quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Ministro defende regulamentação das TVs abertas


Paulo Bernardo afirmou que não se trata de dizer o que pode ser veiculado, mas de
estabelecer regras

Ronaldo D'Ercole

SÃO PAULO O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, defendeu ontem que as TVs
abertas e mesmo as rádios tenham uma regulamentação parecida com a que foi adotada
para as TVs por assinatura, com cotas de conteúdo nacional e regional nas suas
programações. Segundo Bernardo, que participou ontem da abertura do Congresso da
ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura), a regulamentação dos serviços de
rádio e TV aberta está prevista na Constituição e isso terá de ser feito. Bernardo
enfatizou que não se trata de dizer o que pode ou não ser veiculado, mas de
estabelecer padrões e regras, inclusive para evitar monopólios e excessiva
concentração no setor. Bernardo citou o exemplo hipotético de uma rede com 300
rádios pelo Brasil, que transmite a partir de uma única matriz. - Acho que está
errado. Temos que ter a produção jornalística, a produção cultural local, no lugar.
Pode até ter rede em alguns momentos, mas sou a favor de ter essas cotas de conteúdo
- disse, acrescentado adiante: - Quando falamos que vamos discutir conteúdo, como a
presidente Dilma Rousseff falou, é o seguinte: nós não estamos preocupados com o que
o noticiário vai dizer, com o que um apresentador de televisão, de rádio, ou um
articulista vai dizer no jornal. Isso, ou é assunto para o direito de resposta, se
for considerado ofensivo, ou é assunto para polêmica, para briga política. O
ministro afirmou ainda que a regulamentação de rádio e televisão aberta tratará
também das restrições previstas na Constituição quanto à concentração de poder
econômico. Segundo ele, a Constituição veta a existência de monopólios e oligopólios
em TV ou rádio. Bernardo descartou a existência de monopólio, mas disse que a de
oligopólio pode ser discutida. Assim como o sistema de afiliadas das grandes redes.
- Isso tem que ser discutido - disse Bernardo, citando o caso do grupo que edita o
diário "Clarín", da Argentina, que detinha 92 emissoras licenciadas: - É evidente
que isso é uma concentração. Enquanto Bernardo falava, um grupo de manifestantes
entrou no pavilhão onde ocorria a cerimônia de abertura do evento e estendeu uma
faixa cobrando do ministro o cumprimento do "artigo 54 da Constituição", com a frase
"Político não pode ter TV", seguida dos nomes dos senadores Fernando Collor de Melo
(PTB-AL), Agripino Maia (DEM-RN), Lobão Filho (PMDB-MA) e Jáder Barbalho (PMDB-PA),
que controlam afiliadas de redes nacionais de TV em seus estados. Questionado
depois, o ministro disse ser contra "políticos terem concessões de rádio e
televisão". Mas a legislação vigente apenas veta que eles tenham cargos de direção
em emissoras, não que tenham participação acionária. O ministro afirmou ainda que
empresas que oferecem conteúdo audiovisual pela internet, como a americana Netflix,
devem ser regulamentadas e tributadas como as TVs pagas. - Essas empresas recebem lá
fora dos assinantes pelo cartão de crédito internacional. De certa forma, para esse
segmento somos um paraíso fiscal - disse Bernardo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Um grande dia na história da imprensa

  • Jeff Bezos, da Amazon, comprou o ‘Washington Post’ e, se fizer com ele o que fez com os livros, começou a festa
  • ARTIGO - ELIO GASPARI

Em setembro de 1994 um curioso com jeito de E.T., diploma de engenharia da computação pela Universidade de Stanford e uma passagem pelo Bankers Trust queria começar seu negócio. Qual, não decidira, mas sabia que seu motor seria o comércio eletrônico. Inscreveu-se num curso rápido para interessados em vender livros. Viu que estava diante de um mercado anacrônico, fez uma dívida, alugou uma garagem e fundou a Amazon com a mulher, um computador e dois amigos. Vendeu livros e tornou-se a maior livraria do mundo. Vende de tudo e é a maior atacadista de comércio eletrônico. Jeff Bezos acaba de comprar por US$ 250 milhões o venerando “The Washington Post”, quindim dos jornalistas no século passado, berço da dupla de repórteres que derrubou o presidente Richard Nixon com suas reportagens sobre o caso Watergate.
O “Post” teve de tudo: editor brilhante, Ben Bradlee, copiloto da cobertura do Watergate; donos malucos, o playboy Edward MacLean, que azarou a família comprando para sua mulher o diamante Hope, ou Philip Graham, que pediu ao presidente John Kennedy que demitisse um editor do seu jornal. Doente, Graham matou-se. No apogeu, teve na sua viúva, Katharine, a cujo pai pertencera o jornal, a maior figura da história do “Post”. Logo ela, que até a morte do marido parecera uma dondoca maltratada e tímida. Kay Graham morreu em 2001.
A compra do jornal por Bezos foi anunciada dias depois de o “New York Times” ter vendido o “Boston Globe” por 6% do US$ 1,1 bilhão que pagou em 1993. Ele não só criou a Amazon como lançou o Kindle. Bezos é um gênio da conexão com os consumidores. Sua estrutura tecnológica é uma das maiores do mundo, mas seu segredo está na logística e no atendimento à freguesia. É um empresário feroz e detesta sindicatos. Quando lançou o Kindle, com livros a US$ 9,99, os magnatas do mercado editorial organizaram um cartel debaixo do guarda-chuva da Apple e acabaram nos tribunais. No Brasil sua operação é pedestre, mas essa é outra história.
Bezos entrou no “Post” com dinheiro do próprio bolso, para enfrentar o “The New York Times”, que há anos busca o caminho das pedras eletrônicas. Leva uma vantagem: com uma fortuna de US$ 27,9 bilhões, tem mais dinheiro que toda a família Sulzberger e pouco se lixa para as oscilações de Wall Street. A Amazon perdeu dinheiro durante cinco anos e sobreviveu à bolha da internet. Seu negócio, desde o primeiro momento, era a inovação. Numa daquelas histórias que fazem o folclore dos empresários, quando uma senhora idosa reclamou que os pacotes da Amazon eram difíceis de abrir, ele mandou redesenhá-los. Noutra: fazia reuniões mantendo uma cadeira vazia, para que todos se lembrassem do consumidor.
Bezos entra num mercado que consome fortunas em logística e papel para entregar produtos que podem chegar eletronicamente a um tablet em pouco mais de um minuto. É fácil intuir que, aos 49 anos, olha para esse negócio com a cobiça que sentiu aos 30, quando se inscreveu no curso para livreiros. O que fará, e como, será uma bonita história. De saída, anunciou que vive “em outra Washington”, pois sua sede fica em Seattle, do outro lado do país, no estado do mesmo nome. Um palpite: ele adora vender barato
.

O desafio dos jornais familiares nos EUA



O "New York Times", dos Sulzberger, é um dos últimos com esse modelo
A venda do "Washington Post" revela uma nova configuração da indústria de jornais
nos EUA: será o fim dos negócios familiares? Por oito décadas, ou quatro gerações, o
diário foi comandado por membros da família Graham, mas as dificuldades enfrentadas
pela indústria nos últimos anos forçaram a venda. Nos últimos 20 anos, é longa a
lista de publicações tradicionais que foram negociadas por famílias que as mantinham
havia gerações. Entre elas, destaque para o "Los Angeles Times", dos Chandlers, e o
"Wall Street Journal", dos Bancrofts. O "New York Times" é um dos últimos grandes
jornais americanos mantidos pela mesma família - os Sulzberger - há gerações, mas
também enfrenta problemas. No último sábado, o grupo anunciou a venda do "Boston
Globe" para o dono do time de beisebol Boston Red Sox por US$ 70 milhões. Em 1993, o
diário foi adquirido por US$ 1,1 bilhão. Com a concorrência da internet, os jornais
impressos dos EUA viram a circulação despencar ao longo das últimas décadas. Em maio
deste ano, a circulação do "Post" foi praticamente a metade da registrada no pico de
1993, de 830 mil exemplares diários vendidos. - Com o negócio de jornais trazendo
continuamente questões para as quais não temos resposta, comecei a me questionar se
a nossa pequena companhia ainda era a melhor casa para o jornal - afirmou Donald
Graham, diretor executivo da Washington Post Co.

A história se repete no ‘Post’


Coluna de Pedro Dória

Exatos 80 anos depois, novamente o jornal à beira do colapso é comprado por um milionário que deseja reinventá-lo

Em 1933, o milionário americano Eugene Isaac Meyer comprou um jornal à beira da falência na capital, Washington. Era o “Post”. Durante a crise financeira dos anos 1920, Meyer havia feito fortuna na Bolsa. No pior período da crise, dirigiu o Fed, Banco Central. Exatos 80 anos depois, seu neto vende o mesmo jornal, que enfrenta pesadas dificuldades financeiras. Não é, portanto, a primeira vez que isso ocorre na história de um dos mais importantes e tradicionais títulos da imprensa americana. E esta é uma história que conta muito. Sobre como bilionários convivem com a imprensa tradicional por lá, sobre como a imprensa tradicional se relaciona com o Vale do Silício, sobre como o jornalismo sobrevive.
Eugene Meyer não teve sucesso à frente do “Washington Post”. Ao menos não no quesito financeiro. A empresa só se tornou novamente rentável na década de 1950. O velho financista, porém, investiu muito no jornal. Transformou-se numa paixão compartilhada com o genro, Phil Graham. Curiosamente, não foi para sua filha Katherine, mas sim para o marido dela, Phil, que Meyer deixou o jornal.
O maior acerto da carreira de Graham foi a indicação de Ben Bradlee para dirigir a redação, em 1968. Naquele ano, o “Post” levara um furambaço do “New York Times”, que publicou os documentos do Pentágono, provando que o governo dos EUA sabia que o conflito no Vietnã daria errado, mesmo enquanto enviava mais soldados. Dois jovens repórteres, ao longo de todo o ano de 1972, cuidadosa e lentamente, publicaram uma série de reportagens que no conjunto se tornou o escândalo Watergate. O presidente Richard Nixon se viu obrigado a renunciar. O trabalho investigativo sob a batuta de Bradlee, bancado primeiro por Phil Graham e, posteriormente, por sua viúva Kate Graham, se tornou o símbolo máximo do que é jornalismo de qualidade.
Na carta que enviou aos funcionários do “Post”, Jeff Bezos incluiu: “quero pontuar duas formas de coragem que os Grahams têm mostrado. A coragem de dizer ‘espere, vamos com calma, busquemos outra fonte para confirmar’ e a coragem de continuar a insistir numa história, não importa quão alto leve.” Há ecos nítidos de Watergate aí.
Bezos não é meramente o idealizador e fundador da Amazon. Já seria muito, evidentemente, reinventar o comércio no século XXI. Ele também foi um dos primeiríssimos investidores no Google. Depositou na conta de Sergei Brin e Larry Page um cheque de US$ 250 mil dólares quando, para os jovens estudantes, aquilo era uma fortuna. Jeff Bezos sabe exatamente o que está fazendo.
Dificilmente espera fazer fortuna como dono de um jornal. Mas provavelmente espera fazer dinheiro. A pista para explicar a compra está em outra carta. Aquela escrita por Don Graham, filho de Kate e Phil, neto de Eugene. “Nosso objetivo como donos foi sempre de que a posse deveria ser boa para o “Post”. Nossa única saída seria cortar custos e sabíamos que havia um limite para isto.”
Exatamente como ocorreu há 80 anos, o “Post” precisa de um investidor com bolsos fundos o suficiente para sobreviver à tormenta, se reinventar e não deixar um único minuto de fazer bom jornalismo. Às vezes, cortar não é a solução. Pelo contrário. Cortar, muitas vezes, precipita um fim que não é necessário. Bezos traz tanto o bolso fundo quanto a qualificação para reinventar um jornal sem, espera-se, perturbar a qualidade do jornalismo que produz. Segue, assim, o exemplo do homem mais rico do mundo, Warren Buffett, que comprou o jornal de sua cidade natal. Para investir nele.
Por sua vez, Don Graham sabe exatamente para quem está vendendo. Ele conhece muito o Vale do Silício e a indústria de tecnologia. É um dos mentores de Mark Zuckerberg, criador do Facebook. Circula por aquele mundo já há vários anos. E Bezos é uma companhia frequente.
Impossível dizer o que ocorrerá nos próximos anos. Mas alguém que sabe fazer dinheiro na internet agora é dono de um dos mais importantes jornais do mundo. Vai ter muita gente de olho no que faz. Para quem se preocupa com jornalismo, a notícia é boa.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Jeff Bezos compra o Washington Post por US$ 250 milhões



Fundador da Amazon compra o Washington Post, um dos mais tradicionais jornais americanos

Roda Viva | Mídia Ninja | 05/08/2013

Transmitido ao vivo em 05/08/2013

Roda Viva com o jornalista Bruno Torturra e o produtor cultural Pablo Capilé, idealizadores do grupo Mídia Ninja.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O silêncio e a prosa do mundo



Ao relacionarmos silêncio e prosa, queremos, com isso, fazer o elogio da fala. É certo que a banalidade nos domina; mas é certo também que, sem a fala, seremos reduzidos a seres sem política, sem tolerância, sem poesia; em síntese, sem o humano
por Adauto Novaes
Em um ensaio sobre a prosa do mundo, o filósofo Maurice Merlau-Ponty observa que se fala na terra há muito tempo, mas três quartos do que se diz passam despercebidos. Podemos ir mais longe: poucas pessoas percebem, pensam e ouvem o silêncio. Sabemos apenas que silêncio sempre quer dizer mais do que o senso comum imagina e, por isso, ele nos propõe uma multiplicidade de problemas e questões. Sabemos, por exemplo, que não há um silêncio apenas: há o silêncio da perplexidade, do implícito, da reprovação, do subentendido, do que impede a fala de vir à expressão, o silêncio do torturado, o silêncio que asfixia o sentido das coisas. Há ainda o intolerável silêncio da política que faz de conta que ouve: são sistemas sociais, como escreve um dos conferencistas, que só podem durar se certas verdades, embora conhecidas de todos, nunca forem ditas publicamente. O silêncio é sempre a ausência de alguma coisa. Que sentido dar a tantos silêncios? Para falar desses e de outros silêncios e, portanto, da prosa do mundo, 25 pensadores do Brasil e do exterior estarão no Rio de Janeiro – Biblioteca Nacional – e em São Paulo – Sesc Vila Mariana – de 14 de agosto a 9 de outubro. (O programa completo pode ser lido no blog .)

Por que silêncio, por que prosa?

Os dados impressionam: pesquisadores afirmam que, só nos Estados Unidos, a partir da aceleração dos avanços tecnológicos, houve um aumento anual de quase 7 trilhões de palavras faladas. A pergunta é, então, inevitável: o que tanto se fala? Trata-se de uma civilização de falastrões, o que inclui, além de celulares, Facebooks, Twitters, chats(escritos na cadência da fala)? A linguagem técnica domina a fala e põe em lados opostos os números e as experiências? É o que nota George Steiner: “O alfabeto da ciência econômica moderna não é mais a palavra, mas sim a tabela, o gráfico, o número [...]. Grande parte da sociologia atual é iletrada, ou, para ser mais preciso, antiletrada. Quando tem de permanecer verbal, toma emprestado o que pode do vocabulário das Ciências Exatas. Graças à matemática, as estrelas saem da mitologia para figurar na tabela do astrônomo”. Qual é, pois, a importância do silêncio para as criações das obras de arte e do pensamento? Ou seja, como enfrentar o paradoxo? Se é graças à fala que o espírito se desenvolve e, assim, pensa, ao pensar, volta-se contra a fala prosaica e livra-se das evidências pronunciadas.

Mas atenção: ao relacionarmos silêncio eprosa,queremos, com isso, fazer o elogio da fala. É certo que a banalidade nos domina; mas é certo também que, sem a fala, seremos reduzidos a seres sem política, sem tolerância, sem poesia; em síntese, sem o humano. Do pensamento antigo (Epicuro, Platão, Sócrates) aos nossos dias, os exemplos de experiências da fala são infindáveis, e um deles merece especial atenção: trata-se de Karl Kraus, que, de 1910 a 1936, usou a fala como forma privilegiada para expressar seu pensamento em cerca de setecentas apresentações na Viena do entreguerras. Seguido muitas vezes por Wittgenstein, Schoenberg, Freud e grande público, em seu Teatro da poesia e do pensamento,Kraus exercia enorme fascínio, como nos lembra Steiner: “Como outros grandes profetas e vigias da noite, ele mantinha uma relação com a linguagem mais física, mais imediata, do que com qualquer outra capaz de ser posta por escrito”. Seu legado para a história do pensamento é inestimável, e a fala era uma de suas virtudes. Ao lermos seus famosos aforismos entendemos por que a sátira – uma das mais poderosas e demolidoras formas da fala – tende hoje a desaparecer, quando tudo é muito explícito e banal nos meios de comunicação: “Sátiras que a censura entende devem ser mesmo proibidas”.

Para tornar mais clara a relação entre silêncio e mutações, gostaria de tomar como exemplo a experiência de uma mutação que nos precedeu e que é narrada em um livro do Abbé Dinouart, L’art de se taire(A arte de se calar).Como nos esclarece uma notaintrodutória da edição francesa, Abbé Dinouart faz parte dos “eclesiásticos mundanos” do século XVIII que escreveram sobre temas variados. Dinouart é também autor de um livro “anônimo” intitulado Le triomphe du sexe(O triunfo do sexo). Essa nota é importante porque dá à sua obra um caráter mundano e político. Até certo ponto, o abade partilhou da corrente de filósofos iluministas e libertinos. Lemos na apresentação da edição de 2011 deL’art de se taireque é visível na obra uma mudança da questão do silêncio da fé para os costumes: “A obra reflete assim, à sua maneira, uma ruptura entre religião e moral [...]. A religião cessa então de envolver as condutas públicas e privadas, de lhes dar um sentido ao ver romper a aliança institucional entre linguagemcristã anunciando a tradição de uma verdade revelada e as práticas proporcionadas a uma ordem do mundo”. Dinouart relaciona o silêncio não ao “diálogo interior” com Deus, mas a uma teoria dos temperamentos e das paixões. Entre as dez espécies de silêncio, Dinouart elege a prudência como a privilegiada em oposição aos silêncios artificiais; entre eles, o silêncio da política, do humor, do capricho e da estupidez. Há ainda o silêncio complacente, debochado, o silêncio espiritual e o seu contrário, o silêncio de aprovação, o silêncio de desprezo e o de humor. Contra a febre de escrever e falar ele propõe o tempo do silêncio para criar o tempo da reflexão: “É no tempo do silêncio e do estudo que é preciso se preparar para escrever [...]. Por que se precipitar, levado pela paixão de ser autor? Espere. Você saberá escrever quando souber calar-se e bem pensar... O primeiro grau da sabedoria consiste em saber calar-se; o segundo consiste em saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro consiste em saber falar muito sem falar mal e sem muito falar”. Como o mundo estava em mutação, Dinouart tende muitas vezes a uma posição conservadora semelhante ao que acontece hoje diante das novas tecnologias. O que ele aponta como um vício e um perigo? Autores que escrevem mal porque escrevem muito “sem respeitar a religião e o Príncipe com excesso de livros e com os excessos dos livros” – enfim, o que justamente permitiu uma das grandes virtudes políticas do século: a liberdade da escrita e da fala, a literatura libertina, a proliferação de obras, muitas delas “anônimas” ou simplesmente copiadas e sem “direito de autor”. É um pouco o que vemos hoje.
*   *   *
Apesar dos riscos, ou graças a eles, a fala é a grande linha que distingue o homem das formas dos seres animados e do silêncio das plantas. Da Teogonia de Hesíodo, passando por Aristóteles, até chegar à fenomenologia, o homem é definido como um ser da palavra “que colhe ecos onde antes havia silêncio”. O homem fala seu gesto, e o som da fala é destinado a “designar indiretamente o que o gesto ou a ação designa naturalmente”, como define Alain. O primeiro gesto da fala foi, portanto, um gesto de liberdade: no primeiro momento da fala, o “homem libertou-se do grande silêncio da matéria. Ou, para usar a imagem de Ibsen, ao ser golpeado com o martelo, o insensível minério começou a cantar” (Steiner). Ela é signo contra o esquecimento. Mas o excesso da fala hoje nos convida a pensar seu contrário – o silêncio– como uma forma de sobrevivência da experiência. Davi Ianomâmi, xamã e cultor da civilização da fala, nos ensina: “Os brancos desenham as palavras porque seu pensamento é cheio de esquecimento”.


Adauto Novaes
foi jornalista e professor. Estudou filosofia na França. Foi diretor, durante 20 anos, do Centro de Estudos e Pesquisas da Fundação Nacional de Arte/Ministério da Cultura. Organizou diversos ciclos de conferências, sendo o último deles "Mutações – a experiência do pensamento" (mais informações em www.cultura.gov.br/pensamento).


Ilustração: Tulipa Ruiz