sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Zahar agora é Penguin Random House

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Editora fundada por Jorge Zahar passa a ser um dos selos do Grupo Companhia das Letras, do qual a multinacional é dona de 70%. Valor da transação não foi informado.
A Penguin Random House, o segundo maior conglomerado editorial do mundo quando o assunto é livros de interesse geral, acaba de comprar a Zahar, que passa a ser administrada pelo Grupo Companhia das Letras, do qual a multinacional é dona de 70%.
A compra da Zahar faz parte de um projeto de consolidação da PRH, que nos últimos anos comprou os selos de interesse geral da Santillana (incluindo aqui a Objetiva que também passou a fazer parte do Grupo Companhia das Letras), a Salamandra (Espanha), a Ediciones B (Argentina), a Little Tiger (Inglaterra) e SourceBooks (EUA).
No comunicado em que confirma a compra, Markus Dohle, CEO internacional da Penguin Random House diz que é um privilégio ter a empresa que dirige sido escolhida para continuar o legado da Zahar. “Como em todas as nossas aquisições, abraçamos essa responsabilidade com o comprometimento de preservar a independência editorial da casa e seus editores, construindo com base na rica história da Zahar o melhor futuro para a empresa”.
A casa carioca é pioneira na publicação de livros dedicados às áreas de Ciências Humanas e Sociais no Brasil. Além disso, construiu um catálogo respeitável de clássicos universais, títulos para vocação para estudos universitários e obras infantis.
Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras e CEO do negócio no Brasil, tem um passado estreito com Jorge Zahar, fundador da editora recém-comprada e tem o editor morto em 1998 como um mentor e incentivador para a criação da Companhia das Letras nos anos 1980. Durante cerca de 30 anos, as duas casas compartilharam a distribuição (a Zahar distribuindo a Companhia das Letras no Rio de Janeiro e a Companhia das Letras distribuindo a Zahar em São Paulo) e, por muitos anos, dividiram espaços na Bienal.
O comunicado enviado à imprensa ressalta que, além das afinidades editoriais e comerciais das duas casas, elas compartilham a mesma visão sobre a vitalidade e a perenidade do livro. “Nos últimos tempos, embora a Companhia tenha crescido e decidido ampliar a comunidade de leitores com os quais falamos, a vocação de ser em essência uma editora de catálogo, de livros de longa duração, só foi aumentando. E é em cada um desses títulos, que querem sobreviver ao tempo, que a imagem de Jorge Zahar está espelhada e mantida”, diz.
A independência era um valor importante para Jorge Zahar. No volume da série Editando o Editor (Com Arte / Edusp), ele deixou claro isso. Sobre isso, Ana Cristina Zahar, sua filha e atual diretora da casa, comenta: “Depois de mais de 70 anos de trajetória independente, estamos confiantes que o Grupo Companhia das Letras é o melhor para abrigar e manter com qualidade um catálogo de tamanha relevância no segmento de não-ficção, os títulos infantojuvenis da Pequena Zahar e os Clássicos Zahar”.
O comunicado diz ainda que o processo de integração entre as duas editoras será conduzido por um comitê que contará, por parte do Grupo Companhia das Letras, além de Luiz Schwarcz, com a colaboração do publisher Otávio Costa e do editor Ricardo Teperman; pelo lado da Zahar, participarão as diretoras Ana Cristina Zahar (que permanecerá como consultora editorial após o processo de integração), Mariana Zahar e Ana Paula Rocha. O documento diz ainda que a sede da Zahar será mantida no Rio de Janeiro.
Com a chegada da Zahar, o Grupo Companhia das Letras passa a ter 17 selos editoriais: Companhia das Letras, Objetiva, Zahar, Alfaguara, Suma, Paralela, Penguin-Companhia, Companhia de Bolso, Portfolio-Penguin, Fontanar, Companhia de Mesa, Quadrinhos na Companhia, Seguinte, Companhia das Letrinhas, Pequena Zahar, Claro Enigma e Boa Companhia. O valor da transação não foi informado.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

'Temos de proteger a privacidade e a saúde mental das pessoas', diz Mark Zuckerberg


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Em entrevista exclusiva ao 'Estado', presidente executivo do Facebook assume responsabilidades, diz que empresa não tenta influenciar eleições, se defende de acusações de concorrência desleal e projeta futuro da computação com realidade virtual
26/09/2019 | 16h00
 Por Bruno Capelas, Menlo Park (EUA)* - O Estado de S. Paulo

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Conselho executivo Facebook

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O Facebook anunciou que formará, enfim, um conselho independente que será responsável pelas decisões mais delicadas referentes a moderação de posts e comentários. Este conselho será composto inicialmente por 11 membros que já estão sendo entrevistados e que recomendarão outros até chegar a um total de 40. Seus mandatos terão duração de três anos. No início, os ‘juízes’ avaliarão casos apresentados pela própria rede social. Mas, a partir do primeiro semestre do ano que vem, os usuários também poderão recorrer ao conselho quando se sentirem injustiçados. “Se alguém discordar de uma decisão nossa”, escreveu o CEO Mark Zuckerberg num post, “primeiro recorrerá a nós e, depois, ao conselho independente.” As decisões deste grupo serão finais. Um dos critérios pré-determinados é de que haverá jurisprudência. Ou seja: decisões passadas do conselho ditarão o curso das futuras.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Entrevista Ian McEwan

Ian McEwan: “Nunca previmos as redes sociais. Nunca imaginamos que os russos escolheriam o presidente dos EUA”

Escritor britânico enfrenta em convivência íntima ao homem e ao robô em sua novela 'Máquinas como eu', que se publica em espanhol, e lamenta o gerenciamento do Brexit do primeiro-ministro

Ian McEwan, em sua casa da região inglesa dos Cotswolds, nesta terça-feira após a entrevista com EL PAÍS
Ian McEwan, em sua casa da região inglesa dos Cotswolds, nesta terça-feira após a entrevista com EL PAÍS

A escrita de Ian McEwan (Aldershot, Reino Unido, 71 anos) já tem a destreza e o ofício necessários para dar a volta na História, fazer que Margaret Thatcher perca a Guerra das Malvinas, acelerar em décadas o desenvolvimento da inteligência artificial e criar um triângulo amoroso entre um homem, uma mulher e um androide perfeito. E que o leitor entre no jogo desde a primeira linha.

MAIS INFORMAÇÕES

Pergunta. A inteligência artificial (IA) como o grande desafio que a humanidade enfrenta. Por que escolheu algo assim?
Resposta. É algo que vem de longe para mim. Nos anos setenta escrevi um roteiro para a BBC sobre um personagem de Bletchley Park, a instalação militar onde eram decifrados os códigos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, que tinha certa relação com Alan Turing. Foi então quando a IA me interessou, e durante muitos anos acompanhei as pesquisas. Nos anos oitenta e noventa houve uma parada. A mente animal, a mente humana, é muito mais complexa do que ninguém jamais imaginou. Os últimos anos foram uma espécie de idade de ouro, com avanços espetaculares, sobretudo na escrita de software.
P. Você não só introduz androides de inteligência perfeita como também o faz no Reino Unido da década de oitenta, e ressuscita o cientista Alan Turing como personagem de seu livro.
R. Turing foi o começo do meu interesse por esse assunto. Nos anos trinta, antes de decifrar o código Enigma, do Exército alemão, já havia estabelecido as bases fundamentais do que um computador poderia chegar a fazer. É uma das figuras heroicas da revolução digital. E, ainda por cima, foi perseguido e processado por ser homossexual. Suicidou-se para evitar a prisão ou a castração química. Senti que devia lhe devolver a vida que nunca teve e fazer dele um gênio proeminente da era digital. Nunca saberemos tudo o que poderia ter chegado a ser.
P. A realidade que propõe em seu livro já está tão perto?
R. Não, tudo está ainda num estado muito infantil. Pense no oceano Pacífico: é como se mal tivéssemos colocado um dedo do pé na água. Mas está se expandindo, e os horizontes são imensos. Já é interessante por si só que vejamos todo este assunto como uma ameaça ou como uma promessa. Provavelmente seja as duas coisas. Estamos no limiar de uma mudança de civilização, a ponto de criar inteligências superiores à nossa. Algo mais importante que a invenção da escrita ou da Revolução Industrial. Mas se chegarmos a uma fase em que a IA desenhe por si mesma a sua seguinte geração, poderia escapar das nossas mãos.
P. E a grande incógnita está em saber se essas criações inteligentes podem adquirir uma consciência.
R. Proponho um dilema moral no romance: se Miranda, uma das protagonistas, deve ou não ir para a prisão pelo que fez no passado. Você pode programar ou desenhar uma série de algoritmos para um ser artificial ao qual se imponha a ordem de não mentir e de respeitar a prevalência da lei, o Estado de direito. Mas os humanos têm essa habilidade de mentir em algumas ocasiões, quando sabemos que é algo bom. Como quando você diz a um amigo com uma doença terminal: “Você está com um aspecto melhor hoje”. Escrever os algoritmos que desenvolvam essa qualidade é muito complicado, exige empatia. Por isso no livro me pergunto o que aconteceria se esses seres artificiais fossem capazes de desenvolver uma inteligência emocional, se fossem capazes de se apaixonarem ou de experimentarem o desejo sexual. A tese de Turing estabelecia que se você for incapaz de determinar se uma máquina tem ou não consciência, então deve assumir que tem.
P. O androide do seu romance, Adão, recrimina o humano, Charlie, por lhe ter tanto medo e inveja, e por se subvalorizar.
R. E não deveríamos ter medo do que vem. Além disso, demonstramos ser uns inúteis na hora de prever o futuro. Nunca vislumbramos a chegada da Internet. E quando a Internet já existia, nunca previmos as redes sociais. E quando chegaram as redes sociais, nunca imaginamos que os russos seriam capazes de escolher o presidente dos Estados Unidos. Pode ocorrer que finalmente nós mesmos sejamos os robôs, e que acabemos interferindo em nossos próprios cérebros, seja através de microchips, de drogas ou através de técnicas que atualmente não podemos nem imaginar. Talvez dentro de cem anos a ideia de um androide perfeito chamado Adão seja algo pitoresco.
P. Margaret Thatcher perde a Guerra das Malvinas e a humilhação nacional leva ao poder Tony Benn, um trabalhista radical adorado pelos jovens. Você se inspira na realidade de seu país?
R. Não para este livro, mas continuo muito atento a tudo o que tem a ver com o Brexit. Enche-me de desespero, embora eu não possa simplesmente olhar para o outro lado. Acho que ficamos todos loucos.
P. E quem é o culpado?
R. O Partido Conservador, acima de tudo. Esta foi durante muitos anos sua guerra civil particular. E acabou trazendo todos nós para ela. Impulsionada agora, além disso, pela extrema direita e o nacionalismo inglês. Um nacionalismo que sempre esteve aí, e que agora viu a oportunidade de se reagrupar em torno do Brexit, como se fosse um ímã.
P. E encontra alguma explicação para tudo isto?
R. Nos últimos anos cheguei a ler 500 milhões de palavras sobre este assunto, tive centenas de horas de discussão e debate, e tenho lido e leio a imprensa de direita e a de esquerda, a que está a favor do Brexit e a que defende a UE. E ainda não escutei um só argumento a favor da saída do Reino Unido da União Europeia que me convença e que tenha solidez racional. Dizem que se preocupam com a perda de soberania, mas cada tratado internacional representa uma cessão de soberania, incluindo o pertencimento à OTAN.
R. Fico assombrado, porque é um homem educado e inteligente, com muito encanto pessoal. E virou um imbecil populista da pior índole. Comparo-o a um personagem de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. Acho que em algum momento o pó mágico cairá sobre seus olhos e a cabeça de burro desaparecerá. E de novo será Boris Johnson. Apesar de ser um homem culto, e como tal com um senso do que é a História, mostrou uma profunda ignorância sobre o funcionamento da democracia parlamentar. E nesse sentido foi uma grande decepção.

A digital dos Bolsonaro no projeto que quer mudar a TV paga (e pode afetar o streaming)

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Filhos do presidente fazem lobby para aprovar texto em tramitação no Senado que beneficia fusão da AT&T e Time Warner. Senador do PT estuda apoiá-lo, se incluir cota de produção nacional para empresas como Netflix


Vídeo de Eduardo Bolsonaro a favor da fusão.
Vídeo de Eduardo Bolsonaro a favor da fusão.
Depois de ver fracassada sua tentativa de pressionar a Agência Nacional de Telecomunicações para que a entidade aprovasse ainda neste ano a compra da Time Warner pela AT&T no Brasil, o Governo Jair Bolsonaro (PSL) aposta agora no Senado uma alternativa que vai beneficiar as duas empresas americanas. Na próxima quarta-feira, a Comissão de Ciência e Tecnologia pretende votar o projeto de lei 3.832/2019, que altera as regras da TV paga no país e suspende a proibição de propriedade cruzada, o que permitiria a fusão de quem produz conteúdo (Warner) com quem o distribui (AT&T, a controladora da Sky). A defesa do negócio das gigantes americanas no Brasil virou uma bandeira aberta do Planalto e, especialmente, do deputado Eduardo Bolsonaro, em campanha para ser o novo embaixador do Brasil nos EUA.
O texto, que se aprovado na comissão vai direto para a apreciação da Câmara, movimenta também as atenções e os lobbies da gigante local, Globo, e suas concorrentes Record, SBT e RedeTV, sócias da programadora de TV a cabo Simba —as últimas cultivam relações mais próximas como os Bolsonaro. Enquanto as nacionais ainda não chegaram a um consenso em pontos da matéria, como a prerrogativa de compra dos direitos de grandes eventos, outro tema embola o debate: a inclusão da Internet, o que pode ter impacto ainda mais amplo.
Caso uma emenda ao texto seja aceita, os canais de streaming, como Netflix e HBO GO, entrariam na lei e seriam equiparados aos canais de TV por assinatura e poderiam ser obrigados a exibir uma cota mínima de produção brasileira. Esse grupo é chamado de over the top (OTT – nomenclatura para transmissão não linear pela Internet). Hoje, os canais por assinatura têm de ter ao menos 3h30 de produção local por semana em sua grade de programação. No caso das OTTs, não está claro como seria essa cota, já que não é possível mensurar a sua grade pela quantidade de horas de transmissão. Tampouco a emenda ao projeto de lei deixa claro como seria feita essa contabilidade.
As iminentes alterações atingem um mercado em queda, o das TVs pagas, que registraram 17,5 milhões de assinantes no ano passado (550.000 assinantes a menos que em 2017) e um ascensão, das OTTs, que supera os 10 milhões no Brasil. Os dados são da Anatel e do mercado. A tendência é que as plataformas digitais superem em poucos anos as TVs por assinatura.
O rastro da família Bolsonaro nessa negociação está no lobby pela aprovação da proposta. O principal articulador para os Governos brasileiro e americano é o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente que deve ser indicado para assumir a embaixada do Brasil nos Estados Unidos, o que depende ainda da aprovação do Senado. A pedido da gestão Donald Trump, ele chegou a ir pessoalmente à Anatel para angariar apoio à fusão das companhias, já aprovada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
O pedido do deputado foi ignorado por enquanto. Dos cinco conselheiros, dois votaram a favor da união da AT&T com a Time Warner,. Um pediu vistas de 120 dias no processo. Os outros dois ainda não votaram. Em Brasília, Eduardo é visto como um lobista aguerrido em favor do Governo Trump, o que ele nega. Seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), é outro negociador junto aos congressistas na matéria. Flávio conversou com ao menos quatro dos membros da Comissão de Ciência e Tecnologia pedindo votos a favor da mudança legal.
Segundo especialistas, caso o projeto de lei seja aprovado de forma terminativa na comissão do Senado (não precisa passar no plenário) e, posteriormente, na Câmara, o processo que tramita na Anatel será extinto, já que a lei brasileira passaria a autorizar essa união. “Uma lei federal se sobrepõe a uma norma de agência reguladora”, explicou o advogado especialista em fusões e aquisições Paulo Bardella, do escritório Viseu Advogados.

“Tem gente querendo pegar carona”

O relator do projeto de lei na Comissão de Ciência e Tecnologia, senador Arolde Oliveira (PSD-RJ), um aliado de Bolsonaro, diz que as mudanças não são apenas direcionadas para a AT&T. “Queremos apenas destravar o problema da propriedade cruzada e permitir que o país tenha mais investimentos”, afirma.
Já o opositor ao bolsonarismo, Rogério Carvalho (PT-SE), afirma que, caso seja garantida a cota de produção local para as OTTs, a oposição deve votar junto com o Governo. “Desde que a lei da TV paga surgiu, diversos produtores independentes surgiram no país. Queremos que criar um marco para que a produção voltada para a Internet respeite essa produção local”, ponderou Carvalho. Ele é o autor da emenda que pode alterar as regras para as empresas de streaming.
Na opinião do senador Oliveira, contudo, o assunto ainda não está pacificado. “Tem gente querendo pegar carona em um projeto que é simples. Por mim, não mudamos nada de Internet agora”, afirmou. Sua ideia é incluir esse tema em um projeto de lei mais profundo, no qual todos os aspectos das OTTs seriam debatidos, desde a criação de limites de produção até eventuais cobranças taxas. Sairá vencedor do primeiro round dessa batalha quem obtiver ao menos 9 dos 17 votos dos senadores da comissão na próxima quarta.