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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Mídia e poder na sociedade do espetáculo
A eleição de Dilma retomou o debate sobre a influência dos grandes conglomerados na opinião pública
Publicado em 07 de fevereiro de 2011

Cláudio Novaes Pinto Coelho
Ilustração Adriano Paulino
Ilustração Adriano Paulino
Um dos principais equívocos sobre a sociedade contemporânea é o argumento de que o conjunto dos meios de comunicação, a mídia, é a instituição social mais poderosa. Fazem parte desse argumento expressões problemáticas como “sociedade midiatizada”, “cultura da mídia” etc.
Antes de mais nada, é preciso distinguir quais meios de comunicação possuem poder e que tipo de poder exercem. Não há dúvida de que conglomerados empresariais como as Organizações Globo, no contexto brasileiro, e a News Corporation, de Rudolph Murdoch, no contexto mundial, são exemplos de instituições poderosas, que movimentam enorme quantidade de capital, influenciam comportamentos individuais e coletivos e agem politicamente, defendendo seus próprios interesses e os interesses da sociedade capitalista de modo geral. De forma alguma essas empresas podem ser consideradas como fazendo parte de uma mesma instituição social, com todos aqueles que são produtores de mensagens e utilizam algum tipo de recurso tecnológico.
O conceito de “indústria cultural”, ainda que tenha sido criado por Adorno e Horkheimer na primeira metade do século passado, explica muito melhor a atuação dos meios de comunicação do que o termo “mídia”, pois destaca a dimensão econômica da comunicação. Adorno e Horkheimer, no livro Dialética do Esclarecimento, publicado em 1947, já indicavam que os conglomerados empresariais que atuam na comunicação são fundamentais para a existência da sociedade capitalista, mas que seu poder depende do poder dos conglomerados empresariais de modo geral.
Sociedade do espetáculo e capitalismoA própria expressão “sociedade do espetáculo” pode dar margem a interpretações equivocadas, se for entendida como o poder que as imagens exercem na sociedade contemporânea. É certo que Guy Debord, o criador do conceito de “sociedade do espetáculo”, definiu o espetáculo como o conjunto das relações sociais mediadas pelas imagens.
Mas ele também deixou claro que é impossível a separação entre essas relações sociais e as relações de produção e consumo de mercadorias. A sociedade do espetáculo corresponde a uma fase específica da sociedade capitalista, quando há uma interdependência entre o processo de acúmulo de capital e o processo de acúmulo de imagens. O papel desempenhado pelo marketing, sua onipresença, ilustra perfeitamente bem o que Debord quis dizer: das relações interpessoais à política, passando pelas manifestações religiosas, tudo está mercantilizado e envolvido por imagens.Mas, se a sociedade do espetáculo só pode ser compreendida dentro do contexto da sociedade capitalista, isso não quer dizer que só nessa forma de vida social ocorre a produção de espetáculos.
A produção de imagens, a valorização da dimensão visual da comunicação, como instrumento de exercício do poder, de dominação social, existe, conforme argumenta Debord no livro Sociedade do Espetáculo, publicado em 1967, em todas as sociedades onde há classes sociais, isto é, onde a desigualdade social está presente graças à divisão social do trabalho, principalmente a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual.
Na sociedade feudal, por exemplo, o poder da nobreza sobre os servos estava vinculado à aparência de superioridade construída pelos nobres, mediante o uso de peças sofisticadas de vestuário, a construção de moradias com estilos arquitetônicos imponentes, a organização de festas suntuosas etc. O que permite a caracterização do capitalismo como a sociedade do espetáculo é o caráter cotidiano da produção de espetáculos, a quantidade incalculável de espetáculos produzidos e seu vínculo com a produção e o consumo de mercadorias feitas em larga escala.
O poder espetacularNa sociedade capitalista, o poder espetacular está disseminado por toda a vida social, na qual há simultaneamente produção e consumo de mercadorias e de imagens, constituindo-se na forma difusa desse poder, conforme definição dada por Debord em 1967, ou ocorre vinculado à ação do Estado, de forma concentrada, com a produção de imagens para justificar o poder exercido por seus dirigentes.
Assim como o conceito de “indústria cultural”, o conceito de “sociedade do espetáculo” faz parte de uma postura crítica com relação à sociedade capitalista. Não são conceitos pensados de maneira puramente acadêmica, como capazes apenas de descrever as características sociais, mas fazem parte de uma construção teórica que procura apontar aquilo que se constitui em entraves para a emancipação humana.
Na década de 1960, Guy Debord e os demais militantes políticos e culturais aglutinados em torno da Internacional Situacionista destacaram-se pela capacidade de influenciar um dos mais importantes movimentos sociais do século 20, que contou com a participação de milhões de estudantes e operários e entrou para a história como o movimento de maio de 1968. Os situacionistas defendiam uma ação contra a alienação presente na vida cotidiana, postulando que os estudantes e os trabalhadores deveriam retomar o controle sobre suas próprias vidas, ocupando as escolas e fábricas e passando a exercer, com base em decisões tomadas coletivamente em assembleias, o poder nessas instituições. As ocupações aconteceram, mas fracassaram como estratégia para revolucionar a sociedade capitalista.
Em 1988, Debord publica os Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo, reconhecendo que, em vez de a sociedade do espetáculo ser destruída, ela se fortaleceu no período histórico posterior às lutas sociais de 1968. Nesse texto, ele afirma que a produção de espetáculos tomou conta de toda a vida social; o poder espetacular manifesta-se agora de forma integrada, já que desapareceram os movimentos sociais de oposição, que se assimilaram à sociedade capitalista e não defendem mais sua superação.
A análise feita por Debord em 1988 a respeito do poder espetacular corresponde ao momento do triunfo do neoliberalismo em escala mundial. O neoliberalismo, com a defesa da liberdade de atuação para os grandes conglomerados empresariais, significou um retrocesso nas conquistas sociais dos trabalhadores, causando o avanço do desemprego, da precarização das condições de trabalho, e o enfraquecimento dos sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda.
Com o neoliberalismo, o poder dos conglomerados comunicacionais fortalece-se e a indústria cultural, articulada mundialmente, transforma-se no porta-voz ideológico do capitalismo, desqualificando qualquer visão contrária a ele como ultrapassada, promovendo assim o pensamento único, em relação ao qual não há alternativa.
O contexto contemporâneoA atual crise econômica, que se manifesta intensamente nos Estados Unidos e na Europa e faz com que somas gigantescas, na casa dos trilhões de dólares, sejam direcionadas pelos governos para “salvar” instituições financeiras envolvidas numa verdadeira orgia especulativa, está provocando um abalo significativo no neoliberalismo e no pensamento único.
Na América Latina, esse abalo teria começado antes, com a ascensão ao poder de líderes políticos considerados de esquerda. No entanto, não é muito fácil avaliar se essa ascensão significou efetivamente um abalo no neoliberalismo, já que, na prática, são governos com atitudes bastante distintas. No Brasil, por exemplo, em que pese a melhoria das condições de vida da maioria da população com a diminuição das desigualdades sociais, houve, em linhas gerais, uma manutenção da política econômica neoliberal. Além disso, nas campanhas eleitorais e durante os mandatos presidenciais de Lula ocorreu uma farta utilização das técnicas de marketing para a produção de imagens espetaculares capazes de garantir sua eleição, reeleição e altíssimos índices de popularidade.
Mas, de qualquer maneira, a realidade contemporânea possui elementos suficientes para que uma reflexão sobre a possibilidade de um retorno da crítica teórica e prática da sociedade capitalista do espetáculo se torne indispensável. No contexto brasileiro, a vitória da candidata Dilma Rousseff significou a retomada do debate sobre um eventual declínio da capacidade de os grandes conglomerados comunicacionais influenciarem a opinião pública.
Esse debate já havia acontecido à época da reeleição de Lula, quando a atuação desses conglomerados, com a divulgação intensa de “escândalos” envolvendo figuras importantes do PT, contribuiu de forma decisiva para a existência do segundo turno eleitoral, que, no entanto, foi vencido por Lula. Na campanha de 2010, a atuação dos grandes grupos comunicacionais, em especial a mídia impressa, foi ainda mais forte contra a candidata do PT, mas o resultado final foi o mesmo: houve um segundo turno vencido por Dilma Rousseff.
Um aspecto importante, que precisa ser levado em consideração, é que é a mídia eletrônica, em especial a Rede Globo de Televisão, a principal mídia capaz de influenciar a opinião pública em escala nacional, atingindo todas as classes sociais. Ainda que a cobertura eleitoral feita pela Globo possa ser considerada favorável à candidatura Serra, basta lembrar o destaque dado à “agressão” sofrida por Serra no Rio de Janeiro: em nenhum momento ela atingiu o caráter de uma ação sistemática de desqualificação da candidatura Dilma, como a cobertura feita pela Veja.
Também precisa ser levado em consideração que, em São Paulo, o PSDB governa o estado há mais de uma década, com total apoio da chamada grande mídia. Além disso, José Serra foi o candidato à Presidência mais votado no estado, evidenciando o peso das posturas políticas mais conservadoras, amplamente hegemônicas no jornalismo dos grandes conglomerados comunicacionais.
Embora o governo Lula não possa ser considerado um governo que rompeu com o neoliberalismo, só o fato de ele ter sido um líder operário eleito pelo partido que se afirma como defensor dos trabalhadores e com um passado político vinculado à defesa de posições de esquerda já foi suficiente para gerar uma forte onda conservadora na grande mídia, especialmente na mídia impressa. Se essa onda conservadora não foi capaz de superar a imagem positiva de Lula trazida principalmente pela retomada do crescimento econômico acontecida em seu governo, ela não pode ser deixada de lado e se fez presente com força na campanha eleitoral de 2010, principalmente em torno da questão do aborto.
Como o passado político de Dilma Rousseff é ainda mais problemático do ponto de vista do conservadorismo político, visto que ela se envolveu na luta armada contra a ditadura militar, é provável que a reação conservadora seja ainda mais forte do que foi contra o governo Lula. Caso isso aconteça, é possível que o governo Dilma avance no sentido de uma ruptura com o neoliberalismo, ou pelo menos na direção de uma postura ideológica de esquerda mais definida, diminuindo o uso do marketing político e da produção de espetáculos políticos, inclusive porque, se Lula dificilmente sairá do cenário político, ele não estará mais ocupando a posição central.
Cláudio Novaes Pinto Coelho é professor da Faculdade Cásper Líbero
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
A mídia de massas individual
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No momento em que a democracia formal está em crise, a existência e o desenvolvimento das redes eletrônicas oferecem à sociedade a capacidade de exercer um papel político inédito. Elas permitem que todos os que contestam o sistema não apenas controlem as informações e as desmintam, como também as produzam.
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| por Manuel Castells |
A informação e a comunicação sempre foram vetores de poderes dominantes, alternativos, de resistências e de mudanças sociais. Nesse sentido, a ascensão sobre a mente das pessoas propiciada pela comunicação é fundamental: afinal, é apenas com a condição de moldar o pensamento dos povos que os poderes se constituem em sociedades, e que as sociedades evoluem, mudam.
É verdade, a repressão física ou mental é uma dimensão importante do poder dominante, mas, se um povo modificar radicalmente sua visão das coisas, se ele pensar de modo diferente e por conta própria, não existe poder que possa se opor a isso.
Torturar um corpo é bem menos eficiente do que moldar uma mente. É por isso que a comunicação é uma potência. O pensamento coletivo (que não é a soma dos pensamentos individuais em interação, mas sim um pensamento que absorve e difunde tudo no conjunto da sociedade) elabora-se dentro do campo da comunicação. Pois é justamente deste campo específico que vêm as imagens, as informações, as opiniões; além disso, é também por meio de mecanismos comunicacionais que a experiência se difunde e se transmite em nível coletivo.
Tudo isso se aplica com maior força às nossas sociedades, que são perpassadas em todos os níveis pelas redes de comunicação, do global ao local e do local ao global. Em consequência disso, as relações com o poder dominante – um elemento constitutivo de toda sociedade e que determina suas evoluções – vêm sendo sempre mais articuladas dentro da esfera da comunicação.
Na sociedade contemporânea, a política adquire imediatamente uma dimensão midiática. A matéria do sistema político e até mesmo as decisões que dele emanam são pauta para os veículos de comunicação, que buscam obter o apoio dos cidadãos ou, ao menos, atenuar sua hostilidade.
Isso não significa que o poder esteja incondicionalmente nas mãos da mídia, nem que o público decida em função do que esta lhe sugere. Há muito tempo as pesquisas em comunicação vêm demonstrando o quanto o público é ativo, e não passivo.
Além do mais, os veículos de comunicação são dotados de sistemas de controle da sua capacidade em influenciar o público. Em primeiro lugar e acima de tudo, são empresas submetidas aos imperativos da rentabilidade, que têm a obrigação de gerar audiência ou de ampliar a sua difusão. Em geral são diversificados, competitivos e devem se manter tão críveis quanto os seus concorrentes. Não raro, eles impõem a si mesmos, outras obrigações em termos de ética profissional ou jornalística (mediadores, comitês de ética etc.). Portanto, um veículo de comunicação não está simplesmente devotado à distorção ou à manipulação da informação.
Contudo, importa focarmos a nossa atenção em duas tendências. Primeiro, a do jornalismo militante, engajado, do veículo de comunicação como ferramenta ideológica. Por muito tempo isso foi considerado como um obstáculo que conduzia o veículo a perder suas qualidades de “objetividade”, e, portanto, os seus compradores. Assim, praticamente todos os jornais que se apresentam como “órgãos de partido” desapareceram ou enfrentam graves crises de difusão. Mas as coisas parecem ter mudado; a postura militante ou o engajamento ideológico pode tornar-se um modelo muito rentável. Por exemplo, a Fox News, um dos principais canais de televisão dos Estados Unidos (filial da News Corp que pertence a Rupert Murdoch), conquistou uma parcela importante da audiência estadunidense apoiando sem qualquer preocupação com a objetividade as teses neoconservadoras favoráveis à invasão do Iraque em 2003.
A segunda tendência, que pode ser observada atualmente, reside na perda de autonomia dos jornalistas profissionais em relação aos seus empregadores. É aí que se decide grande parte do jogo complexo das manipulações midiáticas.
Um estudo tentou explicar que, em meados de 2004, 40% dos estadunidenses1 ainda acreditavam que Saddam Hussein e a Al Qaeda trabalhavam juntos e de modo entrosado, e que havia armas de destruição em massa no Iraque. E isso, um ano depois que todas as provas do contrário tivessem sido detalhadas. Esse estudo evidenciou as conexões entre a máquina de propaganda da administração Bush e as produções do sistema midiático. E demonstrou que certas manipulações ocorreram sem que tivesse censura nem qualquer ordem direta para distorcer o noticiário.
Entretanto, essa é apenas a parte mais visível do iceberg. Isso porque a influência mais determinante que a mídia exerce sobre a política não decorre do que é publicado, mas sim do que deixa de sê-lo. Do que é ocultado, deixado na moita. A atividade midiática baseia-se numa dicotomia: o que existe na mente do público é apenas o que existe através da mídia. A sua potência fundamental reside então na faculdade de ocultar, de mascarar, de condenar à inexistência pública.
A necessidade de existir midiaticamente para existir politicamente induz uma relação orgânica com a linguagem midiática, que é encontrada tanto na televisão quanto no rádio, na imprensa escrita ou na Internet. E os veículos de comunicação utilizam um jargão específico.
A mais simples e a mais poderosa das mensagens midiáticas é a imagem. E a mais simples das mensagens em imagens sempre foi o rosto. Existe um vínculo orgânico entre a midiatização da política, a personalização da mídia e a personalização da política. Quando tudo resvala numa vida política baseada nas querelas de pessoas e de imagens e nas manipulações midiáticas, os programas políticos perdem da sua importância, já que ninguém se refere a eles – os cidadãos deixam de atribuir-lhes qualquer importância (provavelmente com razão, aliás).
Esse triunfo da política “personalizada” implica que a forma mais convincente de combate ideológico seja o ataque contra a pessoa que encarna uma mensagem. A difamação e o rumor tornam-se a arte predominante na política: uma mensagem negativa é cinco vezes mais eficiente do que uma mensagem positiva. Todos os partidos buscam tirar proveito dessa brecha, manipulando ou fabricando as informações. E isso, sem que a mídia tome qualquer iniciativa. É antes uma missão para intermediários e firmas especializadas.
Resulta disso uma conexão direta entre a midiatização da política, a sua personalização e a difamação ou a prática do escândalo político. Isso nos remete para a crise atual, profunda, da legitimidade política na escala mundial. Pois existe um vínculo evidente e forte, mesmo que ele não seja exclusivo, entre a prática do escândalo, a midiatização exacerbada da cena pública e a falta de confiança dos cidadãos no sistema. Essa desconfiança encontrou sua ilustração numa pesquisa realizada pelos serviços da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo o qual dois terços dos habitantes do planeta não se consideram representados pelos seus governos.
Trata-se efetivamente de uma crise de legitimidade. Contudo, no momento em que o mundo diz não mais confiar nos governos, nos dirigentes políticos, nem nos partidos, uma maioria da população insiste em acreditar que ela pode influenciar os que falam em seu nome. Ela também considera poder agir sobre o mundo, por meio da sua vontade e dos seus meios próprios. Ela talvez esteja no processo de introduzir na esfera da comunicação os desenvolvimentos extraordinários daquilo que eu chamo de mass self communication(a comunicação de massa individual).
Tecnicamente, essa comunicação de massa individual faz parte da internet e do desenvolvimento dos telefones celulares. Haveria atualmente mais de um bilhão de usuários da Web e cerca de dois bilhões de assinantes do telefone móvel2. Dois terços dos habitantes do planeta podem comunicar-se por meio de um celular, inclusive em lugares onde não há nem eletricidade, nem linhas de telefone fixo. Num espaço de tempo muito curto, as novas formas de comunicação se expandiram. As pessoas desenvolveram os próprios sistemas: SMS, blogs, Skype... O peer-to-peer(em português, “par a par”), ou P2P, torna possível a transferência de todo e qualquer dado digitalizado. Em maio de 2006, havia 37 milhões de blogs (para 26 milhões em janeiro). Em média, um blog é criado a cada segundo no mundo, ou seja, mais de trinta milhões por ano... Três meses após tê-lo aberto, 55% dos blogueiros seguem alimentando seu blog. O número de blogueiros é 60 vezes maior do que há seis anos. Além disso, ele é multiplicado por dois a cada seis meses.
Enquanto o inglês era inicialmente a língua dominante na internet, esse correspondia, ainda em 2006, a menos de um terço dos sites. O chinês não demorou a levar a melhor, sendo seguido pelo japonês, o espanhol, o russo, o francês, o português e o coreano... O que importa aqui não é tanto a existência de todos esses blogs, e sim os vínculos que existem entre eles e aqueles que eles travam e cultivam com a totalidade das interfaces comunicacionais.
Assim, esse fenômeno constitui uma nova forma social de comunicação certamente maciça, mas produzida, recebida e vivenciada individualmente. E em todo lugar no mundo ela foi recuperada pelos movimentos sociais, assim como pelos veículos de comunicação tradicionais, que tentam atracar-se a essa nova realidade. Lançando mão da sua potência comercial e midiática, esses últimos estão criando a maior quantidade de blogs possível em volta deles. Mesmo assim, não é menos verdadeiro que, por meio da comunicação de massa individual, tanto os movimentos sociais quanto os indivíduos que se posicionam de maneira mais crítica têm condições para agir sobre os grandes veículos de comunicação, controlar as informações, desmenti-las, caso for necessário, e até mesmo produzi-las.
Com toda a sua diversidade, o movimento altermundialistacontra o capitalismo global vem utilizando há vários anos a internet e todos os recursos da comunicação, não apenas como um instrumento organizacional como também como foro para debates e manifestações. Dessa forma, ele desenvolveu uma capacidade de influência sobre os veículos de comunicação dominantes.
A constituição de redes autônomas de comunicação também diz respeito aos veículos de comunicação mais tradicionais. As televisões de rua e as rádios, tais como Orfeo TV em Bolonha, Zalea TV em Paris, Occupen Las Ondas em Barcelona, TV Piquetera em Buenos Aires, além de uma multidão de outros veículos alternativos, conectados em rede, formam um verdadeiro novo sistema de informação.
Até mesmo o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, entrou nessa onda e montou a a própria rede de televisão, cujo conteúdo é alimentado pelos telespectadores, numa proporção de 40%. As campanhas presidenciais também sofreram influência dessa nova mídia. Assim, em 2003-2004, a candidatura de Howard Dean – derrotado por John Kerry, na corrida para a investidura do Partido Democrata – só conseguiu levantar voo por meio da sua capacidade de mobilização na Internet3.
A seguir, aparece então a “mobilização política instantânea” por telefone celular, que se tornou, desde 2004, um fenômeno decisivo4. Esse tsunami voltado para a mobilização e alimentado por redes de comunicações entre celulares teve efeitos notáveis na Coreia do Sul5, nas Filipinas, na Ucrânia, na Tailândia, no Nepal, no Equador e na França... Às vezes tendo um efeito imediato, como na Tailândia em abril de 2006, quando o primeiro-ministro Thaksin Shinawatra foi destituído pelo exército. Ou ainda, na Espanha, quando da derrota nas eleições legislativas de março de 2004 do Partido Popular de José Maria Aznar. Motivadas pela suspeita de que estava ocorrendo uma manipulação da informação pelas autoridades, que naquele momento estavam interessadas em atribuir a responsabilidade pelos atentados de Madri ao grupo basco ETA, inúmeras mensagens circularam via telefones celulares e permitiram a organização de uma imensa manifestação de protesto num dia em que, teoricamente, por efeito do choque e do luto, parecia impossível manifestar qualquer coisa no plano político.
Isso não significa que existe, de um lado, a mídia assimilada ao poder e, de outro, a mídia de massa individual, associada aos movimentos sociais. Cada lado opera com a dupla plataforma tecnológica. Mas a existência e o desenvolvimento das redes eletrônicas proporcionam à sociedade uma faculdade maior de controle, de intervenção. E uma capacidade superior de organização política para aqueles que se posicionam fora do sistema tradicional.
No momento em que a democracia formal e empolada está fundamentalmente em crise, que os cidadãos não acreditam mais nas suas instituições democráticas, o que está ocorrendo diante dos nossos olhos com essa explosão das comunicações de massa individuais se parece com a reconstrução de novas formas políticas. Ainda é difícil apontar os caminhos que elas irão trilhar.
Mas uma coisa está certa: o desfecho da batalha será decidido no campo da comunicação e levará em conta a nova diversidade dos meios tecnológicos. Em última instância, essa batalha é a mais antiga da história da humanidade. Desde sempre, ela se caracteriza por ser uma luta pela libertação da nossa mente.
(Este texto revisto e corrigido pelo autor, é extraído da sua palestra no seminário sobre o tema “A mídia entre os cidadãos e o poder”, organizado pelo World Political Forum e a província de Veneza em San Servolo, na Itália, nos dias 23 e 24 de junho de 2006)
1 Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade do Maryland em outubro de 2003, 60% dos norte-americanos – e 80% dos que assistiam à Fox News – acreditavam em pelo menos uma das três seguintes contraverdades: 1. Foram descobertas armas de destruição maciça no Iraque; 2. Existem provas de uma aliança entre o Iraque e a Al Qaeda; 3. A opinião pública mundial apoia a intervenção militar estadunidense no Iraque. Ler Eric Klinenberg, “Contestation de l’ordre médiatique américain”, Le Monde diplomatique, abril de 2004.
2 Em 2009, segundo a Internet World Stats, foram recenseados 1,59 bilhão de internautas no mundo. Além disso, havia mais de 3 bilhões de usuários de telefones celulares.
3 Quando da eleição de 2008, foi a campanha de Barack Obama que constituiu um caso emblemático pela sua utilização esclarecida na Internet, e em particular nas redes sociais tais como Facebook.
4 Manuel Castells, Jack Linchuan Qui, Mireia Fernández-Ardèvol e Araba Sey, Mobile Communication and Society. A Global Perspective, MIT Press, Boston, 2006.
5 Ler Philippe Pons, “O sonho acabou”, Le Monde Diplomatique Brasil, maio de 2009. |
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Revisitando o poder da mídia
Por Venício Lima *
Os resultados da pesquisa CNI/Ibope divulgados no dia 16 de dezembro confirmam uma clara tendência dos últimos anos e, ao mesmo tempo, recolocam uma importante questão sobre o poder da grande mídia tradicional. De fato, a aprovação pessoal e a confiança no presidente Lula atingiram novos recordes, 87% e 81%, respectivamente; e a avaliação positiva do governo subiu para 80%, outro recorde .
A confirmação dessa tendência ocorre apesar da grande mídia e sua cobertura política do presidente e de seu governo ter sido, ao longo dos dois mandatos, claramente hostil ou, como disse a presidente da ANJ, desempenhando o papel de oposição partidária.
Isso significa que a grande mídia perdeu o seu poder?
Monopólio da informação política
Parece não haver dúvida de que a mídia tradicional não tem mais hoje o poder de "formação de opinião" que teve no passado em relação à imensa maioria da população brasileira. E por que não?
Um texto clássico dos estudos da comunicação, escrito por dois fundadores deste campo, ainda na metade do século passado, afirmava que para os meios de comunicação exercerem influência efetiva sobre os seus públicos é necessário que se cumpram pelo menos uma das seguintes três condições, válidas até hoje: monopolização; canalização ao invés de mudança de valores básicos, e contato pessoalsuplementar. Com relação à monopolização afirmam:
"Esta situação se concretiza quando não se manifesta qualquer oposição crítica na esfera dos meios de comunicação no que concerne à difusão de valores, políticas ou imagens públicas. Vale dizer que a monopolização desses meios ocorre na falta de uma contrapropaganda. Neste sentido restrito, essa monopolização pode ser encontrada em diversas circunstâncias. É claro, trata-se de uma característica da estrutura política de uma sociedade autoritária, onde o acesso a esses meios encontra-se totalmente bloqueado aos que se opõem à ideologia oficial" [cf. Paul Lazarsfeld e Robert K. Merton, "Comunicação de massa, gosto popular e ação social organizada" in G. Cohn, org. Comunicação e Indústria Cultural; CEN; 1ª. ed., 1971; pp. 230-253].
Aparentemente, a monopolização do discurso político "mediado" pela grande mídia – em regimes não-autoritários – foi quebrada pelo enorme aumento das fontes de informação, sobretudo com a incrível disseminação e capilaridade social da internet.
Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, quando de sua rápida visita ao Brasil, em abril passado, o fundador do diário espanhol El País, Juan Luis Cebrian, afirmava:
"...a internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Do início ao fim da última campanha presidencial americana, circularam pela web algo como 180 milhões de vídeos sobre os candidatos Obama e McCain, mas apenas 20 milhões haviam saído dos partidos Democrata e Republicano. As próprias organizações políticas foram ultrapassadas pela movimentação dos cidadãos. Como ordenar tudo isso? Não sei. (...) ...hoje existem 2 bilhões de internautas no mundo, ou seja, um terço da população planetária já tem acesso à rede. Há 200 milhões de páginas web à escolha do navegante. Na rede, você diz o que quer, quando quiser e a quem ouvir, portanto, o acesso à informação aumentou de forma espetacular. Isso é fato [íntegra disponível aqui].
A disseminação da internet – ou seja, a quebra do monopólio informativo da grande mídia – aliada a mudanças importantes em relação à escolaridade e à redistribuição de renda que atingem boa parte da população brasileira, certamente ajudam a compreender os incríveis índices de aprovação de Lula e de seu governo, mesmo enfrentando a "oposição" da grande mídia.
Resta muito poder
Isso não significa, todavia, que a grande mídia tenha perdido todo o seu poder. Ao contrário, ela continua poderosa, por exemplo, na construção da agenda pública e na temerosa substituição de várias funções tradicionais dos partidos políticos, vale dizer, do enfraquecimento deles.
A grande mídia, em particular a mídia impressa (jornais e revistas), ainda continua poderosa como ator político em relação à reduzida parcela da população que se situa na ponta da pirâmide social e exerce influência significativa nas esferas do poder responsáveis pela formulação das políticas públicas, inclusive no setor das comunicações.
O fenômeno Lula, que deixa o poder, como observou um analista, "amado pelo povo e detestado pela mídia", deve servir, não só para uma reavaliação do papel da mídia de massa tradicional, mas também como horizonte para aqueles que trabalham pela universalização da liberdade de expressão e pela efetivação do direito à comunicação.
*Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Dominique Wolton – O Titanic da Cibercultura
CARLOS NEPOMUCENO | 13/12/2010
Resumo:
Dominique Wolton, filósofo francês, fala sobre questão da comunicação, matéria no Valor Diego Viana, 03/12/2010, comunicação, informação, cibercultura, Internet. “O Titanic da Cibercultura”. Questionador do tecno-otimismo da super-valorização de dada tecnologia, no caso a Internet. Falo da Inevolução (positivos e negativos). Wolton separa Informação de Comunicação. A Internet não desenvolve um potencial de comunicação. “Estar conectado não é estar se comunicando”.
Dominique Wolton, filósofo francês, fala sobre questão da comunicação, matéria no Valor Diego Viana, 03/12/2010, comunicação, informação, cibercultura, Internet. “O Titanic da Cibercultura”. Questionador do tecno-otimismo da super-valorização de dada tecnologia, no caso a Internet. Falo da Inevolução (positivos e negativos). Wolton separa Informação de Comunicação. A Internet não desenvolve um potencial de comunicação. “Estar conectado não é estar se comunicando”.
Para twittar:
Áudio: comento s/ Dominique Wolton – O Titanic da Cibercultura – reflexões s/ o narcisismo online – http://bit.ly/i9GYeG
Áudio: O presentismo e o fotismo no discurso do Dominique Wolton: http://bit.ly/i9GYeG
Áudio: A falta de visão histórica no discurso de Dominique Wolton: http://bit.ly/i9GYeG
terça-feira, 16 de novembro de 2010
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