sexta-feira, 22 de março de 2013

YouTube supera a marca de 1 bilhão de acessos ao mês


 



A audiência mensal do site equivale à de dez SuperBowl, final do campeonato de futebol americano que é um dos programas mais assistidos no mundo
Foto: ERIC GAILLARD / REUTERS
A audiência mensal do site equivale à de dez SuperBowl, final do campeonato de futebol americano que é um dos programas mais assistidos no mundo ERIC GAILLARD / REUTERS
RIO — Um bilhão de pessoas acessa o YouTube pelo menos uma vez por mês, anunciou o site de vídeos da Google nesta quinta-feira, em post comemorativo no blog da empresa.
O YouTube atingiu a marca oito anos depois de lançado e menos de sete anos depois de ter sido comprado pela Google, em 2007, por US$ 1,65 bilhão. O Facebook chegou ao mesmo número de usuários únicos ativos mensais em oito anos, enquanto o Twitter, que existe há sete anos, tem apenas 200 mil desses usuários.
Para celebrar, o blog da companhia fez algumas comparações a partir do número. Por exemplo: quase metade dos internautas do planeta acessa o YouTube todo mês. A audiência mensal do site equivale à de dez SuperBowl, final do campeonato de futebol americano que é um dos programas mais assistidos no mundo.
O site tem sido beneficiado pela popularização da internet banda larga em escala global — quem já tentou entrar no site em uma conexão discada sabe quão irritante e sem graça é a experiência. Tanto que o número de visitantes únicos do YouTube cresceu 25% em apenas um ano.

Napster: dois adolescentes e uma revolução cultural



Filme conta a história do serviço que mudou a forma como o mundo ouve música
Shawn Fanning (à esquerda) e Sean Parker em cenas de “Downloaded”
Foto: Divulgação
Shawn Fanning (à esquerda) e Sean Parker em cenas de “Downloaded” Divulgação
LONDRES - Em 1999, ainda um adolescente de boné, Sean Parker, futuro investidor bilionário do Facebook, disse a jornalistas que um dia “todo mundo vai ouvir música no celular”. Era mais ou menos, lembra ele, como “tentar vender eletricidade para as pessoas antes da invenção da lâmpada elétrica”.
“Downloaded”, filme que conta a história do serviço de compartilhamento digital de música Napster, está cheio de momentos assim, em que os fundadores da companhia, Parker e Shawn Fanning, já vislumbram um futuro no qual os fãs ouvem música em aparelhos diversos, mesmo enquanto todo mundo está indo à Virgin Megastore para comprar o disco das Spice Girls.
O documentário de duas horas teve sua première mundial no festival South by Southwest, encerrado no último domingo, no Texas, com a presença dos dois fundadores do Napster e do diretor do filme, Alex Winter. O cineasta de 47 anos ainda é mais conhecido pelo papel de Bill S. Preston, que desempenhou nas comédias “Bill e Ted — Uma aventura fantástica”, de 1989, e “Bill e Ted — Dois loucos no tempo”, de 1991, além do Marko de “Os garotos perdidos” (1987) e de codirigir e estrelar “Freaklândia — Parque dos horrores” em 1993. Desde então, ele pouco fez além de dirigir séries de TV. Esta versão da história do Napster tem algo de Bill e Ted, dois adolescentes que acabam, involuntariamente, mudando a História.
Parker e Fanning, de Virgínia e Massachusetts, respectivamente, se conheceram em uma sala de chat na internet, nos anos 1990. Com 17 e 18 anos, foram para a Califórnia para fundar o Napster, uma comunidade digital de compartilhamento gratuito de música.
— Éramos meninos, nunca tínhamos andado de avião — lembra Fanning. — De repente, nossos ídolos pareciam querer nos matar.
26 milhões de usuários em dois anos
Quinze anos depois, percebe-se como o Napster era audacioso: em dois anos de operação, ele chegou a 26 milhões de usuários, deixou de joelhos a indústria musical, que valia US$ 50 bilhões e mudou a percepção dos fãs, que passaram a pensar se gostariam de pagar ou não por suas coleções de discos. No filme, as gravadoras lembram como ficaram em “emboscadas” armadas pelos garotos; elas os chamavam de ladrões, piratas, mercenários. Se o público acreditar em Parker e Fanning, eles eram apenas adolescentes em um pequeno escritório no Vale do Silício que não tinham a menor intenção de rearrumar a indústria musical; mas se não fossem eles, outra pessoa faria isso.
— Em 1998, já havia tecnologia para uma loja do iTunes ou para um serviço de streaming — diz Parker. — As gravadoras sabiam disso, mas a atitude delas era: “Como podemos bloquear isso, ou como faremos para garantir que ninguém nunca vai roubar uma faixa de nós?”. Eles estavam apavorados. Nós apenas preenchemos uma lacuna que as gravadoras tiveram a chance de ocupar, mas se recusaram. Eles perderam a indústria inteira por isso.
O Napster acabou em 2001, depois de enfrentar processos de companhias e dos artistas — Metallica e Dr. Dre foram os mais badalados. Mas suas ideias não morreriam. Sean Parker levou suas noções de comunidade e streaming de música em suas empreitadas seguintes, o Facebook e o Spotify. O Napster iniciou um movimento que levaria à queda dos pilares da velha indústria fonográfica na década seguinte.
A empolgação da época é palpável no documentário, que retrata o surgimento do movimento música-de-graça-para-todos. Parker lembra a “época de ouro para a música. Eu nunca vi tanta paixão na descoberta de artistas como naquele ano, 1999”.
Alex Winter diz que fez o filme por ser “fã do Napster”. Fatos como o Wikileaks o incentivaram, já que “uma década depois do Napster, pouco mudou em relação à desconfiança geral que se tem do compartilhamento de informação on-line. Eu quis colocar a história deles nesse contexto”.
O que ele fez, no entanto, foi capturar um pouco da energia e da alegria daquele tempo — uma lembrança de como, recentemente, jovens ousados comandaram uma revolução cultural.

terça-feira, 19 de março de 2013

O ano dos sites pagos


O relatório State of News Media mostra que, enfim, os jornais americanos começaram a sair de sua pior crise

Saiu a edição 2013 do State of News Media, o profundo relatório anual do Pew Research Center que analisa como anda o jornalismo e o negócio da notícia, nos EUA. E, pela primeira vez em muito tempo, as notícias são boas para quem deseja a sobrevivência do jornalismo profissional. Foi, 2012, o ano do paywall. Da cobrança pelos sites. Dos 1.380 jornais americanos, 450 iniciaram alguma forma de assinatura digital. E os leitores toparam.
Já há muito tempo que o negócio do jornal, nos EUA, anda mal. Mas o ano passado parece ter marcado uma virada. Embora a queda no lucro com publicidade tenha sido de 7%, a queda geral ficou em 3%. Isto quer dizer que as novas entradas, principalmente no aumento de circulação digital e impressa, começaram a inverter a curva. (Os números do Brasil são bem diferentes, melhores.)
Um dos pontos fundamentais da estratégia de assinatura digital inicialmente adotada pelo “New York Times” e, depois, por inúmeros outros, é o estímulo ao crescimento da circulação do jornal impresso.
Trata-se de um tripé. Começa com o paywall. Quem frequenta muito um site, após um tempo, encara uma tela que pede a assinatura. O segundo ponto, porém, é que o paywall é poroso. Por um motivo simples. A maioria dos leitores de um site de notícias não vem toda hora. Assim, um número razoável de matérias é oferecido gratuitamente. Os textos lidos por quem chega via redes sociais ou Google também não contam no limite de matérias que exigirão assinatura.
Há um raciocínio, aí. A publicidade, na web, vem com volume. Como o grande volume de páginas exibidas é gerado por quem vem pouco, não se corre o risco de abandonar estes recursos. Por outro lado, os leitores que mais frequentam o site são justamente aqueles que mais valorizam a informação. É onde entra o terceiro ponto do tripé.
Na fórmula mais adotada, o digital é gratuito ou muito mais barato para os leitores que assinam o jornal impresso. E, invariavelmente, há um pacote de assinatura impressa, às vezes um pacote de fim de semana, que sai mais em conta do que a assinatura digital. E o aumento da circulação do impresso estimulado por essa estratégia gera maior rendimento publicitário no papel.
A Gannett, maior grupo editorial dos EUA, aumentou seu lucro com circulação (impressa e digital) em 17%. No “New York Times”, o rendimento com circulação ultrapassou o com publicidade.
Circulação de impressos também cresceu
O leitor não é ingênuo nessa história. Aliás, a ideia é justamente o oposto disso. Ao reconhecer o valor da informação, se oferece a pagar. Porque, no lado da publicidade, o ambiente é ruim. Há mais opções para os anunciantes. E, em ambientes como o dos celulares, este dinheiro praticamente não existe. Metade dos americanos tem smartphones. A renda com publicidade móvel, porém, corresponde a 1% de toda publicidade digital.
No tablet, que é muito novo, há esperança. Até 31% dos americanos têm tablets. As agências publicitárias ainda não sabem o que fazer com os aparelhos. Mas os aplicativos de notícia parecem atrair muito mais a atenção dos leitores do que os sites. (No app do Globo, cada visita dura em média uma hora e meia; é mais até do que o jornal) Tanta atenção parece favorecer uma publicidade voltada ao branding, às marcas. E, nisso, há algum sucesso com grandes patrocinadores destes programas.
No fim, a estratégia completa fez aumentar também a circulação de papel. Aos domingos, que é o dia onde há mais jornais na rua, aumentou em 5%. Hoje, nos números de todo o país, 15,3% das assinaturas são digitais.
Nos EUA, a crise dos jornais que teve início em 2007, 2008, foi muito séria. O resultado é que demissões de jornalistas em todo o país e o fechamento de inúmeras redações fizeram com que o número de empregados da imprensa chegasse a menos de 40 mil, o menor desde 1978. Sem a qualidade que vem de sólidas redações, será difícil captar assinantes que reconhecem valor no que lêem. Afinal, produção jornalística barata e de graça é o que mais tem na web. É o desafio dos próximos anos.

‘Washington Post’ decide cobrar por conteúdo noticioso online


O Washington Post planeja começar a cobrar pelo acesso a parte de seu conteúdo digital a partir de meados deste ano nos EUA, tornando-se um dos últimos grandes jornais americanos a partir para a cobrança como meio de reforçar a receita proveniente de material online.
Leitores online do jornal serão obrigados a pagar uma taxa de assinatura após acessar 20 artigos gratuitos por mês. Assinaturas da edição impressa do jornal darão acesso gratuito a todo o conteúdo digital do Post. O anúncio das mudanças foi feito na segunda-feira (18/3), sem quaisquer detalhes adicionais sobre preços.
“Os consumidores entendem o alto custo da operação de coleta de notícias e reconhecem a importância de manter reportagens aprofundadas, pelas quais o Post é conhecido”, escreveu a editora-chefe do diário, Katharine Weymouth, em comunicado.
“Proposta irracional”
Em reunião com a equipe do jornal, Katharine afirmou que continuar aumentando o preço cobrado pelo impresso, mantendo o conteúdo digital gratuito, é “uma proposta irracional para os leitores”.
O diretor-executivo do Post, Donald E. Graham, por muito tempo foi receoso com a implantação da cobrança pelo conteúdo digital, pois temia que a medida afastasse leitores e anunciantes. “A razão pela qual ainda não adotamos a cobrança é que não encontramos um modelo que realmente aumente a receita”, disse Graham, em conferência de mídia realizada em dezembro do ano passado, em Nova York.
Agora, isso mudou. O plano para começar a cobrar os leitores pelo acesso digital foi divulgado no momento em que jornais enfrentam sérios desafios, já que os anunciantes – que já foram a principal fonte de receita – começam a optar por gastar seus dólares em outras mídias.
A publicidade impressa para a indústria de jornais apresentou queda pelo sexto ano consecutivo em 2012, caindo 7,3%, de acordo com “The State of the News Media”, um influente relatório anual divulgado na segunda-feira (18/3) pelo Project for Excellence in Journalism (Projeto para Excelência em Jornalismo), do Pew Research Center. Em função da queda na receita de publicidade impressa, a diferença entre os conteúdos impresso e digital é surpreendente: para cada US$ 1 ganho em publicidade digital, há uma perda de US$ 16 na publicidade impressa, diz o relatório.
Receita publicitária caiu 14%
No Post, a receita com publicidade impressa caiu 14%, para US$ 228,2 milhões em 2012. Já a publicidade digital, que inclui a revista online Slate, apresentou aumento de 5%, chegando a US$ 110,6 milhões.
O modelo do Post é o mesmo adotado com sucesso pelo New York Times, que bloqueia o acesso ao material publicado após a leitura de um dado número de reportagens. Segundo o Pew Research Center, cerca de 32% dos jornais diários nos EUA cobram por algum tipo de acesso digital.

Parlamento britânico fecha acordo para regular mídia


Instância poderá impor multas de até R$ 3 mi e exigir retratações de erros
Adesão será voluntária, mas quem ficar de fora estará sujeito a leis mais severas; jornais "estudam" a proposta
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Após meses de debate e uma divisão na base parlamentar do governo David Cameron, os três principais partidos do Reino Unido acordaram ontem a criação de uma nova instância de regulação para jornais, revistas e sites noticiosos com poder para determinar multas e impor publicação de correções.

A filiação dos veículos ao novo corpo regulador, aprovado ontem pelo Parlamento, será voluntária, mas órgãos que não aderirem estarão sujeitos a leis "exemplares" em caso de mau comportamento.

A imprensa britânica não se subordina a nenhuma lei desde o século 17. Até agora, havia o PCC (Press Complaints Comission, comissão de queixas sobre a imprensa), órgão autorregulador considerado ineficaz.

O novo formato é uma resposta do Parlamento às recomendações da comissão Leveson, que em novembro do ano passado criticou o PCC e cobrou nova regulação após investigar o uso de grampos ilegais pelo tabloide "News of the World", do magnata Rupert Murdoch.

O pacto foi anunciado no mesmo dia em que um advogado das vítimas do tabloide, fechado por causa do escândalo, disse ter evidência de que o número real de pessoas grampeadas pelo jornal pode chegar a centenas.

Para o acordo, o partido Conservador, de Cameron, o Liberal Democrata, da base governista, e os opositores do Partido Trabalhista discutiram todo o fim de semana.

O resultado foi uma solução intermediária: não haverá lei de mídia, como queria Cameron, mas o estatuto a ser aprovado pela rainha Elizabeth 2ª provavelmente em maio terá mecanismo que o impede de ser modificado sem a concordância de 2/3 do Parlamento.

A nova instância terá poder de impor multas de até R$ 3 milhões, segundo o premiê. Os jornais não terão poder para vetar os indicados a fazer parte do corpo regulador.

O grupo que defende as vítimas dos grampos comemorou o pacto enquanto representantes dos jornais mais vendidos do país, como "The Daily Mail", "The Daily Telegraph" e "The Sun", de Murdoch, disseram em nota que precisam "estudar a proposta" para se pronunciar.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Book Review: 'The End of Power' (Forbes)



Interesting review of a new book by Moises Naim called The End of Power in the Wall Street Journal. The vast rise of powerful technological tools that are available with virtually no capital expenditure up front means that it has become a phenomenal time to be a challenger and a difficult time to be an incumbent. In anything. The old “barriers to entry” notion becomes a rara avis in all but a few areas and endeavors.
I also call this the “ankle-biter economy.”

sábado, 9 de março de 2013

A internet que (quase) ninguém vê (Deepweb)




Centenas de vezes maior do que a rede convencional, a deep web é palco para crimes de pedofilia e ações políticas. No subterrâneo, empresas à serviço de governos e corporações já fazem investigações nesse internet oculta

Para alguns críticos, um dos filmes que melhor representa o grande debate da era digital é "Minority report - A nova lei". No longa-metragem futurista, dirigido por Steven Spielberg e lançado em 2002, a sociedade abdica de sua privacidade em nome da segurança: qualquer cidadão pode ser rastreado e ter suas ações controladas com o objetivo de evitar crimes. Na internet a que a maioria dos usuários tem acesso, a relação é semelhante. As empresas mais populares, como Google, Facebook, Amazon ou Apple, limitam o tráfego pela rede às suas próprias regras e monitoram os internautas. É uma forma de dar segurança, de evitar que crimes sejam cometidos, mas é, também, uma barreira para a privacidade.

Só que existe, fora da vista dos usuários regulares, uma internet escondida, em que não há controle, e tudo é permitido. Ela se chama deep web (web profunda): uma região da rede que teria até 400 vezes o tamanho da web visível e onde a privacidade está acima da segurança. Ou seja: o que o internauta comum consegue enxergar em seu dia a dia de navegação representaria 0,25% do volume de dados que está disponível na rede.

O termo foi criado pelo cientista da web Michael K. Bergman, em 2001, no artigo "The deep web: surfacing hidden value" ("A rede profunda: trazendo à tona valores escondidos"). Nele, Bergman explica que os dados aos quais temos acesso pelos mecanismos de busca tradicionais compõem a chamada "web da superfície". A maior parte da rede, na verdade, seria composta por páginas que não podem ser encontradas facilmente, e, por isso, considera-se que estão nas profundezas. Na deep web .

- As páginas da web da superfície podem ser rastreadas e indexadas pelos mecanismos de busca tradicionais, como o Google, porque são ligadas umas às outras por links. Já as páginas que estão na deep web residem em bases de dados pesquisáveis, mas somente podem ser descobertas por uma consulta direta. Sem isso, seus resultados não são publicados - explica Bergman, em entrevista por e-mail.

O acesso a essas profundezas é feito por programas específicos, que escondem a identidade do usuário. A navegação é mais lenta e segue uma lógica distinta. Você não encontra um dado na deep web simplesmente procurando uma página no Google e clicando em seu link. É preciso saber o que procurar e como procurar - há, contudo, algumas experiências criadas para facilitar o acesso aos sites, como a Hidden Wiki (uma espécie de listagem de páginas, num visual como o da Wikipédia, mas "escondido"). Em geral, as páginas são simples, sem muitos recursos, mas com muita informação.

O diferencial da deep web é justamente reunir tudo o que não se encontra na web tradicional. Só que o "tudo" às vezes é um problema. Um uso positivo dessa rede profunda acontece em países com regimes ditatoriais, que tentam controlar a troca de informação na internet, como Irã, Coreia do Norte e China. É comum, por exemplo, que correspondentes estrangeiros se comuniquem pela deep web para não serem descobertos. Trata-se da privacidade que a rede tradicional não fornece. Por outro lado, o anonimato permite a troca de conteúdos ilícitos, como os mais diversos tipos de parafilia, entre elas a pedofilia. Além disso, suas páginas são espaços para testes de vírus.

A web profunda, assim, tanto pelo lado positivo quanto pelo negativo, desenvolveu-se como uma resposta à internet da superfície.

- A deep web subverte as regras da internet tradicional, onde, em tese, temos segurança e conveniência, mas abrimos mão de nossa privacidade - explica Carlos Affonso, vice-coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da FGV Direito Rio. - Na deep web , a segurança fica de lado em favor do anonimato e da liberdade de seus usuários, algo que é o extremo oposto da internet comercial.

Na esfera negativa, nela encontram-se diversos fóruns para práticas ilícitas. Trocam-se imagens e vídeos de menores nus ou de situações extremamente violentas, como estupros e assassinatos. Há espaços para venda de drogas, exploração do turismo sexual e até compra de armas. Num fórum, havia, esta semana, uma mensagem de um usuário - anônimo, claro - pedindo dicas para a compra de um passaporte brasileiro na Europa.

Ao mesmo tempo, cidadãos comuns, ativistas, organizações não governamentais e até jornalistas usam a deep web para se comunicar de forma livre da censura ou mesmo discutir assuntos controversos preservando a sua privacidade. Por causa dessa característica, é lá que organizações como a WikiLeaks e grupos de ciberativismo como o Anonymous atuam, se articulam e publicam seus documentos.

- Pensando em revoluções, como as da Primavera Árabe, a deep web teve um papel fundamental para a articulação política de civis que, de outro modo, não seria possível por causa do controle dos governos - diz Affonso.

Entre os recursos mais usados para acessar a deep web está o navegador Tor, que permite manter o anonimato durante a navegação. Originalmente criado pelo Laboratório de Pesquisa da Marinha dos EUA, com o objetivo de proteger as comunicações do governo americano, atualmente o software faz parte da ONG Tor Project, uma iniciativa independente que visa a possibilitar a privacidade pela rede.

Para garantir a navegação anônima, o Tor depende de sua comunidade de usuários, todos voluntários. Cada usuário de internet tem um protocolo que identifica de onde está sendo feito o acesso: é o IP, uma espécie de identidade do internauta. No Tor, os voluntários oferecem seus IPs para outros usuários poderem maquiar a origem do acesso.

Riscos para usuários

Só que isso pode trazer complicações. Em novembro, a polícia bateu na casa do austríaco William Weber, de 20 anos, acusando-o de repassar imagens de crianças nuas. O jovem desde então vem tentando provar que o que ele fazia era apenas fornecer seu IP para o Tor, a fim de ajudar outros usuários. "É muito ruim que o Tor possa ser usado por criminosos, mas não há nada que eu e o Tor Project possamos fazer quanto a isso", disse Weber, em entrevista ao jornal americano "Wall Street Journal".

- Essa dualidade é justamente o que faz a deep web ser o que ela é - diz Pedro Augusto, pesquisador do CTS da FGV-Rio. - Seus lados positivo e negativo estão atrelados. Não é possível ter um sem o outro. Nesse sentido, a deep web é um retrato muito próximo do que a internet era há 20 anos, em termos de controle e monitoramento.

O caso de Weber, porém, mostra que o anonimato pode não ser absoluto - da mesma forma que a segurança na web da superfície. Hoje, qualquer país tem uma divisão policial dedicada a crimes virtuais. A web tradicional, por isso, está sempre sendo rastreada, com a aprovação das empresas estabelecidas. Se alguém provar à Google que um vídeo do YouTube fere as normas daquele país, ele é imediatamente tirado do ar. No caso da deep web , nada sai do ar com essa facilidade. Mas são usuais os boatos de que policiais entram na rede atrás de informações sobre ilegalidades. E o próprio grupo de ciberativismo Anonymous já cuidou de expor as identidades reais de usuários que frequentavam fóruns de pedofilia.

Para além de seu lado obscuro, a web profunda também possui um grande interesse comercial para uma série de empresas que buscam, em seu imenso conteúdo, informações que podem ser importantes para seus clientes, sejam eles políticos ou corporações.

- Com a nossa tecnologia, conseguimos buscar referências que a própria Google não consegue - afirma Jamie Martin, investigador da empresa americana Bright Planet, especializada em buscas na deep web . - É importante que as pessoas compreendam que a deep web é muito mais do que seu lado obscuro.