquistado mais visibilidade.
Parece pouco provável. A migração da lógica da propaganda convencional para a lógica do marketing direto é só um sintoma da mudança maior promovida pela internet, que representa a vitória, em todos os lugares, da mensuração. A publicidade tradicional era rentável porque ninguém sabia ao certo como funcionava, de modo que tampouco se sabia como otimizá-la. Produzir um comercial de TV era mais como rodar um pequenino filme para o cinema do que conduzir um grande experimento psicológico.
Hoje, na internet, o anunciante espera, cada vez mais, que até a publicidade tradicional tenha resultados mensuráveis – e a aposta na publicidade mensurável derruba as altas margens da fase áurea. A célebre dúvida do criador do conceito da loja de departamentos, o empresário norte-americano John Wanamaker – a de não saber exatamente qual metade da verba de publicidade era dinheiro jogado fora –, explica por que a mensurabilidade na publicidade põe ainda mais pressão sobre a receita.
Outra fonte de esperança para o restabelecimento da receita publicitária era a especificidade maior que a internet permitiria. (“É possível dirigir o anúncio exclusivamente a advogados tributaristas no Estado de Montana!”) Todo mundo achava que essa segmentação precisa justificaria a cobrança de preços mais altos pela publicidade, pelo menos em certos sites; uma segmentação melhor traria melhores resultados, o que faria compensar o custo maior.
Só que a migração para a publicidade de baixo custo com resultados mensuráveis também derruba boa parte da lógica da segmentação. Vejamos um exemplo simplificado: atingir mil pessoas com publicidade online não segmentada custa cerca de US$ 0,60. Um espaço publicitário que custe US$ 12 por mil visualizações (uma estimativa muito discutida em 2010 para certos sites de nicho) pode até ser mais eficiente em razão da segmentação, mas para fazer sentido do ponto de vista econômico a publicidade dirigida teria de ser 2.000% mais eficiente. Se for menos que isso, a relação custo-benefício do estoque de baixa qualidade é melhor.
Agora que redes sociais já exibem anúncios, o extremo da curva de custos que abriga esse inventário inferior é realmente baratíssimo, o suficiente para exercer constante pressão sobre o preço superior de anúncios segmentados. O que uma empresa quer não é chegar ao público com seus anúncios. O que a empresa quer é vender o que faz. A capacidade de entender quem realmente compra seus produtos ou serviços online significa que, hoje, muitos anunciantes podem arbitrar anúncios caros e baratos como bem entenderem.
Embora ainda possa haver uma fonte desconhecida de receita publicitária, para que a saúde do jornalismo bancado por publicidade fosse restituída, o acesso a essa pedra filosofal teria de ser exclusivo de veículos de comunicação – e não de redes sociais ou sites só de publicidade. E, para justificar o retorno ao custo elevado lá de trás, essa fonte teria de ser muito mais eficaz do que qualquer outro método de publicidade atual. E, de quebra, gerar receitas imunes à pressão que a concorrência em larga escala exerce sobre preços.
Partindo de evidências atuais, isso tudo parece improvável. O poder de meios de comunicação sobre anunciantes está evaporando; desde a chegada da web, houve uma grande migração, de meios para anunciantes, do valor líquido de cada dólar investido em publicidade. Além disso, há mais sinais indicando uma intensificação da tendência do que sua reversão. Até veículos dispostos a apostar todas as fichas nessa promessa de salvação deveriam traçar um plano B para seguir produzindo um jornalismo de qualidade caso o subsídio da publicidade continue a cair.

A reestruturação é obrigatória
A virada basicamente negativa na sorte de meios de comunicação tradicionais nos leva a duas conclusões: o custo de produção de notícias precisa cair e essa redução de custo deve ser acompanhada de uma reestruturação de modelos e processos organizacionais.
Vários fatores sugerem que a receita publicitária seguirá caindo nos próximos anos – e pouca coisa indica que subirá. Embora a fase mais aguda de queda da receita tenha chegado ao fim, o fato é que no momento em que redigimos este dossiê estamos no 23º trimestre consecutivo de declínio anual das receitas. Os últimos três anos de queda ocorreram num período de crescimento econômico; além do efeito cumulativo da perda de receita, a incapacidade de elevá-la mesmo com a economia crescendo sugere que velhas empresas de comunicação sofrerão um baque descomunal quando tiver início a próxima recessão, o que certamente ocorrerá dentro de alguns anos.
A receita por leitor trazida pela publicidade online nunca chegou nem perto da tradicional – e no caso de plataformas móveis é ainda pior. Enquanto isso, à medida que vai avançando, a publicidade no meio digital vem passando totalmente ao largo de veículos de comunicação tradicionais. Já fontes sonhadas de receita direta – paywalls, micropagamentos, aplicativos móveis, assinaturas digitais – não surtiram efeito ou ficaram aquém das expectativas.
Dentre todas essas soluções, a assinatura digital nos moldes praticados por jornais como Los Angeles Times, Minneapolis Star-Tribune e The New York Times foi a que melhor se saiu. E, mesmo assim, o efeito líquido dessas assinaturas não anulou as perdas no impresso. De resto, já que a assinatura digital em geral é concebida para aumentar a circulação em papel, seu efeito no curto prazo é aumentar ainda mais a dependência da receita oriunda do impresso, apesar da deterioração no longo prazo do papel.
A nosso ver, o arrastado colapso da receita publicitária tradicional não será compensado por outras plataformas num período de três a cinco anos. A próxima fase da existência da grande maioria dos meios de comunicação vai ser parecida com a última. Haverá uma redução obrigatória de custo, embora de forma menos urgente (e, esperamos, mais estratégica), levando em conta novas técnicas de cobertura jornalística e novos modelos organizacionais.
Na década de 1980, muita tinta foi gasta no meio acadêmico para discutir o “paradoxo da produtividade”: os fracos resultados produzidos por duas décadas de pesado investimento da iniciativa privada em tecnologia da informação. Um punhado de empresas, contudo, registrou fortes ganhos de produtividade em decorrência do investimento em TI lá atrás. Essas empresas de sucesso não se limitaram a informatizar processos correntes. O que fizeram foi alterar esses processos à medida que incorporavam computadores às operações. Viraram outro tipo de organização. Já aquelas que simplesmente instalaram computadores sem mexer em processos que já existiam não registraram nenhum avanço evidente em rendimento ou eficiência.
A nosso ver, há uma dinâmica similar nos dias de hoje – dinâmica que resolvemos chamar de jornalismo pós-industrial, termo originalmente empregado em 2001 pelo jornalista Doc Searls para sugerir um “jornalismo que já não é organizado segundo as regras da proximidade do maquinário de produção” (lá atrás, a lógica da redação não era administrativa, mas prática: o pessoal da redação, que produzia o texto, tinha de estar perto das máquinas que reproduziriam esse texto, em geral instaladas no subsolo).
Observadores do meio jornalístico, como David Simon, já disseram, acertadamente, que “fazer mais com menos” é o mantra de todo veículo que teve de demitir uma dezena de repórteres e editores. Contudo, já que nessa equação a parte do “com menos” é obrigatória, é preciso tentar fazer com que a parte do “fazer mais” funcione, o que significa menos tergiversação sobre cortes de pessoal e mais reestruturação, a fim de tirar partido de novas formas de fazer jornalismo.
O jornalismo pós-industrial parte do princípio de que instituições atuais irão perder receita e participação de mercado e que, se quiserem manter ou mesmo aumentar sua relevância, terão de explorar novos métodos de trabalho e processos viabilizados pelas mídias digitais.
Nessa reestruturação, todo aspecto organizacional da produção de notícias deverá ser repensado. Será preciso ter mais abertura a parcerias, um maior aproveitamento de dados de caráter público; um maior recurso a indivíduos, multidões e máquinas para a produção de informação em estado bruto; e até um uso maior de máquinas para produzir parte do produto final.
Serão mudanças sofridas, pois irão afetar tanto a rotina diária como a autoimagem de todos os envolvidos na produção e distribuição de notícias. Sem isso, no entanto, a redução dos fundos disponíveis para a produção do jornalismo fará com que no futuro a única opção seja fazer menos com menos. Não há, na crise atual, solução capaz de preservar o velho modelo.

Há muitas oportunidades de fazer um bom trabalho de novas maneiras
Se concluirmos que o jornalismo é essencial, e que não há solução para a crise, a única maneira de garantir a sobrevivência do jornalismo de que a sociedade precisa no cenário atual é explorar novas possibilidades.
Graças a fenômenos como o movimento da transparência e a disseminação de redes de detecção, um jornalista hoje em dia tem acesso a muito mais informação do que antes. Tem novas ferramentas para transmitir a informação de forma visual e interativa. Tem muito mais maneiras de fazer seu trabalho chegar ao público – a ubiquidade da busca, a popularização de fontes constantemente atualizadas (o Facebook com sua linha do tempo, o Twitter em sua totalidade), o wiki como formato para a inserção de novas informações. Tudo isso faz o público ter muito mais meios de obter e processar notícias.
Com a superdistribuição – a propagação de conteúdo por redes sociais –, um artigo importante de uma publicação minúscula pode chegar a um público enorme sem custo adicional. Agora que muitos levam no bolso câmeras de vídeo conectadas a redes, uma quantidade cada vez maior de informação visual vem dos próprios cidadãos.
Com a proliferação de novas possibilidades de apuração, interpretação e distribuição de informações, é possível ver organizações tirando partido de métodos de trabalho que nem sequer existiam dez anos atrás. É o que faz a Narrative Science ao automatizar a produção de notícias extraídas de mares de dados. Ou a ProPublica ao disponibilizar dados e modelos para a reprodução de notícias, como na iniciativa Dollars for Docs. Também há quem vasculhe dados existentes para descobrir fatos novos, como fez o caçador independente de fraudes financeiras Harry Markopolos no caso do investidor norte-americano Bernard Madoff, que ocasionou perdas bilionárias a instituições bancárias, grupos de investimentos, fundações, entre outros (uma das grandes oportunidades perdidas do jornalismo norte-americano na última década).
O que une gente digitalmente empreendedora de organizações tradicionais – Anjali Mullany, ex-Daily News; John Keefe, da rádio WNYC; Gabriel Dance, da sucursal do The Guardian nos Estados Unidos – e meios que já nasceram digitais, como WyoFile, Technically Philly e Poligraft, é o fato de organizarem suas premissas e processos em torno daquilo que agora é possível, como incluir interatividade em gráficos, dar ao público acesso direto a bancos de dados, solicitar imagens e informação ao público ou distribuir uma matéria por redes sociais. Não há como saber se o Poligraft (aliás, nem se o Daily News) ainda existirá daqui a dez anos, mas a experimentação em curso nessas organizações é um exemplo do bom uso de novas ferramentas na busca de objetivos jornalísticos.
O aspecto mais animador e transformador do atual cenário jornalístico é poder explorar novas formas de colaboração, novas ferramentas de análise e fontes de dados e novas maneiras de comunicar o que é de interesse do público. A maioria de nossas recomendações ao longo do presente dossiê terá a ver com essas oportunidades.

O que é “público”, o que é “audiência” – e o caso especial do New York Times
Antes de entrarmos no relatório propriamente dito, é preciso um esclarecimento sobre duas palavrinhas controversas – público e audiência. E, ainda, discutir o caso especial do New York Times, que a nosso ver não serve como símbolo do estado geral do jornalismo norte-americano.
Mas, primeiro, o público. O conceito de “público” como grupo de pessoas para o qual se produzem notícias é o “termo divino” do jornalismo, como diz James Carey:
...é o termo final, o termo sem o qual nada conta; por ele, jornalistas justificam seus atos, defendem o ofício, sustentam sua tese em termos do direito do público à informação, de seu papel como representantes do público, de sua capacidade de falar ao público e pelo público.
O público é o grupo cujos interesses deveriam ser servidos pelo ecossistema jornalístico. E é um conceito de dificílima definição.
A ideia de “público” ocupa um lugar central no pensamento norte-americano sobre o jornalismo desde uma célebre resposta de John Dewey a Walter Lippmann na década de 1920. Lippmann duvidava de que, numa sociedade de massas com complexas engrenagens econômicas e técnicas, o indivíduo comum pudesse se tornar o cidadão informado que o grosso da teoria democrática preconizava. Em resposta, Dewey alegou a existência de vários públicos sobrepostos que poderiam ser “ativados” com o surgimento de questões específicas. A ideia de meios de comunicação voltados a públicos distintos, porém sobrepostos, até hoje é fundamental para a lógica organizacional deles.
Desde o surgimento dessas duas visões da comunicação de massas e da sociedade de massas, a conceitualização da esfera pública virou um elemento central da obra de filósofos como Jurgen Habermas, Nancy Fraser, James Carey, Michael Schudson e Yochai Benkler – o que enriqueceu, e complicou, qualquer descrição de uma mídia que sirva a um (ou ao) público.
Vamos adotar a estratégia do covarde: a de expor – mas não solucionar – o dilema. Não temos a intenção de dar uma definição mais rigorosa do que a seguinte:
O público é o grupo de consumidores ou cidadãos que tem interesse em forças que exercem influência sobre sua vida e que busca alguém para monitorar tais forças e mantê-lo informado, para que possa agir com base nessa informação.
É uma definição insatisfatória, prenhe de interrogações, mas ao menos respeita a barafunda de opiniões sobre aquilo que realmente constitui um “público”.
O termo “audiência” é igualmente problemático. Quando o mundo da comunicação estava claramente dividido em meios (impresso, radiodifusão) e comunicação (telégrafo, telefone), o conceito de audiência era igualmente claro: significava a massa de indivíduos que recebia conteúdo produzido e distribuído por meios. Filmes, música, jornais, livros – tudo isso tinha audiências claras.
Um dos efeitos mais desnorteantes da internet foi combinar modelos de meios e de comunicação num único canal. Quando alguém no Twitter compartilha uma matéria com um grupinho de amigos, a impressão é a do velho papo informal na sala do cafezinho. Quando essa mesma pessoa divide o mesmo artigo com outras duas mil pessoas, a impressão é a de que está agindo como um meio de difusão, ainda que nos dois casos a ferramenta e a ação tenham sido as mesmas. Além disso, cada destinatário desses pode fazer o conteúdo circular ainda mais. A posição privilegiada da fonte original do conteúdo diminuiu drasticamente.
Ao constatar que no mundo atual membros da audiência tinham se tornado mais do que meros recipientes da informação, o acadêmico Jay Rosen, da New York University, cunhou o termo “The People Formerly Known as the Audience” – algo como “a turma antes conhecida por audiência” – para descrever de que maneira grupos até então passivos de consumidores tinham se convertido em criadores, editores, juízes e veículos da informação. Neste dossiê, adotamos a visão que Rosen tem dessa transformação; mas não usamos o termo (nem a sigla em inglês TPFKATA), que é rebuscado demais.
Ao longo do dossiê iremos, portanto, falar de “audiência”. Tenha em mente que, com isso, nos referimos à turma antes conhecida por audiência – gente hoje dotada de um grau inédito de poder de comunicação.
Por último, uma palavrinha sobre a razão para não nos atermos muito à situação do New York Times. Uma bela parte de tudo o que se escreveu sobre a sorte do jornalismo norte-americano na última década girou em torno do destino do jornal nova-iorquino. A nosso ver, essa atenção foi contraproducente.
No decorrer da última geração, o New York Times deixou de ser um excelente jornal diário que concorria com vários outros de igual calibre e virou uma instituição cultural de importância única em escala mundial (paralelamente, aqueles outros jornais – The Washington Post, Chicago Tribune, Los Angeles Times, Miami Herald – encolhiam tanto em termos de cobertura como de ambição). Com isso, o New York Times ficou numa categoria só dele. Logo, qualquer frase que comece com “Peguemos o exemplo do New York Times...” dificilmente irá explicar ou descrever muito o resto do setor.
A redação do New York Times é fonte de muitos experimentos interessantes – na visualização de dados, em parcerias, na integração de blogs. Fomos falar com muitos de nossos amigos e colegas ali dentro para tentar aprender com essas experiências e, com base nelas, dar sugestões a outras organizações jornalísticas. Só que, por o jornal estar numa categoria só dele, decisões que sua gestão pode tomar, e o resultado dessas escolhas, não representam nem preveem a realidade da maioria dos demais veículos de comunicação, seja qual for seu porte ou tempo de vida. Logo, passaremos relativamente pouco tempo discutindo seu destino. Embora sirva de inspiração para meios de comunicação mundo afora, o jornal é menos útil como modelo ou termômetro para outras instituições.

Organização
Este dossiê foi redigido com diversos públicos em mente: novas empresas de mídia, organizações tradicionais tentando se adaptar, faculdades de jornalismo e entidades que dão apoio ou forma ao ecossistema, como o Pulitzer Prize Board e o governo norte-americano.
A esta introdução se seguem três grandes seções: Jornalistas, Instituições e Ecossistema.
Partimos indagando o que cada jornalista pode e deve fazer hoje, já que seu trabalho é o mais importante – e já que a obsessão com a sobrevivência de instituições nos últimos anos ocultou o óbvio ululante: a importância de instituições reside no fato de que permitem o trabalho de jornalistas, e não o contrário.
Em seguida, perguntamos o que uma instituição pode fazer para apoiar o trabalho de jornalistas. Aqui, não usamos o termo “instituição” no sentido coloquial de “meio de comunicação tradicional”, mas sim com a significação sociológica de “um conjunto de pessoas e bens com padrões relativamente estáveis de comportamento”. Nessa acepção, o Huffington Post é uma instituição tanto quanto a Harper’s. Estamos interessados tanto na institucionalização de novas organizações de notícias quanto na adaptação de velhas instituições à nova realidade.
Por último, analisamos o ecossistema jornalístico, que nesse caso significa todo o aspecto da produção de notícias que não está sob controle direto de uma instituição. O ecossistema atual tem novos recursos, como uma explosão de dados digitais e de capacidade de processamento. Traz, ainda, novas oportunidades, como a capacidade de criação de parcerias e consórcios de baixo custo. Esse ecossistema também abarca forças que afetam organizações jornalísticas – de premissas e apoios (ou obstáculos) criados por faculdades, empresas e o poder público.
Em nossa breve conclusão, usamos várias dessas forças atuais para traçar um cenário para o fim da presente década e descrevemos quais, a nosso ver, seriam algumas das principais características do cenário jornalístico em 2020.
Nem de longe imaginamos que alguma organização possa seguir todas as recomendações aqui feitas, ou no mínimo a maioria delas, pois são coisas muito diversas, voltadas a atores de natureza muito distinta. Tampouco acreditamos que o que sugerimos aqui seja uma direção estratégica acabada. Vivemos nitidamente numa era na qual é mais fácil saber o que não funciona do que o que funciona, e na qual teorias e práticas daquilo que costumávamos chamar de indústria jornalística estão abrindo espaço a uma constelação muito mais diversa de entidades do que qualquer coisa que tenhamos testemunhado no século 20.
Acreditamos, sim, (ou, no mínimo, esperamos) é que as recomendações a seguir sejam úteis para organizações que não só queiram evitar o pior do anacronismo entre processos tradicionais e oportunidades atuais, mas também tirar partido das possibilidades que hoje se abrem.
[Continua]
***
C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky, do Tow Center for Digital Journalism da Universidade Columbi
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