Contribuição: Max Gleiser
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sábado, 4 de outubro de 2014
Can We Auto-Correct Humanity ?
Contribuição: Max Gleiser
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
União Europeia autoriza compra do WhatsApp pelo Facebook
Operação envolve valor de US$ 19 bilhões.
Facebook Messenger e WhatsApp não são concorrentes próximos, disse.
Da France Presse
(Foto: AP)
A Comissão Europeia anunciou nesta sexta-feira (3) que autoriza a compra do WhatsApp, aplicativo de mensagens para smartphones, pelo Facebook, em uma operação de US$ 19 bilhões.
A Comissão constatou, segundo um comunicado, que "Facebook Messenger e WhatsApp não são concorrentes próximos" e, portanto, "os consumidores continuarão tendo acesso, depois da operação, a uma ampla série de aplicativos" como Line, Viber, iMessage, Telegram, WeChat ey Google Hangouts.
O anúncio da compra havia sido feito em fevereiro. Essa é a maior aquisição já feita pelo Facebook, que pagou pouco mais de US$ 1 bilhão pelo Instagram em 2012. No fim de 2013, o aplicativo de fotos começou a exibir anúncios para levantar receitas.
Usado por 450 milhões de pessoas por mês, o WhatsApp tem alto poder de engajamento: 70% que têm o aplicativo instalado em seus celulares o manuseiam diariamente. Por dia, o app registra 1 milhão de novos usuários.
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“WhatsApp está no caminho para conectar um bilhão de pessoas. Serviços que atingem a casa do milhar são incrivelmente valiosos”, escreveu em comunicado o presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg.
“O engajamento extremamente elevado do usuário do WhatsApp e rápido crescimento são impulsionados pelos recursos de mensagens simples, poderosos e instantâneos que prestamos. Nós estamos entusiasmados e honrados de nos tornarmos parceiros de Mark e do Facebook para continuarmos a trazer nossos produtos a mais pessoas ao redor do mundo”, afirmou Jan Koum, CEO do WhatsApp.
Fuga de jovens
O WhatsApp está no centro da discussão sobre a fuga de jovens do Facebook. O aplicativo de mensagens instantâneas, ao lado do Snapchat, Line e WeChat, é tratado como um dos escoadouros de adolescentes da rede social.
O WhatsApp está no centro da discussão sobre a fuga de jovens do Facebook. O aplicativo de mensagens instantâneas, ao lado do Snapchat, Line e WeChat, é tratado como um dos escoadouros de adolescentes da rede social.
Para tentar conter a falta de interesse e levar para seus domínios um desses aplicativos sensação, a rede social tentou comprar o Snapchat por US$ 3 bilhões, mas teve sua proposta recusada.
Segundo o Facebook, o volume de mensagens trocadas pelo aplicativo se aproxima do total de mensagens de texto enviadas em todo o mundo. Do volume oferecido pelo aplicativo, US$ 4 bilhões serão pagos em dinheiro e US$ 12 bilhões, em ações do Facebook.
O valor de mercado do Facebook é de US$ 172,8 bilhões depois do fechamento do mercado nesta quarta-feira (19). Os papéis da rede social fecharam em alta de 1,13%, vencidas a US$ 68,06. Para se ter ideia do avanço das ações do site, na abertura de capital em 2012, quando foram vendidas a US$ 38. Com isso, a rede social já tem valor de mercado maior do que companhias de tecnologia mais consolidadas, como a Amazon (US$ 159 bilhões) e a Oracle (US$ 170 bilhões).
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quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Comcast e Time Warner Cable convocam acionistas para aprovar fusão
| A Comcast e a Timer Warner Cable (TWC) ainda passam por dificuldades na aprovação da fusão, um negócio que de US$ 45,2 bilhões que formaria uma mega operadora de 30 milhões de assinantes nos Estados Unidos. Anunciada em fevereiro, a transação ainda não foi autorizada pelos reguladores norte-americanos, como a Federal Communications Commission (FCC), que a deixou em consulta pública até o final de agosto. O negócio ainda enfrenta forte oposição de players como Netflix e Dish, que enviaram petições à FCC alegando que a empresa resultante da união teria monopólio. Sob esta forte pressão, a Comcast e a TWC emitiram nesta quinta-feira, 4, na comissão de valores dos EUA, a SEC, uma convocatória para que acionistas aprovem o acordo de fusão e a consequente emissão de ações. Essa assembleia deverá acontecer no próximo dia 8 de outubro na Pensilvânia e em Nova York, onde ficam as respectivas sedes das empresas. No acordo, a TWC será completamente incorporada à Comcast, e os acionistas da primeira receberão em troca 2.875 ações comuns de classe A da futura controladora. Dessa forma, os acionistas da Time Warner Cable deterão aproximadamente 24% das ações preferenciais da Comcast. “Não podemos completar essa fusão a menos que os acionistas da TWC adotem o acordo de fusão e que os acionistas da Comcast aprovem a emissão de ações”, ressalta o documento. As empresas recomendam não apenas o voto a favor da transação, mas também a proposta de aprovação do programa de prêmio de compensação (golden parachutes) para os diretores da TWC, que não é condicional para a fusão - mas que poderá ocorrer mesmo contra a vontade dos acionistas no caso de a operação ser aprovada. Para não sofrer sanções da FCC, as duas companhias combinadas deverão abrir mão de algumas praças, o que resultaria em um total de 3,9 milhões de desconexões líquidas, sendo três milhões somente da Comcast. Após o início da consulta pública da FCC em 10 de julho, a entidade contou com 180 dias para revisar e analisar a fusão, o que significa que deverá ter até o dia 8 de outubro a sua conclusão. Já o processo de aprovação do Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA não passa por consulta pública, mas as empresas prometem manter contato regular com os agentes do DOJ para finalizar a questão. Caso a fusão aconteça ou não, haverá uma assembleia anual de acionistas da Comcast em 2015. Já na TWC, só haverá tal reunião se a transação não se concretizar até a data. As companhias continuam esperando finalizar o negócio no começo de 2015, embora reconheçam que não podem dar garantias de “quando, ou se, a fusão será completada”. De qualquer forma, o negócio tem prazo para aprovação: até o dia 12 de fevereiro de 2015, ou caso as condições regulatórias exigidas não possam ser atendidas até o dia 12 de agosto do mesmo ano. Se não acontecer, o acordo será descartado e a Comcast e a TWC permanecem como empresas independentes. Neutralidade Durante a semana, a Comcast já havia lançado um site não apenas para propagar a ideia de que a fusão pode ser benéfica para os usuários dos Estados Unidos, mas também de que as empresas seriam a favor da neutralidade de rede. A página reúne notícias (a última, de 15 de julho) referentes ao assunto, em particular press releases da própria operadora. Em comunicado na SEC na terça-feira, a operadora afirmou que acredita que a neutralidade “é fundamental para uma Internet próspera e crescente” e que o comprometimento significa acesso a conteúdo “a despeito da fonte, sem favorecer ou bloquear conteúdos ou serviços específicos”. A Comcast ressalta que continuará a seguir as regras da neutralidade de rede previstas pela FCC em 2010. Vale lembrar que ela foi a primeira a ter um acordo amplamente divulgado com a Netflix para aumento na troca de tráfego nos EUA, o que desencadeou uma guerra pública entre as duas empresas e que está sendo observada pela própria Comissão. |
terça-feira, 5 de agosto de 2014
A hegemonia das corporações de mídia no capitalismo global
Dênis de Moraes, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Junho de 2000
Não faz muito tempo, Dick Parsons, presidente da Time Warner, declarou: “Quando o poder está oscilando entre diferentes partes da cadeia de valor, você precisa deter toda a cadeia.” (1) Parsons conseguiu resumir, sem meias palavras, o cenário contemporâneo, dominado por corporações capazes de operar, ao mesmo tempo, em vários ramos correlatos ou cruzados da indústria global da comunicação. Este é o tempo de somatórios de forças conjugadas, das hegemonias que se projetam a partir de movimentos sinuosos de gigantescas estruturas transnacionais. O Brasil insere-se em tais cadeias produtivas e distributivas, na condição coadjuvante de maior mercado consumidor da América Latina. Reproduz-se entre nós o modelo de expansão dos negócios de mídia e entretenimento observado em diversos países. O eixo condutor são os capitais externos, movidos pelo apetite voraz por rentabilidade e cada vez mais concentrados nas mãos de um número restrito de complexos empresariais, quase todos sediados nos Estados Unidos da América. Modelo, nunca é demais lembrar, consolidado a partir das “flexibilizações” e “desregulamentações” neoliberais engendradas pelo trio Ronald Reagan-Margareth Thatcher-Helmut Kohl e por seus discípulos espalhados pelo globo.
Com efeito, a formação de oligopólios constitui o eixo preponderante do atual modelo organizacional das corporações de mídia. As empresas com especializações únicas definham. Elas correspondiam a um outro espaço-tempo, em que as tecnologias não encurtavam mapas, calendários e fusos horários; os fluxos de informações eram infinitamente menos convulsivos; e não vigorava o mandamento competitivo de gerar demandas em mercados de abrangência ilimitada. O equilíbrio de forças alterou-se por completo. Os conglomerados multimídias foram concebidos para exercer hegemonia em todas as pontas da revolução digital. Uma revolução que se viabiliza em ritmo acelerado a partir de uma linguagem digital única, habilitada a integrar processos, redes, plataformas e sistemas, multiplicando a capacidade de transmissão de conteúdos. A digitalização forja a base material para a irreversível hibridação das infra-estruturas indispensáveis à geração e à transmissão de dados, sons e imagens, em proporções incalculáveis.
Podemos unir os prefixos dos três setores convergentes (informática, telecomunicação e comunicação) em uma só palavra, que designa a conjunção de poderes estratégicos relacionados ao macrocampo multimídia: infotelecomunicações. Ela comporta as reciprocidades e interdependências entre os suportes, bem como as ações coordenadas para a concorrência sem fronteiras. O paradigma infotelecomunicacional constitui vetor decisivo para a expansão dos impérios mediáticos, tendo por escopo a comercialização, sem limites geográficos, de uma diversidade de produtos e serviços com tecnologias avançadas. Os conglomerados reconfiguram-se como arquipélagos transcontinentais, cujos parâmetros são a produtividade, a competitividade, a lucratividade e a racionalidade gerencial. Para tanto, conferem escala a seus produtos, por intermédio de alianças e parcerias entre si e com grupos regionais; absorvem firmas menores ou concorrentes, diversificam investimentos em áreas conexas. O cenário não poderia ser outro: uma aglomeração de patrimônios e ativos sem precedentes.
A oligopolização daí resultante insere-se no painel de forte concentração de comandos estratégicos e de mundialização de conteúdos, mercadorias e serviços, facilitada pelas desregulamentações neoliberais, pela supressão de barreiras fiscais, pela acumulação de capital nos países industrializados, pela deslocalização das bases de produção e por redes tecnológicas de múltiplos usos. No âmago da chamada “flexibilização dos investimentos empresariais” — eufemismo para o processo de concentração multinacionalizada de bens e serviços —, a realização de lucros implica maior acumulação de capital ao menor custo possível. O que pressupõe: a) amplos contingentes de consumidores; b) concorrência intensa entre um número cada vez menor de megagrupos, graças a fusões e incorporações; c) centralização das decisões fundamentais e dos planos de inovação nas matrizes dos grupos transnacionais, que também supervisionam as operações no exterior.
Os blocos interempresariais buscam competir em posição de força. Os acordos mesclam estoques de munição financeira e know-how tecnológico que nenhuma firma, isoladamente, teria condições de mobilizar e garantir. A opção por joint ventures traduz o propósito de diluir os aportes financeiros entre os participantes, reduzindo as margens de risco. Trata-se da aplicação de capitais em investimentos industriais de longo alcance geográfico, com expectativa de polpudos retornos em função da economia de escala. As companhias evoluem de uma mercadoria a outra com tamanha rapidez que quase não sobram condições reais de competitividade para firmas de médio porte. (2) As que não se vinculam a conglomerados ou não descobrem nichos rentáveis estão condenadas a desaparecer. Estudo da consultoria norte-americana McKinsey sobre fusões e alianças conclui que a competição mundial nos próximos anos tende a envolver apenas cinco grandes empresas por setor. (3) Raj Sisodia, professor de marketing da George Mason University, é taxativo: ‘‘Numa economia madura, três companhias gigantes, invariavelmente, acabam com 70% do mercado.’’ Cita exemplos: McDonald’s, Burger King e Wendy dominam o fast-food; Nike, Adidas e Reebok são as maiorais dos tênis. (4) Em janeiro de 2000, com a fusão da Warner Music e da EMI, no bojo da incorporação da segunda empresa pelo megagrupo AOL-Time Warner, o mercado fonográfico global passou a contar com apenas quatro players: Warner-EMI, Universal (antiga Polygram, comprada em 1998 pelo conglomerado canadense Seagram), Sony e BMG Ariola (pertencente à alemã Bertelsmann).
Na avaliação abalizada do professor e pesquisador norte-americano Robert W. McChesney, da Universidade de Wiscosin, o mercado global de mídia gira em torno de cinco a oito conglomerados, “com uma ou duas dúzias de empresas consideravelmente grandes ocupando os segmentos regionais e tendo acordos operacionais com um ou mais gigantes”. (5) A previsão é idêntica à feita em 1989 pelo então presidente da Time Inc., Nick Nicolas, quando da fusão com a Warner Communications: em 2000, de seis a oito companhias controlariam a comunicação no planeta. A tendência à concentração deve acentuar-se, no rastro de transações de largo impacto, como a aquisição da rede de TV norte-americana CBS pela Viacom Inc., em setembro de 1999.
As dez primeiras no ranking de mídia e entretenimento figuram entre as 500 maiores companhias do mundo. São elas: AOL-Time Warner, Disney, Viacom, Bertelsmann, News Corporation, Seagram (proprietária da Polygram e da Universal), Sony, TCI, Thomson e NBC. Apenas quatro não estão sediadas nos EUA: a alemã Bertelsmann, as canadenses Seagram e Thomson e a japonesa Sony. Juntas, arrecadaram cerca de US$ 200 bilhões em 1999. (6)
Para se avaliar a disparidade de poderio entre as dez majors e eventuais aspirantes a uma posição no grid de largada, mencionemos o caso das Organizações Globo, cuja proeminência no Brasil e na América Latina dispensa dúvidas. Seu desempenho é modesto se comparado aos dos titãs norte-americanos. Somando-se as receitas das cerca de 100 empresas da família Marinho — inclusive as de hotelaria, agropecuária, mineração, telecomunicações, construção civil, imobiliário e financeiro —, a receita bruta em 1999 aproximou-se de US$ 6 bilhões. (7) Esta cifra equivale a 40% do faturamento da Viacom, quinta colocada no ranking.
As pretensões de auto-suficiência desfazem-se diante da exigência de vultosos recursos para sustentar a capacitação tecnológica, a diversificação produtiva, a pesquisa sistemática, a acirrada concorrência em mercados internacionalizados e o marketing global. Estes itens requerem integração de circuitos e equipamentos, de métodos de gestão e de interconexões de sistemas operativos. Fusões e parcerias deixam entrever perspectivas para o intercâmbio e o acréscimo de competências gerenciais e especializações. A interpenetração de aparatos tecnológicos, com valor-de-uso complementar, introduz circunstâncias e fatores sinergéticos. Não é à toa que, de 1991 a 1998, as fusões em comunicação saltaram de 142 para 587 em todo o planeta, com o volume de capital movimentado disparando de US$ 7 bilhões para US$ 79 bilhões. (8) Os conglomerados formalizam estratégias de cooperação, explicitadas em alianças nacionais ou transnacionais. Acordos e sinergias visam mobilizar recursos técnicos e gerenciais capazes de assegurar condições competitivas de produção. As parcerias objetivam reduzir, repartir e distribuir custos e perdas, contornando fatores diversos e de risco e fomentando o desenvolvimento de itens de última geração. (9)
As alianças podem ser de curta ou longa duração ou duradoura, conforme o teor de seus objetivos e desdobramentos. O raio de incidência também varia. As alianças transnacionais realizam-se através de países, entre corporações complementares, suplementares e às vezes concorrentes, com vistas à plena utilização de infra-estruturas e ao aprimoramento dos processos de industrialização e comercialização. Já as alianças setoriais — que envolvem empresas de diferentes ramos mas com centro operacional em um mesmo país — permitem o aproveitamento de interfaces nas áreas de conhecimento e de produção, inclusive entre competidores. (10)
As combinações de ativos surgem para viabilizar interesses recíprocos ou conciliáveis, reduzindo o espaço de manobra dos concorrentes. Como esclarece Philippe Natag, diretor-executivo da consultoria Regent Associates: “O mercado de tempo real impele grandes empresas a um movimento para fora de si mesmas, atrás de integração societária. Por outro lado, esta integração não pode mais se circunscrever a blocos regionais; ela precisa se reforçar no plano internacional, se quiser ampliar seus serviços e penetrar fortemente em outros segmentos comerciais.” (11)
Os complexos industriais administram empreendimentos paralelos ou convergentes, ao mesmo tempo as sinergias evitam orçamentos sobrepostos e concatenam suas atividades. Os portfólios podem até variar, mas as corporações seguem variantes comuns para globalizar os bens culturais: confluência tecnológica e internacionalização de mercados. Os aportes de capital nessas superestruturas intercambiam-se com o contraditório movimento de deslocalização operacional, em face da exigência de extrair rentabilidade no maior número possível de bases consumidoras. Cabe aos pólos de enunciação e difusão harmonizar os elementos aparentemente desconexos no sistema cultural global. As unidades locais e regionais subordinam-se à lógica estratégica dos boards corporativos, com autonomia para articular as proposições mercadológicas a especificidades socioculturais. Como esclarece James Oates, presidente da Leo Burnett, uma das dez maiores agências de publicidade do mundo, sediada em Chicago, com 77 subsidiárias em 68 países: "Acredita-se que cada vez mais as estratégias ficarão centralizadas e será possível criar mais a partir de um só escritório, deixando a compra de mídia e ações como promoção para serem desenvolvidas localmente. Mas os escritórios regionais continuarão responsáveis pela linha básica das marcas." (12)
Assim, aprofunda-se a aglomeração de empresas de um mesmo grupo em torno de holdings que implementam diretrizes de atuação compartilhada em âmbito planetário. As holdings dispõem de suportes operacionais e capacidade instalada para gerenciar o desenvolvimento de produtos, marcas e serviços. Elas formulam e coordenam as estratégias das filiais; alinham e integram as variantes locais e regionais às diretivas mundiais; monitoram as operações de cada unidade em função dos objetivos totais de desempenho; criam uma cultura de administração corporativa comum entre as várias organizações espalhadas pelo exterior; identificam e transferem casos de sucesso e práticas criativas eficientes; e comandam as aquisições e fusões de agências, em suas jurisdições.
Os planejamentos corporativos obedecem a estratégias semelhantes: a) ofensividade máxima nas guerras industrial e mercadológica; b) centralização decisória e tecnoprodutiva, conglomeração setorial e desterritorialização das unidades de consumo; c) ênfase de negócios na Europa, na Ásia e na América Latina; d) investimentos maciços em tecnologias digitais que estimulem a convergência em infotelecomunicações, notadamente na Internet (comércio eletrônico, publicidade e serviços on line); e) acordos e joint ventures de largo espectro, inclusive com grupos regionais, visando à otimização comercial de programações, bens e serviços.
Tal modelo de concentração multinacionalizada impõe-se como paradigma, alinhando a indústria da comunicação aos setores mais dinâmicos do capitalismo global, sob efetiva hegemonia dos EUA como pólo de produção e distribuição de conteúdos. As disparidades tecnológicas e os frágeis mecanismos de regulação dos fluxos internacionais de dados e imagens favorecem as corporações norte-americanas. Basta ver os significativos resultados obtidos pela Disney e pela Time Warner em suas cruzadas pelos hemisférios, para compensar a saturação do mercado norte-americano. Entre 1992 e 1997, a Disney cresceu 27,5% em outros países e apenas 14,5% nos Estados Unidos. O mesmo ocorreu com a Time Warner, cuja receita aumentou 31,4% no exterior e somente 12,6% em seu país de origem. (13)
Os mastodontes da difusão movem-se pela Terra a partir de um modelo de gestão que se vai afirmando como paradigma universal, e cuja voracidade por ganhos de capital não conhece qualquer limite. A palavra de ordem é otimizar as performances do sistema produtivo, sobretudo a partir da convergência tecnológica e de reengenharias operacionais, para maximizar vantagens e lucros. Com alianças e fusões, a concorrência praticamente restringe-se ao clube de players, dotados de fortes reservas de capital, de know-how tecnológico e de capacidade de articular consórcios transoceânicos. Essas inversões afastam ainda mais empresas de menor porte das arenas competitivas e sedimentam uma industrialização em torno de complexos empresariais. Não serão outros os pressupostos estratégicos que inspiraram a megafusão da AOL com a Time Warner, no começo de 1999, numa transação de US$ 184 bilhões. A nova corporação tornou-se líder em informação e entretenimento e a quarta mais valorizada do mundo, atrás apenas da Cisco, da General Electric e da Microsoft. As 220 subsidiárias da AOL-Time Warner nos quatro quadrantes faturaram, juntas, US$ 32 bilhões em 1999. (14)
Ressaltemos que o predomínio exacerbado dos oligopólios de mídia e entretenimento foi estimulado tanto pelas desregulamentações como pela deliberada omissão dos poderes públicos em seu papel regulador e fiscalizador. A conglomeração deita raízes na América Latina e no Brasil, onde a ação das corporações transnacionais se intensifica, de olho no potencial mercadológico de uma região com 480 milhões de consumidores. As corporações consolidam suas influências no solo latino-americano, explorando o vácuo aberto pelas desregulamentações e por deficiências crônicas observadas na maioria dos países do continente: inexistência de políticas públicas de comunicação; controles ineficazes sobre os fluxos de programações vindos do exterior; fragilidade dos sistemas fiscais e alfandegários diante do trânsito de conteúdos por satélites e redes eletrônicas; aberrantes desequilíbrios nas balanças comerciais com os EUA, sobretudo em relação ao audiovisual. Metade da receita da indústria cinematográfica norte-americana provém do exterior, o que representa salto expressivo, pois, em 1980, as praças internacionais contribuíam com 30%. (15)
Por tudo que vimos, concluímos que a mundialização das informações e do entretenimento desenrola-se sob o signo da aguda concentração de suportes, mercadorias e serviços — apesar de os arautos da globalização insistirem nos benefícios das abundantes safras culturais. A supremacia dos grupos transnacionais acentua uma brutal retenção de poderes econômicos e estratégicos. Só os grandes players dispõem de meios de pressão para orientar as regulamentações a seu favor, como também os capitais necessários para suportar o custo de fusões e aquisições ou os investimentos em novas infra-estruturas tecnológicas, como a Internet, em franco crescimento. (16) Ao mesmo tempo, é flagrante a desigualdade entre países industrializados, emergentes e subdesenvolvidos nas cadeias de produção, circulação e consumo de bens simbólicos. Enquanto as nossas salas de cinema estão abarrotadas de títulos exportados em série pelos estúdios de Hollywood, os filmes brasileiros representam inacreditáveis 5% do mercado cinematográfico nacional (o percentual era de 35% na década de 1970). Quadro semelhante reproduz-se na América Latina: 85% dos filmes que chegam às telas originam-se dos EUA. Enquanto as dez principais redes norte-americanas ultimam os serviços de televisão de alta definição digital, em 37 dos 53 países da África há somente uma emissora estatal em funcionamento, e em outros três sequer existe produção televisiva.(17) À medida que essa configuração se cristaliza, reduz-se o campo de manobra para um desenvolvimento equilibrado e estável dos sistemas, meios e redes de comunicação, e agravam-se descompassos estruturais, no contexto de desnacionalização de áreas estratégicas.
Diante deste quadro adverso, devemos insistir no estabelecimento de políticas públicas de comunicação, assentadas em mecanismos democraticamente instituídos de regulação, de regulamentação e de fiscalização. O senso de realidade recomenda levar em conta o ritmo acelerado da convergência multimídia e a irreversível internacionalização dos setores associados. Mas, acima de tudo, as políticas públicas precisarão refletir as exigências legítimas de supremacia da vontade coletiva sobre interesses privados — o que pressupõe regrar contrapartidas e salvaguardas das soberanias nacionais. O êxito de tais iniciativas dependerá de um longo processo de conquistas cumulativas de espaços permanentes no interior das esferas públicas, tanto na sociedade civil como no próprio Estado. A despeito das enormes dificuldades presentes e futuras para se inverter gradualmente a atual correlação de forças, penso que este é o caminho possível para se tentar redesenhar o estratégico campo comunicacional numa perspectiva pluralista e não-oligopolística.
NOTAS
2. Ver Lester Thurrow. O futuro do capitalismo: como as forças econômicas moldam o mundo de amanhã. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 102.
3. Eliana Simonetti, “Gigantes na pista”, Veja, 13 de maio de 1998.
4. Raj Sisodia, citado por Daniela Mendes, “Fusões bilionárias agitam o mundo”, Correio Braziliense, 24 de maio de 1998.
5. Robert W. McChesney, “The global struggle for democratic communication”, Monthly Review, 1996. Ver, do mesmo autor, The global media: the new missionaires of the corporate capitalism. Washington/Londres: Cassell, 1997, sobretudo o capítulo 3.
6. Advertising Age Digital, 21 de janeiro de 2000.
7. Heloísa Magalhães, “Globo completa processo de profissionalização”, Gazeta Mercantil, 16 de novembro de 1998.
8. Gonçalo Júnior, “Globo defende abertura de capital”, Gazeta Mercantil, 18, 19 e 20 de junho de 1999.
9. Ver René Armand Dreifuss. A época das perplexidades: mundialização, globalização e planetarização — novos desafios. Petrópolis: Vozes, 1996, p. 94-95.
10. Ibidem, p. 118-119.
11. Philippe Nataf, citado em Media Report, EBN/GNT, 11 de fevereiro de 1998.
12. James Oates, citado por Cláudia Penteado, “Leo Burnett reafirma independência”, Meio e Mensagem, 27 de junho de 1998.
13. Lúcia Faria, “Marluce prevê investimento estrangeiro no mercado brasileiro de comunicação”, Meio e Mensagem, 16 de junho de 1999.
14. Ricardo Galuppo, “O mouse que ruge”, Veja, 19 de janeiro de 2000.
15. Consultar Dênis de Moraes. O Planeta Mídia: tendências da comunicação na era global. Campo Grande: Letra Livre, 1998, p. 150.
16. Veja-se, por exemplo, a expansão dos negócios em Internet no Brasil, com a chegada da AOL, da Telefónica de España, da Starmedia e da PSI.
17. Ver Dênis de Moraes, ob. cit., p. 250.
Dênis de Moraes é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Imagem e Informação da Universidade Federal Fluminense e doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou, entre outros livros, O Planeta Mídia: tendências da comunicação na era global (1998) e Globalização, mídia e cultura contemporânea, org. (1997).
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Film streaming and downloads to overtake box office in 2017
The growing popularity of downloads and streaming services like Netflix means that Blu-ray and DVD sales are declining

A study by PricewaterhouseCoopers (PwC) has declared that the market for DVDs and Blu-ray is quickly declining, with the slack taken up by increasingly popular on-demand streaming services like Netflix – which will also overtake cinema box office revenues in the coming years.
The study says that revenue from electronic home video (ie streaming and downloading films) will outstrip physical media in 2016, and that the market for physical media will drop from $12.2bn now to $8.7bn in 2018. They also predict that in 2017 electronic home video will overtake the traditional cinema as the biggest contributor to total film revenue in the US, reaching a total of $17bn the following year – double the $8.5bn the sector currently generates.
That's not to say the multiplex is under threat – PwC predict a 16% increase in ticket sales over the next five years. "People still want to go to the movies, especially the big tentpole films," said Cindy McKenzie, managing director of PwC's entertainment, media and communications arm. She also pointed to the cheap and easy distribution allowed by digital media as being a major cost saving: "The amount of money that you're making per transaction may not be the same, but it is cheaper to distribute things digitally."
Netflix, Amazon Instant Video and the popular US streaming service Hulu are funnelling their growth into ambitious production projects: all have quickly made the jump from mere middlemen to creators of original content, with hits like House of Cards and Arrested Development. Netflix's revenue rose an astonishing 24% in the first quarter of 2014.
In the music market, streaming is eating into downloads to the point where Spotify's streaming revenue is beginning to outpace iTunes' download revenue in certain parts of Europe – perhaps a catalyst for Apple's recent purchase of streaming service Beats Music. But downloads of films are still growing (albeit at a much lower pace than streaming) and topped $1bn in revenue for the first time last year, driven in part by high-quality downloads becoming available before physical and streamed versions.
PwC also announced that ebooks would overtake printed books as the UK's most popular reading format by 2018, with revenue to triple to nearly £1bn over the next four years.
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terça-feira, 3 de junho de 2014
Regulação da mídia não é censura
Desinformar é a estratégia de boa parte da mídia quando se trata de discutir seu próprio funcionamento. Ao falar de regulação, vigora discurso propositadamente parcial e distorcido
por Intervozes — publicado 03/06/2014 21:44, última modificação 04/06/2014 14:18
Wilson Dias/Agência Brasil
Por Pedro Ekman e Bia Barbosa*
Recentemente, a presidenta Dilma Rousseff, pré-candidata à reeleição pelo PT, declarou que, se eleita, enfrentará o debate acerca da regulação dos meios de comunicação. A afirmação causou furor na mídia comercial, que não perde oportunidades para alimentar a versão de que há um plano da esquerda para controlar a mídia e impedir críticas ao governo. O candidato da oposição, Aécio Neves (PSDB), também se apressou a reafirmar “o PT quer censurar a imprensa”.
Neste momento, quanto mais confuso for o debate sobre o tema, menos resultados ele produzirá. Assim, alguns veículos empenham-se em embaralhar as informações de forma sofisticada; outros omitem do público informações relevantes sobre o tema; outros, ainda, divulgam o dito pelo não dito. O esforço é um só: manter inalterada a atual situação de concentração econômica e de ausência de diversidade e pluralidade na mídia brasileira.
Tendo em vista esta ostensiva operação para interditar um debate direto e transparente sobre a regulação da mídia (ação corrente que, essa sim, caracteriza prática de censura), vamos aos fatos, numa tentativa de desfazer o labirinto construído em torno do assunto.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a radiodifusão é, assim como a energia, o transporte e a saúde, um serviço público que, para ser prestado com base no interesse público, requer regras para o seu funcionamento. No caso das emissoras de rádio e TV, a existência dessas regras se mostra fundamental em função do impacto social que têm as ações dos meios de comunicação de massa, espaço central para a veiculação de informações, difusão de culturas, formação de valores e da opinião pública.
Lembram os teóricos que a necessidade ou não de regulação de qualquer setor e a intensidade e o formato dessa regulação estão condicionadas justamente ao poder potencial que tal setor tem para mudar as preferências da sociedade e dos governantes. Assim, quanto maior o poder de um determinado setor e o desequilíbrio democrático provocado, maiores a necessidade e a intensidade de regulação por parte do Estado.
Portanto, à medida que, ao longo da história, crescem a presença e influência dos meios de comunicação de massa sobre a sociedade, aumenta a necessidade de o Estado regular este poder. Não para definir o que as emissoras podem ou não podem dizer, mas para garantir condições mínimas de operação do serviço de forma a manter o interesse público – e não o lucro das empresas – em primeiro lugar.
Vale lembrar também que, além de um serviço público, a comunicação eletrônica representa um setor econômico dos mais importantes do país. Assim como outros, precisa do estabelecimento de regras econômicas para o seu funcionamento, de modo a coibir a formação de oligopólios ou de um monopólio num setor estratégico para qualquer nação.
Por fim, o simples estabelecimento de uma regulação da radiodifusão não pode ser tachado de cerceamento da liberdade de imprensa ou então de censura porque é isso o que diz e pede a própria Constituição brasileira de 1988, ao estabelecer princípios que devem ser respeitados pelos canais de rádio e TV.
No entanto, mais de vinte e cinco anos após sua promulgação, nenhum artigo de seu capítulo V, que trata da Comunicação Social, foi regulamentado, deixando um vazio regulatório no setor e permitindo a consolidação de situações que contrariam os princípios ali estabelecidos.
Os efeitos da não regulamentação constitucional são evidentes:
- O artigo 220, por exemplo, define que não pode haver monopólio ou oligopólio na comunicação social eletrônica. Hoje, no entanto, uma única emissora controla cerca de 70% do mercado de TV aberta.
- O artigo 221 define que a produção regional e independente devem ser estimuladas. No entanto, 98% de toda produção de TV no país é feita no eixo Rio-São Paulo pelas próprias emissoras de radiodifusão, e não por produtoras independentes.
- Já o artigo 223 define que o sistema de comunicação no país deve respeitar a complementaridade entre os setores de comunicação pública, privada e estatal. No entanto, a imensa maioria do espectro de radiodifusão é ocupada por canais privados com fins lucrativos. Ao mesmo tempo, as 5.000 rádios comunitárias autorizadas no país são proibidas de operar com potência superior a 25 watts, enquanto uma única rádio comercial privada chega a operar em potências superiores a 400.000 watts. Uma conta simples revela o evidente desequilíbrio entre os setores.
- Por fim, o artigo 54 determina que deputados e senadores não podem ser donos de concessionárias de serviço público. No entanto, a família Sarney, os senadores Fernando Collor, Agripino Maia e Edson Lobão Filho, entre tantos outros parlamentares, controlam inúmeros canais em seus estados. Sem uma lei que regulamente tal artigo, ele – como os demais da Constituição – torna-se letra morta e o poder político segue promiscuamente ligado ao poder midiático.
Regular os meios de comunicação de massa neste sentido está longe, portanto, de estabelecer práticas de censura da mídia. Trata-se de uma exigência constitucional de definir regras concretas para o funcionamento destes veículos no sentido de atender aos objetivos definidos pela sociedade em sua carta maior.
Regular a radiodifusão não é coisa de comunista
Outro mantra entoado pelos oponentes da regulação da mídia é que esta seria uma tentativa de acabar com a liberdade de imprensa e transformar o Brasil num país comunista. Nada mais desinformado.
O Estados Unidos, por exemplo, país que está longe de ter aspirações comunistas, já estabeleceu, há algumas décadas, que donos de empresas que publicam jornais e revistas não podem controlar também canais de rádio e TV. Os americanos entendem que tamanha concentração de poder em termos de difusão de informação é prejudicial para a democracia liberal e a livre concorrência de mercado, que tanto defendem.
Assim, lá os donos do The New York Times não podem ser os mesmos donos de uma emissora de TV em Nova York, porque a regulação americana coloca limites à propriedade cruzada dos meios de comunicação e proíbe a formação de oligopólios. Da mesma forma, uma empresa não pode ultrapassar um percentual máximo de audiência na mesma localidade, porque seu impacto seria demasiado grande em termos de poder político. Estas são apenas duas das regras definidas pelo órgão regulador responsável pelo setor, entre tantas outras que os Estados Unidos, berço do liberalismo, decidiu adotar em relação à mídia.
Já por aqui, apesar de muitos atribuírem o êxito das Organizações Globo exclusivamente à sua competência em se posicionar no mercado, é preciso lembrar que parte do poder alcançado pelo maior grupo de rádio e televisão do Brasil também é resultado de uma ação histórica, ao longo das décadas, do que se pode chamar de abuso de poder de mercado. Abuso que se revela quando uma única emissora possui cerca de 40% da audiência da TV aberta e concentra mais de 70% do mercado publicitário – além de controlar canais de TV por assinatura, jornais, revistas, editoras, gravadoras e produtoras –, desenhando um cenário de evidente monopólio.
A necessária regulação de conteúdo
Um aspecto interessante da recente declaração da presidenta Dilma sobre a necessidade de regulação dos meios de comunicação de massa foi sua incisiva exceção manifestada à regulação de conteúdo. A posição da presidenta não é novidade; Dilma já disse inúmeras vezes que prefere o barulho das democracias ao silêncio das ditaduras. Porém, ao se permitir debater a regulação econômica da mídia e voltar a negar a regulação de conteúdo, Dilma contribui para a confusão que os grupos de comunicação tanto gostam de provocar sobre o tema.
É natural que a Dilma tente se esquivar das armadilhas da imprensa, no sentido de desmontar as versões de que se trata de um plano maquiavélico para controlar o que os meios podem ou não dizer. Sua declaração é uma vacina contra a velha estratégia da mídia de confundir a garantia da liberdade de expressão com a ausência absoluta de regulação – ou, ainda, de tratar como uma coisa só censura e regulação de conteúdo. Porém, tanto a estratégia de Dilma em retirar o assunto “conteúdo” da pauta quanto o esforço dos meios em classificar rasteiramente regulação de conteúdo como censura só confundem e desinformam a sociedade.
A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), que está muito longe de ser um organismo autoritário, entende que há muitos motivos para que a regulação de conteúdo exista nos meios de comunicação de massa:promover a diversidade cultural; garantir proteção dos cidadãos contra material que incite ao ódio, à discriminação e ao crime, econtra a propaganda enganosa; proteger crianças e adolescentes de conteúdos nocivos ao seu desenvolvimento; proteger a cultura nacional, entre outros.
O mesmo faz a Constituição brasileira. Ao definir, em seu artigo 221, que a produção regional e independente deve ser estimulada, com percentuais mínimos de veiculação na grade das emissoras, nossa lei maior está pedindo que se regule conteúdo, para que a programação que chega ao conjunto da sociedade pelo rádio e a TV não parta apenas do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Ao estabelecer que não mais de 25% da grade de programação de uma emissora sejam ocupados com propagandas e anúncios, o Código Brasileiro de Telecomunicações também está prevendo a regulação de conteúdo.
A classificação indicativa dos programas, que informa a faixa etária apropriada para determinado tipo de conteúdo e em que horário ele deve ser exibido, visando a proteção da infância, também é uma importante forma de regulação de conteúdo. Apesar a Abert, associação que representa os interesses das emissoras de rádio e TV, ter pedido no STF o fim da classificação indicativa, alegando desrespeito à liberdade de expressão, o próprio relator especial da ONU para Liberdade de Expressão, Frank La Rue, já emitiu parecer afirmando que estes são direitos complementares e não podem ser tratados como antagônicos. Ou seja, a proteção da infância não fere a liberdade da expressão e, neste caso, o conteúdo também precisa ser regulado.
O mesmo vale para a publicidade dirigida a meninos e meninas. Em países como a Suécia, de forte tradição democrática, a publicidade voltada para o público infantil já foi abolida há muito tempo por meio de mecanismos de regulação de conteúdo. Aqui, porém, novamente o argumento distorcido da proteção absoluta à liberdade de expressão volta a ser usado contra a recente resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que definiu que é abusiva a publicidade voltada para crianças.
Portanto, dizer que não existe regulação de conteúdo no Brasil ou que ela não deva existir é um ato leviano, de má-fé – no mínimo, uma conduta muito mal informada.
Democratizar a democracia
A construção de um ambiente de comunicação mais justo e democrático é uma dívida antiga do país consigo mesmo. A própria democracia fica comprometida sem uma comunicação por meio da qual todos e todas possam falar e ser ouvidos, em que a diversidade e a pluralidade de ideias existentes no país circulem de forma equilibrada nos meios de comunicação de massa.
Se de fato a presidenta Dilma incluir em seu programa de governo e, sendo reeleita, colocar em prática uma política de regulação da radiodifusão, daremos um passo importante no avanço da democracia brasileira. Mas não é a primeira vez que esta possibilidade é ventilada. Em outros momentos, o PT chegou a pautar o debate da regulação da mídia em seus programas de governo, e já se vão 12 anos sem que a questão seja concretamente enfrentada.
É por isso que, cansada de esperar, a sociedade civil tomou o problema nas mãos e está colhendo assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular, que tem como objetivo estabelecer um novo marco regulatório para as comunicações eletrônicas no país. O que se espera é que o debate sobre o tema possa ser, desta forma, desinterditado junto à população em geral, para acabar com a confusão proposital de que qualquer regulação da mídia é sinônimo de censura. Pelo contrário, a regulação é necessária para democratizar a alta concentração de poder instalada nos meios de comunicação de massa, garantindo diversidade, pluralidade e um efetivo exercício da liberdade de expressão do conjunto da população brasileira.
Espera-se agora que a presidenta Dilma compreenda o tema em sua complexidade e abrangência, para que não continue jogando água no moinho daqueles que trabalham com a desinformação e distorção dos fatos para garantir que tudo continue como está.
*Pedro Ekman e Bia Barbosa são membros da Coordenação Executiva do Intervozes.
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