sexta-feira, 18 de março de 2016

A mídia empresarial e a corrosão dos valores democráticos



O Brasil prova a frase de Joseph Pulitzer: 'Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma'


Gaudêncio Frigotto*
Latuff
Um dos temas mais cruciais hoje para a vida democrática no Brasil é a necessidade inadiável de assumir o debate sobre as corporações empresariais que detém o monopólio da informação. Não por acaso, um tema que, de imediato, essas próprias corporações esgrimam em suas redes de TV, rádio e seus jornais, no esforço de convencer mentes e corações que a censura voltou  e  se está cometendo o maior atentado contra a democracia. Democracia por elas entendida como defesa do mundo privado.
 
O filme documentário de Camilo Galli Tavares – O dia que durou 21 anos,mostra o quanto foi decisiva a grande mídia no golpe civil e militar de 1964. O que se revela no documentárioé que estamídia agiu nos bastidores com políticos brasileiros e dos Estados Unidos e, diretamente, com as pautas diárias induzindo a opinião da classe média e das grandes massas, a respeito da suposta ameaça comunista, que estaria às nossas portas]
 
Mas valeria, também, analisar os tempos que precederam a morte de Getúlio Vargas.  Esse retrospecto pode nos ajudar a ver com meridiana clareza que esta mesma mídia está implicada diuturnamente em fomentar asmassas para manter privilégios de grupos e, no momento, legitimar o golpe institucional que está em processo e que representará um retrocesso pior, porque mais profundo, do que o golpe de 1964.
 
As consequências sociais e políticas podem ser dramáticas, pois as três décadas de frágil ordem democrática permitiram formar sindicatos, organizações científicas, culturais e movimentos sociais e populares que não existiam em 1964 e que certamente não se calarão. Osefeitos podem não ser no dia seguinte ao golpe se consumado, mas logo quando  grandes massas se perceberem da manipulação a que foram submetidas por uma minoria rica, cínica e prepotente representada em todas as esferas institucionais do país.

Pela Constituição brasileira, os meios de comunicação são concessão do Estado e deveriam atender aos interesses universais e não privados. Portanto, interesses democráticos. Mas a imprensa empresarial privada e monopolizada é, por definição, anti democrática. Vale dizer, atende aos interesses  de grupos e não aos interesses da  sociedade no seu conjunto.  O argumento de que o controle social da mídia é censura dissimula o caráter de censura da grande mídia empresarial ao pensamento divergente, fermento da ordem democrática.
 
Os estudosacadêmicos sobre o caráter parcial, direcionado, seletivo da grande mídia monopolizada são abundantes. No plano internacional, as análises de um dos maiores sociólogos do Século XX, o francês Pierre Bourdieu, e do linguista e cientista político Noam Chomsky, mostram o quão parcial e demolidora dos direitos à informação livre é a mídia monopolizada mundialmente.  
 
No Brasil poucas vozes de juristas, políticos e intelectuais  têm  se manifestado sobre o risco da manipulação midiática para a manutenção e aprofundamento da ordem democrática e, conseqüentemente,  para avanços  nas reformas estruturais historicamente postergadas e que nos constituem como uma  sociedade das mais desiguais do mundo.  Desigualdade que está na origem de todas as formas de violênciatão banalizadas pela mídia empresarial.
 
O que se está presenciando pela pauta dominante da grande mídia empresarial, sem dúvida o maior partido ideológico atual no Brasil, torna mais que atuais as afirmações feitas pelo jornalista húngaro Joseph Pulitzer. “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma (grifos meus).”
 
Na mesma direção, de candente atualidade, é o destaque que o Eric Hobsbawm dá  em seu livro Tempos Fraturados (Companhia das Letras, 2013)  ao que o escritor  alemão Karl Kraus observou sobre o papel da mídia no contexto da primeira  Guerra Mundial. Hobsbawm destaca que “a imprensa não só expressava a corrupção da época, mas era, ela própria, a grande corruptora, simplesmente pelo “confisco dos valores através da palavra”. E apoiado em Confúcio sublinha que quando não “se diz tudo o que deve ser dito e se quer dizer, o que precisa ser feito não será feito; se isso não é feito, a moral e a arte se deterioram; se a justiça se extravia, o povo esperará em impotente confusão”( p.162)
 
Por fim, em meados do século XX, na coletânea de textos de Pier Paolo Pasolini, publicada em 1990 pela editora  Brasiliense com o título  Jovens Infelizes , este autor de vasta obra, observando o papel da imprensa no pós Segunda Guerra Mundial assinalava que o fascismo arranhou a Itália, mas o monopólio da mídia arruinou. O magnata da mídia Berlusconi é a expressão políticamais candente da ruína a que foi submetida a Itália.
 
Há sim que denunciar e combater a corrupção, mas não seletivamente e sim sob todas as formas e todos os envolvidos. Corrupção por propinas a políticos, corrupção por evasão fiscal, corrupção da dívida pública, etc. Para aqueles que lutam pela efetiva democracia e o esforço de construir uma nação não é termos uma imprensa monopólio estatal ou empresarial, mas uma imprensa com controle social de forma institucionalizada para que, sobre todos  os temas  de interesse universal, não se diga  apenas meias verdades, pois isto é pior que a mentira.
 
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* Filósofo e doutor em Educação, História e Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de  São Paulo. Atualmente professor na Faculdade de  Educação e no Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro





Créditos da foto: Latuff

terça-feira, 1 de março de 2016

Quem são os políticos que lideram nas mídias sociais?




POR FÁBIO VASCONCELLOS
Aécio e Dilma




























Nunca os políticos tiveram tantas alternativas para falar diretamente com os eleitores, podendo dispensar, muitas vezes, a mediação dos tradicionais meios de comunicação. Num clique, eles podem ser vistos, avaliados, admirados e, muitas vezes, também odiados por milhões de usuários das redes. Apesar dos riscos inerentes da maior exposição, as mídias sociais ampliaram as possibilidades de contato dos políticos, permitindo que eles se posicionem diretamente para suas audiências sobre os temas polêmicos do dia a dia. Muitos ainda dão pouca atenção para esse canal de comunicação porque conseguem manter capital político, mesmo sem nunca ter entrado na internet. Mas um grupo vem se destacado pelo uso intenso dessas redes. São os líderes das mídias sociais, aqueles políticos com mais chances de influenciar e mobilizar correntes de opinião no ambiente da web.
Uma pesquisa recém concluída pela Vértice, uma empresa incubadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), mapeou, em fevereiro, os políticos com maior presença nas mídias sociais, aqueles que hoje podem ser considerados os mais hábeis em ocupar e mobilizar audiências. O estudo foi coordenado pelo professor Afonso de Albuquerque, da Pós-Graduação em Comunicação e Política, e contou com a participação dos pesquisadores Carolina de Paula, Marcelo Alves e Eleonora Magalhães.
Segundo o estudo, dez políticos são considerados líderes nas mídias sociais e, entre eles, estão Aécio Neves (PSDB), Romário Faria (PSB) e Eduardo Cunha (PMDB). Para identificar esse grupo, os pesquisadores analisaram as páginas do Facebook dos políticos com o maior número de curtidas, engajamento (comentários e compartilhamentos) e graus de entrada, ou seja, o quanto a página é seguida por outros políticos. Este foi o principial critério usado para produzir o ranking  porque o grau de entrada, segundo o estudo, representaria melhor a relevância de cada político no Facebook.
Líderes no Facebook
A pesquisa foi dividida em três fases. Na primeira, foram identificados os deputados federais com maior presença no FB. Os grafos indicam a existência de três grupos: um grupo formado por parlamentares governistas e também deputados de esquerda. Nesse grupo se destacam Jandira Fenghali (PCdoB/RJ), Maria do Rosário (PT/RS), Jean Wyllis (PSOL/RJ), Chico Alencar (PSOL/RJ) e Paulo Teixeira (PT/SP). Um segundo grupo é formado por parlamentares de oposição, entre eles, Carlos Sampaio (PSDB/SP), Mara Gabrili (PSDB/SP), Bruno Araújo (PSDB/PE), Ônix Lorenzoni (DEM/RS) e Antônio Imbassahy (PSDB/BA).
O terceiro grupo é estrutura entorno do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Para os pesquisadores, "Eduardo Cunha é, dentre todos os deputados, aquele que apresenta maior número de conexões, mas paradoxalmente isto não se traduz em uma rede sólida de apoio. Isto acontece por dois motivos: ele está bastante isolado dos dois grupos principais da Câmara (embora mais próximo do grupo oposicionista); seus seguidores são inexpressivos na rede, e portanto não potencializam sua liderança".
Líderes no Facebook
A segunda etapa da pesquisa concentrou o monitoramento entre os senadores. Nesse caso, o senador Aécio Neves se destaca e, no entorno dele, gravitam Aluysio Nunes (PSDB), Ronaldo Caiado (DEM), Álvaro Dias (PV) e Romário. A rede se estrutura em dois polos. Um mais de oposição ao governo e outro formado por senadores que apoiam o governo. Nesse grupo, se destacam Lindbergh Farias (PT/RJ) e Gleise Hoffman (PT/PR).
Líderes no Facebook
O estudo testou ainda o grau de influência dos políticos no Facebook (independentemente dos cargos). Nesse caso, a rede estrutura-se entorno de Dilma Rousseff e Aécio Neves. Para os pesquisadores, a forte participação de Aécio pode ser reflexo da visibilidade que ele teve durante a campanha presidencial de 2014, além também por ser um dos políticos com participação no debate sobre o possível impeachment da presidente. Essas características fazem Aécio Neves um dos principais líderes do Congresso Nacional. O interessante desses resultados é que o formato da rede (Dilma x Aécio) reproduz o mesmo cenário da disputa eleitoral 2014, um indicativo da polarização que muita gente pode facilmente perceber nos debates travados nas redes sociais.
Líderes no Facebook


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Abril muda Presidência, Direção Editorial e comando de Veja

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25.02.16



Walter Longo e Alecsandra Zapparoli, assumem, respectivamente, a Presidência e a Direção Editorial da Abril. André Petry é o novo diretor de Redação de Veja em substituição a Eurípedes Alcântara, que segue no Conselho Editorial

A Abril anunciou nesta 5ª.feira (25/2) a mais importante mudança em sua cúpula executiva e editorial desde a morte de Roberto Civita, há quase três anos. Giancarlo Civita deixa a Presidência para dedicar-se exclusivamente à Presidência da Abrilpar, holding da família, e será substituído a partir de 1º/3 pelo publicitário Walter Longo. Victor Civita Neto deixa a Direção Editorial do Grupo, mas continua na Presidência do Conselho Editorial da Abril; no lugar dele entra Alecsandra Zapparoli. Muda também a Diretoria de Redação de Veja, que ficará sob o comando de André Petry – Eurípedes Alcântara, depois de quase 35 anos na revista, 12 dos quais como diretor de Redação, continuará no Conselho Editorial da Abril

Walter Longo terá sob sua responsabilidade as operações de Mídia, Gráfica e Distribuição. Publicitário e administrador de empresas com MBA na Universidade da Califórnia, ele vinha atuando como mentor de estratégia e inovação do Grupo Newcomm – holding de comunicação do Grupo WPP, que inclui as agências Young&Rubicam, Wunderman, Grey Brasil, VML, entre outras. Antes foi diretor regional para a América Latina do Grupo Young&Rubicam e presidente, no Brasil, de Grey Advertising, Wunderman Worldwide, TVA e do Grupo Newcomm Bates.

Alexandre Caldini, que assumiu a Presidência da Editora Abril em julho de 2014, passará a se reportar a Longo, assim como Cláudio Prado, desde novembro na Presidência executiva da DGB, holding de distribuição e logística do Grupo Abri, e Eduardo Costa, diretor da Abril Gráfica.

Alecsandra Zapparoli vinha atuando como diretora editorial de Estilo de Vida, que engloba marcas como Quatro Rodas, Superinteressante, Guia do Estudante, Viagem e Turismo, Saúde e Vip, entre outras. Antes, foi diretora de Redação de Veja São Paulo, onde começou como repórter, e teve passagens por DCI, Estadão e Editora Globo, entre outras. A partir de agora, além de ter uma linha direta com o Conselho Editorial, passa a integrá-lo, ao lado de Victor Civita Neto (presidente), Thomaz Souto Corrêa (vice), Eurípedes Alcântara, Giancarlo Civita e José Roberto Guzzo. Responderá a Walter Longo e terá sob o seu comando André Petry (Veja), André Lahoz (Exame), Paula Mageste (Femininas), Edward Pimenta (Estúdio ABC) e Sergio Gwercman (que deixa Quatro Rodas para assumir o lugar de Alecsandra em Estilo de Vida).

André Petry tem mais de 20 anos de atuação na própria Veja, onde foi editor de Política, chefe da sucursal de Brasília, colunista e correspondente internacional em Nova York, e ultimamente ocupava o cargo de editor especial.

Vale lembrar que dezembro passado a Abril anunciou um aporte de capital da família Civita e fechou um acordo para reperfilamento de sua dívida de curto e médio prazos, operação que, segundo o comunicado da empresa, “permitiu uma redução efetiva do endividamento e equilíbrio em suas finanças, deixando a empresa fortalecida para 2016”.

Por: Redação Jornalistas&Cia

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Como os brasileiros consomem mídia no Brasil

São Paulo – A televisão segue como o principal meio de penetração nos lares brasileiros, com uma diferença: 37% das pessoas dá atenção a ela e a internet ao mesmo tempo.
Entre os telespectadores, cresceu 77% o número dos que pagam para assistir canais a cabo no país, de 2010 para 2015. A maior parte deles é da classe A e B e tem entre 25 e 44 anos.  
Essas mudanças de hábitos estão no estudo Target Group Index, da Kantar IBOPE Media, sobre o consumo e tendências de produtos, serviços e mídia dos brasileiros. 
Confira a seguir os principais dados apurados na pesquisa:

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

The future of journalism in an age of social media and dramatic declines in print revenue

Shorenstein Center

Nicco Mele – In Search of a Business Model: The Future of Journalism in an Age of Social Media and Dramatic Declines in Print Revenue

NICCO MELE – IN SEARCH OF A BUSINESS MODEL: THE FUTURE OF JOURNALISM IN AN AGE OF SOCIAL MEDIA AND DRAMATIC DECLINES IN PRINT REVENUE

Thursday, February 18, 2016,
11:00am-12:00pm
Taubman 275
February 18, 2016 — Nicco Mele, author, digital strategist and Wallis Annenberg Chair in Journalism at the USC Annenberg School of Journalism, discussed the future and feasibility of various news outlet business models.
Mele, who is also a former senior vice president and deputy publisher of the Los Angeles Times, and a Shorenstein Center board member, said that while the production and distribution of digital journalism are well understood, “what’s not well understood is how we make money or fund journalism in the digital age.”
Mele described a deepening crisis in the newspaper industry: although some outlets are seeing the largest online audiences they have ever had, revenue is still shrinking. On a local level, preprint advertising (e.g. coupons) has seen a steep decline as retailers like Wal-Mart and Best Buy face challenges of their own. Paradoxically, print advertising still generates the vast majority of newspaper revenue – an undesirable situation, given the cost of printing.
“If the next three years look like the last three years, I think we’re going to look at the 50 largest metropolitan papers in the country and expect somewhere between a third to a half of them to go out of business,” said Mele.
Mele noted that newer entrants such as Buzzfeed, Vox and Vice rely in large part on venture capital. “None of them are yet true public companies with a clear sense of what their revenue equation looks like,” he said.
And although philanthropic and government funding could be options, Mele stressed the importance of news outlets remaining economically independent from large institutions to better fulfill their duty of holding power accountable.
What is clear is that diversity in revenue streams will be an essential part of the future, said Mele, and part of the mix could include two effective but “underappreciated” options: subscription revenue and native content.
While The New York Times and NPR have a strong subscriber base, few other outlets do, said Mele. “Part of the challenge is an overreliance on paywalls – people think you put up a wall, and that’s how you’re going to force people to pay. I think that building a subscription base is a lot more about engaging people in a variety of channels,” he said. He added that paywalls also hurt digital distribution on platforms such as Google and Facebook.
Regarding native advertising, Mele said that while the wall between editorial and advertising exists for good reason, and advertising buys must never influence coverage, there is a “huge appetite” for branded content, and cited Vice as an example of an outlet with an in-house agency that produces branded content. “It’s important that we have, industry wide, a real discussion,” he said. “That doesn’t mean that we should throw that wall away. It means we have to come to some new norms and standards for how we preserve the integrity of newsrooms but also help meet the needs of being economically sustainable and viable.”
Native advertising and other new approaches could be a way for local news outlets to win back advertising dollars lost to competitors such as Google and Craigslist. “We’ve surrendered too much to the technology industry,” said Mele. “To a large extent, Facebook and Google substantially own audiences’ attention the way that newspapers used to,” he said, even though these platforms rely on the content of established news brands. Mele said he thinks that people “are hungry for the brands they trust in their community,” and news outlets should “fight back.”
Adapting to demographic shifts in local communities is also essential for remaining relevant to both readers and advertisers. The Los Angeles Times was slow to adjust to its changing market, which is home to large populations of more than 40 nationalities, said Mele. “The very demographics and ethnic makeup of our communities and cities are changing much faster than we’re able to recognize…our media needs to understand and represent that change both inside the newsroom, as well is in the business models, and in the relationships with advertisers…you have to be a part of your community.”
But even as new business models prove to be successful, media owners will still need to temper their expectations; newspapers no longer have the high profit margins that accompanied a monopoly on audience attention. “The future of journalism is small, scrappy enterprises that are entrepreneurial, that are innovative, that are trying things. And that means that the economic expectations of the performance of those institutions has to be reset,” said Mele.
In the face of an overall “unpleasant” situation, Mele remained forward looking. “It needs to be a clarion call, not for fear and craziness, but for increased innovation, for more failure, until we’re able to find models that work more aggressively – and I think we have a pretty good idea of what those models are.”
During the question and answer session, Mele also discussed his time at the Los Angeles Times, opportunities for longform journalism, crowdfunding, microfunding, verticals for niche audiences, hyperlocal journalism, the role of social media in the 2016 election and more. Listen to the full audio recording above.
Article and photo by Nilagia McCoy of the Shorenstein Center.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O último clichê

Blog do Marceu Vieira

eueprestes
Publicado em 12 de fevereiro de 2016
Marceu Vieira

Descubro, surpreso, que, a exemplo do “Jornal do Brasil”, a querida “Tribuna da Imprensa”, onde minha história particular no jornalismo começou, ainda existe em versão on line. Apenas se suicidou no papel, ou foi suicidada, também como o velho JB.

Lembro que me entristeceu muito a notícia de que a “Tribuna” deixaria de circular. Foi no antigo jornal da Rua do Lavradio, na Lapa, que cometi meu primeiro lide. Era 1986, e eu, moleque ainda, subi aquela escada de madeira muito íngreme em busca de um estágio.

Fui recebido pelo Joaquim, chefe dele mesmo no setor de pesquisa, onde era o único funcionário. Joaquim, se minha memória não apronta desfeita, usava colares de umbanda e tinha a cara enfezada.

Contei minha história, disse que, sem o estágio, não conseguiria me formar na faculdade – eu estudava no Instituto de Arte e Comunicação Social, Iacs, da UFF – e pedi que me ajudasse.

Começava como editor-chefe naquele mesmo dia o grande jornalista Ricardo Gontijo. Joaquim, talvez tocado pela minha cara de andorinha molhada recém-pousada de um voo acidentado desde Morro Agudo, combinou de me apresentar como um afilhado ao Gontijo.

– Como é o teu nome? – perguntou.

– Marceu – respondi.

Esperei em silêncio no terceiro andar, num ambiente apinhado de jornais velhos que recendiam a mofo e a História. Joaquim foi almoçar, e fiquei ali, olhando tudo e sem tocar em nada, a não ser no embrulho do queijo quente feito em pão francês, já frio àquela altura, que eu havia comprado no botequim lá de baixo, o Boteco do Sabará, sujeito boa-praça, tão retinto quanto vascaíno, de quem eu viria a gostar tanto.

Quando o Joaquim voltou, e o Gontijo finalmente chegou para seu primeiro dia de trabalho, o meu “padrinho” me levou até ele, no segundo andar, onde ficava a redação, e disse, com seu vozeirão e sua moral de empregado mais antigo:

– Seu Gontijo, este aqui é meu afilhado, o… o… o…

– …Marceu… – cochichei.

– …meu afilhado Perceu! Ele precisa de estágio.

– …Marceu… – sussurrei de novo.

– Isso, o Alfeu! Não, o Alceu, quer dizer, o Morfeu! Ele precisa de estágio.

Depois de mais alguma espera, fui mandado para a rua com uma repórter bem bonita (não lembro agora o nome dela, mas o rosto, sim), e foi assim, com uma matéria nunca publicada sobre uma greve do metrô, que consegui minha primeira ocupação no jornalismo.

Na “Tribuna”, conheci gente que, até hoje, é referência pra mim. Tarso de Castro, que de colunista se tornaria editor-chefe no lugar do Gontijo, me apresentou a um Rio glamouroso que eu não conhecia. Iza Freaza, hoje Iza Salles, apostou em mim como um dos primeiros repórteres do suplemento “Tribuna Bis”. José Trajano, querido chefe, me fez, com meu coração rubro-negro, gostar ainda mais do seu América Futebol Clube. Teixeira Heizer, cracaço do texto e do bom senso, me deu lições de estética e ética que guardo para sempre.

Paulo Sérgio, com seu mau humor, tentou corrigir meus defeitos de repórter iniciante – e, claro, não conseguiu. Ramiro Alves viraria meu amigo da vida inteira. Celso de Castro Barbosa, idem. Vladimir Porfírio, meu irmão querido, também. Maurício Fonseca é mais um. As irmãs Lídia e Beth Pena, outras. Palmério Dória, Cosme Coelho, Paulino Senra, Venerando Martins, Carlos Ramos, Lilian Newlands, Deborah Dumar, Regina Perez, Ana Carvalho, Robertão Porto, Carla Rodrigues, os fotógrafos Alcyr Cavalcanti, Jorge I, Jorge II, Jorge Nunes e Marcus Vinícius, Continentino Porto, Hudson Carvalho, Juçara Braga, Geraldo Lopes, Arthur Parahyba, Antônio Caetano, os caricaturistas Jane e Marcelo, Argemiro Ferreira, o fabuloso Bertoldo, os velhos Napoleão e Aragão, Fábio Grecchi, tanta gente…

A começar pelo Helinho Fernandes, que assinou minha primeira carteira de trabalho na profissão e me mandou para uma temporada de um ano em Brasília, onde morei de favor na casa do amigo e baita repórter Jorge Oliveira, fui foca na Constituinte de 1988 e tive a alegria de fazer entrevistas longas (que adoraria recuperar) com políticos como o então também foca Lula, em seu primeiro e único mandato de deputado, o já emplumado e já famoso FH, Mário Covas, José Richa, Eduardo Suplicy e outros.

Nunca vou me esquecer dessas pessoas. Nunca vou me esquecer da “Tribuna”.

Pela “Tribuna”, entrevistei Luís Carlos Prestes num 1° de Maio na Quinta da Boa Vista e ganhei dele um livro autografado. Pela “Tribuna”, vi Leandro, maior lateral-direito do Flamengo, do Brasil e do mundo em todos os tempos, meter um golaço no ângulo de Paulo Victor num Fla-Flu. Pela “Tribuna”, assisti à tragédia do incêndio no Edifício Andorinha. Jamais vou esquecer.

Como também nunca vou conseguir me esquecer do “Jornal do Brasil”. Recordo que estava na África do Sul, em 2010, pelo “Globo”, quando li pela internet a notícia de que o JB de papel iria acabar.

Passei no JB os dias mais felizes da minha vida profissional. Passei no JB também os dias mais tristes. Foram oito anos. Oito anos tão intensos, divididos em dois períodos de quatro, que, na minha memória afetiva, pareceram bem mais de oito. Pareceram uma vida toda. Ainda parecem.

Quatro dias foram os mais marcantes da minha carreira de jornalista. Dois foram os mais felizes. Dois, os mais tristes. O primeiro mais feliz foi o da minha chegada ao JB, em 1988, se não me engano. O segundo foi o da minha volta, em 1994. O segundo mais triste foi o da minha primeira saída, em 1991. O mais triste de todos foi o da minha despedida para sempre, em 1998.

Talvez nada que eu ainda possa fazer nos anos que me restam na profissão marque tanto a minha carreira quanto os oito de JB. Eu gostava tanto daquela casa que, na minha neuropatia amorosa de jovem repórter, imaginava não haver ninguém que a amasse tanto. Nem seus donos.

Pelo JB, fui a Ouricuri, nos cafundós de Pernambuco, e entrevistei uma senhorinha que, nos fundos de seu quintal de chão rachado pela seca, administrava um cemitério particular. Era o cemitério informal de seus próprios filhos natimortos. Um quintal espetado por umas 15 cruzes, nenhuma delas amparada em atestado de óbito. Um Brasil que o Brasil jamais registrou. Como testemunha, estava comigo o grande repórter-fotográfico Tasso Marcelo.

Pelo JB, passei um mês na Floresta Amazônica à espera de uma epidemia de cólera que nunca chegou.

Pelo JB, em 1990, numa viagem a Porto Alegre, entrevistei Alceu Colares, então candidato ao governo gaúcho, num momento em que caía nas pesquisas depois de, em plena campanha, ter trocado a mulher negra por uma loura um pouco mais jovem, a quem a língua má da oposição chamava de “Xuxa”.

Colares chorou na entrevista, e o choro descrito e retratado na reportagem ganhou uma dimensão enorme em seu estado, e seu pranto queixoso de preconceito ecoou no Rio Grande do Sul, e o “Doutor Negrão”, como era conhecido por lá, voltou a subir nas pesquisas para vencer o direitista Nelson Marchesan.

Pelo JB, descobri uma praia deserta no Rio, onde Brizola, então governador, havia se refugiado para meditar e, em certa ocasião, levado seu amigo Mário Soares, socialista português, ali presidente de seu país. Brizola ia até lá de helicóptero, único meio de transporte possível até o refúgio.

Pelo JB, apresentei ao Rio e ao Brasil um botequim de Copacabana chamado Bip Bip.

Pelo JB, subi e desci todos os andares do Edifício Chopin, em Copacabana, num pós-réveillon, para um relato pretensiosamente antropológico da então riqueza decadente do Rio.

Pelo JB, ajudei a acrescentar linhas nas biografias do próprio Brizola, do Collor, do Lula, do FH, do Cesar Maia, do Marcello Alencar, do Moreira Franco, tantos outros políticos que ainda estão por aí ou já se foram.

Pelo JB, trabalhei quase 24 horas seguidas no dia em que o corpo de Tom Jobim chegou ao Brasil, em dezembro de 1994.

Pelo JB, tantas coisas.

No JB, tive a alegria de escrever no espaço que um dia havia sido de Castellinho. Saudade.

Por causa do JB, conheci Betinho, e muito escrevi sobre ele, seu calvário e sua morte. Saudade também.

Saudade do “200 no lugar da 20”, jargão de retrancas que só quem trabalhou lá pode entender. Saudade do quadrado de memória nas páginas de política, das minhas interinidades no “Informe JB” do meu guru eterno Ancelmo Gois.

Saudade de assistir ao amanhecer num boteco infame da Leopoldina depois das madrugadas de “pescoção”, saudade do pôr do sol em São Cristóvão, o mais bonito do Brasil. Saudade de tanta gente. Saudade de mim mesmo e do repórter-cronista que eu sonhei que poderia me tornar naquelas páginas impregnadas de tanta nobreza.