‘Taxar os ricos é crucial para modelo de desenvolvimento sustentável’, afirma economista
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quinta-feira, 19 de abril de 2012
Entrevista Jeffrey Sachs - Rio +20
‘Taxar os ricos é crucial para modelo de desenvolvimento sustentável’, afirma economista
terça-feira, 17 de abril de 2012
Sony: como uma gigante cai
‘Talvez a Sony mude. Vai ser bem difícil’
Na última quinta-feira, o novo presidente da Sony, Kazuo Hirai, abriu o sorriso perante um grupo de jornalistas em Tóquio para anunciar o slogan que, promete, marcará sua gestão. “A Sony vai mudar.” Aproveitou para dizer também que, até o fim do ano, dez mil funcionários perderão seus empregos. Representam 6% da equipe. E que o prejuízo em 2011 foi de US$ 6,4 bilhões. Há 20 anos, seria impossível escrever uma coluna sobre alta tecnologia sem mencionar empresas japonesas a toda hora. Hoje, entre o Vale do Silício, a China e a Coreia do Sul, o Japão é só nota de pé de página.
Se há um produto que melhor simboliza a marca Sony, são suas TVs. Os aparelhos ainda têm o melhor tom de preto do mercado. Veja um filme na sala escura e o negro da noite numa cena se dissipa no negro da sala. Em qualquer outro aparelho, o preto traz um tom sujo, de cinza escuro com algum brilho emitido. Mas é só ir ao site oficial da Sony que o consumidor, coitado, logo se perde. Qual TV comprar? Um modelo da série BX325, talvez? Ou BX425. Ou CX525. Ou EX525. São nove modelos diferentes, cada qual com toda a gama de tamanhos de telas. Não é só o comprador que se confunde. Nas lojas, vendedores têm dificuldades de explicar as diferenças entre uma e outra. Mesmo quem tem o bolso forrado e quiser comprar um modelo com a melhor tecnologia que a Sony pode oferecer não encontra. Nenhum modelo tem todos os recursos oferecidos.
(Por questão de justiça: as TVs Sony ganham na qualidade de cor mas o movimento é mais fluido nas da Samsung. Para filmes de ação, há quem prefira. No tempo do tubo de imagem, a Sony tinha uma qualidade muito superior à da concorrência. As diferenças, hoje, são mais sutis.)
A Apple tem dois modelos de iPhone, o 4 e o 4S. Eles vêm em duas cores. Tem dois modelos de iPad: o 2 e o novo, HD. O consumidor só decide quanto espaço de memória quer. Google e Facebook têm a mesma obsessão por simplicidade em seus sites. Esta é uma diferença entre o Vale do Silício e a Sony.
O outro símbolo há muito perdido da Sony é o Walkman. Quem viveu, lembra. Aquele toca-fitas portátil com fones de ouvido foi, há um tempo, o símbolo máximo do sujeito afinado com seu tempo. Mais moderno ou jovem, impossível. Não faz tanto tempo assim. Até a virada do século, som portátil e Sony ainda eram sinônimos. Não passou do simpático Discman, para CDs. (Não era lá muito confiável numa corrida, o balanço fazia o disco saltar.) Ela nunca alcançou o MP3.
É simples entender o motivo. A Sony não é apenas uma empresa de tecnologia. É também um estúdio de cinema e uma gravadora, ambas de grande porte. A empresa sofreu no tempo do videocassete. Preocupada com a pirataria, antes de descobrir o negócio da venda de filmes, Hollywood tornou difícil a vida de quem queria vender reprodutores de vídeo. Foi neste momento dos anos 1980 que a Sony decidiu, estrategicamente, entrar no ramo da produção de conteúdo.
Um negócio não é, aparentemente, compatível com o outro. O método de gerência que move o Vale é o da destruição criativa. Vez por outra, é preciso apagar o passado para escrever o próximo capítulo. Numa grande corporação hierarquizada à moda japonesa, não funciona. Quando foi produzir um player digital para entrar na briga do iPod, a primeira preocupação da Sony foi a de preservar os direitos autorais de sua gravadora. É uma preocupação de todo legítima. Os consumidores, porém, queriam algo que fosse prático. Do modelo Apple, saiu um estupendo negócio de venda de música legal. Mas foi preciso, antes, desmontar tudo. A Sony não desmontou nada. Começará agora?
A Sony teve uma última dificuldade. Complicou sua linha de produtos, permitiu que o modelo de negócios de uma subsidiária bloqueasse o desenvolvimento de outra e fez mal a transição para o digital. Há um truque, aí: no mundo analógico, o hardware é tudo. No digital, um bom software salva o mau hardware mas o contrário não é verdade. É o caso da Nokia. Seus celulares são máquinas excepcionais. Compare com um Android e fica óbvio como são difíceis de usar. A parceria com a Microsoft veio a calhar para a Nokia. Comparados com os equipamentos digitais de hoje, as máquinas Sony são difíceis de usar e se integram mal umas com as outras.
Talvez a Sony mude. Vai ser bem difícil.
Em estreia na TV russa, Assange entrevista líder do Hezbollah
WikiLeaks
Programa exibido pela emissora estatal não mostra revolucionário destemido, mas um idiota útil, conforme destaca 'The Guardian'
Julian Assange, fundador do WikiLeaks (Carl de Souza/AFP)
A emissora estatal russa de TV Russia Today estreiou nesta terça-feira The World Tomorrow (O mundo amanhã, em tradução literal), programa de entrevistas encabeçado por Julian Assange, fundador do Wikileaks, responsável pelo vazamento de milhares de documentos secretos de empresas e governos. A escolha do primeiro convidado do programa – Hassan Nasrallah, líder do grupo terrorista Hezbollah, em atividade no Líbano – deixou claro que Assange está disposto a abraçar qualquer companhia para dar vazão a seu antiamericanismo.
O programa foi gravado na Grã-Bretanha, onde Assange é mantido em prisão domiciliar à espera de uma decisão sobre sua extradição à Suécia, país que o requer para interrogá-lo por quatro supostos crimes sexuais. Ele disse que esperava ser tratado como um "combatente inimigo, traidor, que dorme na cama do Kremlin e conduz entrevistas com terríveis (militantes) radicais", segundo o site da Russia Today. É mais ou menos a esse papel que ele se prestou mesmo.
Em sua estreia, o fundador se limitou a criticar os Estados Unidos e optou por se calar quanto aos problemas enfrentandos pela própria Rússia. Em nenhum momento o fundador do Wikileaks deflagrou comentários sobre os altos índices de corrupção do país ou sobre a fortuna secreta de Vladimir Putin, citada em documentos da organização em 2010.
Para Luke Harding, colunista do jornal britânico The Guardian, a relação de Assange com a estatal Russia Today e a escolha do terrorista Nasrallah para a estreia do programa deve ser vista com desconfiança. O representante do Hezbollah foi oportunista ao aproveitar a chance e a repercussão da transmissão para reafirmar o seu apoio ao regime sírio, que reprime há mais de um ano um movimento de contestaçao. Não por coincidência, a Rússia defende a mesma posição.
"A estreia do fundador do Wikileaks na TV russa não concede a Assange o título de revolucionário destemido. Apenas comprova o contrário: ele não passa de um idiota útil", afirma Harding na coluna.
"Se o objetivo é competir com a BBC, Al-Jazeera e CNN, eles certamente não estão na direção certa. O uso do escândalo não é adequado para as ambições de atingir um público amplo internacional", diz Maria Lipman, do centro Carnegie em Moscou, sobre a decisão da Russia Today em chancelar o programa de Assange.
(Com agência France-Presse)
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Shows geram R$ 57 milhões em direitos autorais no Brasil
Arrecadação com apresentações teve um aumento de 36,4% em 2011, segundo Ecad
RIO - O aumento de shows — nacionais e internacionais — no Brasil teve consequências no mercado de direito autoral. Em 2011, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), órgão responsável pelo recolhimento e pagamento de direitos musicais no Brasil, contabilizou um crescimento de 36,4% na arrecadação com shows em comparação com 2010. O resultado, de acordo com o Ecad, teve como consequência a distribuição de R$ 57 milhões de direitos autorais para os compositores por shows.Contabilizando todos os segmentos em que o escritório atua, como TVs, rádios e internet, o Ecad distribuiu R$ 411,8 milhões a 92.650 compositores em 2011. No caso dos shows, o órgão aponta a realização de grandes concertos como os de Paul McCartney, U2, Eric Clapton, Justin Bieber, Amy Winehouse, Pearl Jam, Britney Spears e do festival Rock in Rio como fator preponderante para justificar o crescimento.
— Desde 2009, mais shows têm vindo ao Brasil. É uma soma de moeda forte e crise global que permite essa situação — diz Mario Sérgio Campos, gerente executivo de Distribuição do Ecad. — Além disso, a gente começou, no fim de 2010, um projeto para ampliar as gravações de shows. Em eventos grandes, é fácil checar que músicas foram realmente executadas, mas, em apresentações menores, nem sempre os promotores dos shows informam corretamente a lista. Por isso, aumentamos em mais de 600% a quantidade de gravações. Depois, temos funcionários que ouvem e conferem as músicas. É uma forma de se dar mais segurança. Quanto mais grava$ções fizermos, melhor será a qualidade da distribuição.
A boa arrecadação de 2011 deve refletir na distribuição deste ano. O Ecad fecha os balanços e faz os pagamentos referentes a shows a cada três meses, o que significa que os direitos autorais referentes às apresentações do fim do ano passado só chegaram aos titulares neste ano. Mario Sérgio Campos acrescenta, ainda, que é intenção do escritório lançar uma campanha entre os produtores de eventos para conscientização.
— Infelizmente, a gente ainda sofre resistência por parte de alguns promotores de shows. O funcionário do Ecad atua devidamente credenciado. Ele tem treinamento, tem toda a informação necessária para gravar o show, tem o roteiro fornecido pelo próprio produtor, mas acontece de não nos permitirem acesso para a gravação. Se o produtor já pagou o direito autoral, por que não podemos entrar para gravar? — diz o gerente do Ecad. — Isso tudo é um entrave. Às vezes, nós deslocamos uma pessoa para um local, ela é impedida de fazer a gravação e temos um dia perdido. Há situações em que compramos o ingresso para não perder o show.
Sorocaba lidera ranking
A lista de autores com maior rendimento em direito autoral com shows no Brasil em 2011 foi liderada por Sorocaba, o compositor paulista que faz dupla com Fernando e escreveu o hit "Meteoro", de Luan Santana. Em seguida, vêm Paul McCartney, John Lennon, Victor Chaves, Thiaguinho, Durval Lelys, Jorge Ben Jor, Carlinhos Brown, Roberto Carlos e Manno Góes. Já a música mais executada em shows, segundo o Ecad, foi "Fugidinha", de Rodriguinho e Thiaguinho.
domingo, 1 de abril de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
Rebobine, por favor
A fita cassete faz 50 anos resistindo à era digital através de pequenos selos, aplicativos e produtos de consumo pop
Carlos Albuquerque
carlos.albuquerque@oglobo.com.br
Uma charge que circula pela internet mostra um walkman de capa e capacete pretos falando para um iPod branco: “I am your father” (Eu sou o seu pai), numa alusão à célebre frase de Darth Vader para Luke
Sywalker no filme “O império contra-ataca”, de George Lucas. A brincadeira ganha um sentido todo especial em 2012, quando a fita cassete completa 50 anos. Enquanto o aparelho criado da Sony parou
de ser produzido no Japão em sua versão original em 2010, a pequena
fita cassete, inventada pela Philips em 1962 e carinhosamente
apelidada de K7, resiste ao seu fim várias vezes anunciado.
Em pleno reinado dos players digitais, ela respira sem a ajuda de
aparelhos, mantendo-se através de pequenos selos no Brasil (como o
mineiro Pug Records) e no exterior, sempre em tiragens
limitadíssimas. Além disso, sua imagem e seu formato ainda inspiram
de aplicativos — como o Stereolizer, que simula um rack de gravação
em cassete — a obras de arte — como as criações da artista americana Erika Iris Simmons, feitas com pedaços de fita —, além de vários
produtos de consumo pop.
— Sou louco por fitas cassete e tenho uma grande coleção que escuto
no toca-fitas que ainda tenho no carro. Meus caronas nem acreditam
quando descobrem isso — garante o cantor americano de folk rock Kurt
Vile, que se apresenta no dia 13 de abril, no Circo Voador, ao lado de
Thurston Moore, do Sonic Youth, autor do livro “Mix tape: The art of
cassette culture”, lançado em 2005. — Quero fazer como os meus
amigos do Dinosaur Jr. e relançar meus discos em cassete. Esse
formato é parte da História da música.
Vile se refere à iniciativa do Dinosaur Jr, um dos mais amados grupos
de rock alternativo dos Estados Unidos, que relançou, no fim do ano
passado, três álbuns no hoje inusitado formato de fitas cassete.
Intitulada “The cassete trilogy”, a caixa, de apenas 500 cópias, trazia
os discos “Dinosaur”, “You’re living all over me” e “Bug”.
Em 2011, outros dois grupos também entraram nessa onda retrô. O
Animal Collective lançou uma fita cassete com quatro músicas inéditas.
O Of Montreal foi mais longe e lançou, em outubro, uma caixa (de
madeira) contendo dez discos da banda em versão cassete. As
iniciativas replicam, de certa forma, uma outra, bem anterior, feita
pelo Radiohead, que, em 1997, quando os CDs já dominavam o
mercado, lançou “Ok Computer” também nesse formato — a fita pode
ser encontrada, ainda hoje, na Amazon.
Dois anos depois, já escasseando nas lojas, a fita cassete foi o meio
encontrado por um grupo brasileiro para se lançar para o estrelato
indie.
— Na época, uma cópia em CD não era tão fácil ainda. Marcelo
(Camelo) e eu colecionávamos fitas-demo das bandas de que
gostávamos; esse era, então, o meio mais natural para a gente lançar
o Los Hermanos — conta Alex Lerner, produtor do grupo. — As fitas
eram feitas manualmente num double-deck lá de casa. Todo o dinheiro
que ganhávamos com a venda era reinvestido na compra de novas TDK
60.
— Lembro que lançamos três fitas: duas com cinco músicas inéditas em
cada e uma coletânea das duas — completa o baterista Rodrigo Barba.
— Eu tenho um 3 em 1 no qual ainda dá para escutar todas essas fitas.
Carlos Albuquerque
carlos.albuquerque@oglobo.com.br
Uma charge que circula pela internet mostra um walkman de capa e capacete pretos falando para um iPod branco: “I am your father” (Eu sou o seu pai), numa alusão à célebre frase de Darth Vader para Luke
Sywalker no filme “O império contra-ataca”, de George Lucas. A brincadeira ganha um sentido todo especial em 2012, quando a fita cassete completa 50 anos. Enquanto o aparelho criado da Sony parou
de ser produzido no Japão em sua versão original em 2010, a pequena
fita cassete, inventada pela Philips em 1962 e carinhosamente
apelidada de K7, resiste ao seu fim várias vezes anunciado.
Em pleno reinado dos players digitais, ela respira sem a ajuda de
aparelhos, mantendo-se através de pequenos selos no Brasil (como o
mineiro Pug Records) e no exterior, sempre em tiragens
limitadíssimas. Além disso, sua imagem e seu formato ainda inspiram
de aplicativos — como o Stereolizer, que simula um rack de gravação
em cassete — a obras de arte — como as criações da artista americana Erika Iris Simmons, feitas com pedaços de fita —, além de vários
produtos de consumo pop.
— Sou louco por fitas cassete e tenho uma grande coleção que escuto
no toca-fitas que ainda tenho no carro. Meus caronas nem acreditam
quando descobrem isso — garante o cantor americano de folk rock Kurt
Vile, que se apresenta no dia 13 de abril, no Circo Voador, ao lado de
Thurston Moore, do Sonic Youth, autor do livro “Mix tape: The art of
cassette culture”, lançado em 2005. — Quero fazer como os meus
amigos do Dinosaur Jr. e relançar meus discos em cassete. Esse
formato é parte da História da música.
Vile se refere à iniciativa do Dinosaur Jr, um dos mais amados grupos
de rock alternativo dos Estados Unidos, que relançou, no fim do ano
passado, três álbuns no hoje inusitado formato de fitas cassete.
Intitulada “The cassete trilogy”, a caixa, de apenas 500 cópias, trazia
os discos “Dinosaur”, “You’re living all over me” e “Bug”.
Em 2011, outros dois grupos também entraram nessa onda retrô. O
Animal Collective lançou uma fita cassete com quatro músicas inéditas.
O Of Montreal foi mais longe e lançou, em outubro, uma caixa (de
madeira) contendo dez discos da banda em versão cassete. As
iniciativas replicam, de certa forma, uma outra, bem anterior, feita
pelo Radiohead, que, em 1997, quando os CDs já dominavam o
mercado, lançou “Ok Computer” também nesse formato — a fita pode
ser encontrada, ainda hoje, na Amazon.
Dois anos depois, já escasseando nas lojas, a fita cassete foi o meio
encontrado por um grupo brasileiro para se lançar para o estrelato
indie.
— Na época, uma cópia em CD não era tão fácil ainda. Marcelo
(Camelo) e eu colecionávamos fitas-demo das bandas de que
gostávamos; esse era, então, o meio mais natural para a gente lançar
o Los Hermanos — conta Alex Lerner, produtor do grupo. — As fitas
eram feitas manualmente num double-deck lá de casa. Todo o dinheiro
que ganhávamos com a venda era reinvestido na compra de novas TDK
60.
— Lembro que lançamos três fitas: duas com cinco músicas inéditas em
cada e uma coletânea das duas — completa o baterista Rodrigo Barba.
— Eu tenho um 3 em 1 no qual ainda dá para escutar todas essas fitas.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Reedição de discos antigos supera lançamento de inéditos no Brasil
Levantamento mostra que gravadoras consideram o passado menos arriscado que o presente
RIO - A observação atenta dos CDs de artistas brasileiros que chegam ao mercado não deixa dúvidas: o passado é cada vez mais presente. Desde as caixas que reeditam obras completas dos grandes nomes da MPB, passando pelas raridades do samba e das primeiras décadas da canção no Brasil e chegando às pérolas obscuras ou consagradas do rock nacional, a impressão que se tem é que a indústria fonográfica hoje lança mais CDs antigos reeditados do que produtos inéditos. Impressão que se confirma num levantamento feito pelo GLOBO junto a quatro gravadoras (Sony, Universal, Warner e Biscoito Fino), somente levando em conta CDs (DVDs e Blu-Ray não foram considerados) de artistas brasileiros lançados desde janeiro de 2011 — e acrescentando o planejamento até o fim de 2012. A proporção é de 55% de relançamentos contra 45% de lançamentos - uma conta confirmada por executivos da indústria fonográfica.
Há muitas razões para o fenômeno — que se repete em todo o mundo, notam os executivos. Uma delas é levantada por José Celso Guida, diretor executivo da Biscoito Fino — gravadora que investe pouco em relançamentos até por ser jovem, de pouco mais de uma década, e não dispor de um catálogo enorme.
— Para se produzir um CD novo ainda se gasta muito, e o retorno demora e é incerto. Algumas gravadoras podem escolher não ter risco e se capitalizar com produtos antigos — argumenta. — É o momento que estamos passando. É aquela história: durante o nevoeiro, o marinheiro leva o barco devagar. Neste momento de maré baixa, é até prudente investir menos. Há um crescimento no mercado digital, mas no físico não. Quando se fala em crescimento do físico, ele se dá por conta de fenômenos como a Paula Fernandes, não é generalizado.
O aumento da participação no mercado de um consumidor mais exigente, que procura comprar os discos originais, também provocou o fortalecimento das reedições. O momento atual vem sendo alimentado ao longo da última década, quando o formato das coletâneas — que teve um sucesso incontestável nos anos 1990 — entrou em decadência.
— A primeira leva de reedições veio com a chegada do CD — lembra José Eboli, presidente da Universal Music Brasil, traçando um histórico. — Aquela foi uma época áurea para a indústria: com um novo formato, ela começou a vender de novo aqueles discos para as pessoas que já os tinham. Depois veio a fase das séries de coletâneas, como "Millennium", "Personalidade", cada gravadora tinha as suas. Isso foi explorado à exaustão, e os clientes passaram a recusar porque era sempre mais do mesmo. Às vezes, um mesmo artista tinha coletâneas parecidas lançadas por gravadoras diferentes, era confuso. Com a fonte das séries secando, começaram os relançamentos mais bem produzidos. Aí entrou o trabalho dos pesquisadores especializados, para valorizar esses produtos com um olhar diferente, o levantamento de raridades.
Pesquisadores como Charles Gavin, Rodrigo Faour e Marcelo Fróes estão por trás de várias reedições, em parcerias com as majors. Com seu selo Discobertas, Fróes é um dos responsáveis, talvez o maior na esfera independente, pela atual enxurrada de relançamentos. Só de 2011 para cá, ele pôs nas lojas (em caixas ou em CDs avulsos) artistas como Celly Campello, Zimbo Trio, Ed Lincoln, Moreira da Silva, Xangô da Mangueira e Candeia. Outra independente que procura valorizar os arquivos da música brasileira é a Joia Moderna, do DJ Zé Pedro. Ela já relançou CDs de Vanusa, Lecy Brandão e Edy Star, entre outros.
A tendência não parece dar mostras de enfraquecimento em 2012. Há produtos fortes no planejamento das gravadoras: o relançamento de "Transa", de Caetano Veloso, e de uma caixa com a discografia de Chico (ambos na Universal); a reedição da obra de Luiz Gonzaga (Sony); a coleção completa de álbuns dos Titãs (Warner). Em todos os casos, o material traz bônus, algo que Sergio Affonso Fernandes, presidente da Warner Music Brasil, chama de "aprofundamento do olhar sobre o catálogo".
— As edições dos Titãs serão especiais — adianta Sergio Affonso. — Teremos uma totalmente inédita do "Cabeça dinossauro", por exemplo.
iTunes: novo olhar sobre os catálogos
Há uma força simbólica no fato de haver mais relançamentos que lançamentos no mercado da música brasileira. Mais do que isso, nota o diretor da Biscoito Fino:
— Relançamento demais é estagnação. Mas não acredito que seja esse o caso com o mercado brasileiro.
O fantasma da estagnação é afastado, explica Eboli, quando se olha a importância das reedições e dos produtos inéditos no faturamento da gravadora:
— A conta mais importante para nós é a do número de vendas. O ideal é que ela esteja dividida com 60% do faturamento de produtos novos e 40% para catálogo. É claro que isso varia, mas se for muito diferente disso, por exemplo o contrário, é preocupante. Porque significa que você não está produzindo hoje o catálogo para o futuro.
O presidente da Warner acrescenta:
— Normalmente, a reedição é para compor venda, não é um produto que faz uma diferença fundamental no faturamento. Mas é claro, se você bota 35 títulos juntos no mercado e cada um vende duas mil unidades, você tem 70 mil discos vendidos, o que é considerável.
Há um dado novo na relação das gravadoras com o catálogo. A chegada do iTunes ao Brasil promete um novo olhar sobre o material que eles possuem em seus arquivos.
— O iTunes te obriga a olhar para o catálogo, porque você tem que digitalizar, disponibilizar tudo. E mexer ali te leva a pensar em novas reedições — nota Sergio Afonso.
Eboli foi avisado pelos diretores da Universal internacional sobre a força do catálogo para o iTunes, mas mesmo assim se surpreendeu.
— Discos como "Elis & Tom" foram top ten — conta.
O digital, aliás, é visto por ele como o possível futuro dos catálogos. O executivo crê que as atuais reedições, como aconteceu com as coletâneas, entrarão em decadência:
— Vai chegar uma hora em que o atual formato de reedições vai se esgotar também. Estamos chegando perto do esgotamento da exploração desse catálogo com produtos físicos.
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