domingo, 14 de abril de 2013

Desigualdade em preto e branco na TV



Avanços tecnológicos no setor de televisão, rádio e telecomunicações não chegam a várias cidades do país

MÔNICA TAVARES (EMAIL · FACEBOOK · TWITTER)
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Alberto Ribeiro, 58, ainda usa TV preto e branco na sua oficina de conserto de aparelhos
Foto: Foto: Hans von Manteuffel / Agência O Globo
Alberto Ribeiro, 58, ainda usa TV preto e branco na sua oficina de conserto de aparelhos Foto: Hans von Manteuffel / Agência O Globo
BRASÍLIA E RECIFE — As mudanças na legislação nos setores de rádio, TV e telecomunicações, aliadas ao avanço da convergência digital, terão grande impacto no dia a dia dos consumidores e das empresas nos próximos anos. Mas ainda há grandes barreiras regionais e tecnológicas para que as mudanças cheguem ao conjunto da sociedade, pois enquanto o governo trabalha para antecipar a universalização da TV digital no país, uma parte da população ainda nem consegue ver a “telinha” colorida.
Até 2009, cerca de 4,7% dos domicílios brasileiros da área urbana e rural contavam apenas com TV em preto e branco. Este percentual era ainda maior nas regiões Norte e Nordeste. No Norte, 9,5% das residências não tinham televisão colorida e no Piauí (NE) esse percentual chegava a 14,8%. No estudo inédito “Tudo o que você precisa saber sobre rádio e televisão — licenças, outorgas, taxa de penetração, receitas e receptores”, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) traça um panorama da radiofusão no país. O estudo revela que, nos estados do Nordeste, por exemplo, as disparidades ainda são muito grandes no acesso à televisão.
Do total de 107 milhões de aparelhos de TV em funcionamento no Brasil no fim de 2012, apenas cerca de 15%, ou 16 milhões, tinham acesso digital (com conversor embutido ou setup box). São vendidos por ano no país cerca de 15 milhões (14%) de aparelhos de TV. Isso significa que, sem incentivo, todos os equipamentos só serão renovados em 2020. Embora os números revelem que nas dez maiores regiões metropolitanas do país a TV está em 98,4% dos lares, segundo os últimos dados da PNAD/IBGE, ela ainda não chegou a cerca de 15% dos domicílios do Piauí, e quase 13% dos de Tocantins.
O governo quer que até meados de 2016 a TV digital esteja totalmente implementada nos 885 maiores municípios do país. Nestas cidades moram cerca de cem milhões de pessoas. O acesso às novas tecnologias não é problema em cidades com renda per capita alta, como Brasília. No sítio onde mora nos arredores da capital, o administrador de empresas Eli Valter Gil Filho aponta a sala de TV como seu cantinho predileto. O home theater não tem cabos. Um único aparelho lê Blu-Ray e DVDs e comanda a distribuição do som. Ele ainda pode ver filmes salvos em pendrives. E pode assisti-los em 3D.
— Acompanho os lançamentos, mas tenho a consciência de que os fabricantes têm coisas guardadas e ficam esperando a gente comprar o que está nas lojas para mostrarem as novidades — disse.
Há poucas emissoras no país
Nas cidades menores, o governo pretende prorrogar o prazo para a transição do sistema analógico para o digital até 2018. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, informou que está em avaliação a possibilidade de concessão de subsídio ou mesmo doação de conversores para que a TV analógica possa captar o sinal digital. Esses equipamentos seriam doados para a população carente ou para as famílias cadastradas no Bolsa Família.
As dificuldades para que esses avanços se concretizem são muitas. Uma delas é o número de emissoras no país, muito menor do que o seu potencial, segundo a Abert. Até o fim de 2011, o país contava com 514 emissoras de TV licenciadas pelo Ministério das Comunicações, sendo 311 comerciais e 203 educativas. Para a associação, há um déficit no país de cerca de mil geradoras de televisão, que poderiam ser instaladas em cidades menores.
Com base na receita do setor publicitário, a estimativa dos radiodifusores é de que num município com cem mil habitantes, por exemplo, podem funcionar duas geradoras de TV. Para a instalação de uma emissora deste porte são necessários cerca de R$ 2,5 milhões em investimentos. Estes financiamentos estão disponíveis no BNDES ou no Banco do Brasil. Uma das grandes dificuldades, porém, é que nos últimos anos não foram abertas licitações para novas emissoras.
Em cerca de 20% das cidades brasileiras não há estação retransmissora de televisão (RTV). Para ter acesso à programação, a população usa antenas parabólicas. A Abert estima que, dos 22 milhões de domicílios que têm antenas parabólicas, dez milhões de domicílios têm apenas este recurso para acessar a TV aberta por estarem situados em zonas rurais ou em municípios que não têm sinal de RTV. Em 2012, havia cerca de dez mil retransmissoras e repetidoras no país. (Colaborou Gabriela Valente)

Imprensa livre sob ameaça na América Latina


Na Argentina, Equador e Venezuela, há pressão. No México, assassinatos
RIO — A liberdade de imprensa está sob ameaça constante em países da América Latina. Seja por causa de governantes que tentam chantagear veículos de comunicação impondo restrições à publicidade ou mesmo propondo a criação de órgãos e leis que visam a controlar a mídia, seja por meio de cartéis de narcotraficantes que executam repórteres e editores que expuseram (ou não) os meandros desses negócios criminosos.
O assunto foi discutido no encontro do Grupo de Diarios América (GDA), cujos representantes estiveram no Rio durante a semana passada para debater os rumos do setor de mídia e da organização, que reúne jornais de veículos de 11 países da região, incluindo O GLOBO.
Em três desses países, as restrições ao trabalho da imprensa são flagrantes. Na Argentina, segundo Luis Saguier, diretor-executivo do diário “La Nación”, o governo da presidente Cristina Kirchner “não tolera qualquer tipo de crítica” e busca atingir a mídia independente proibindo as principais cadeias de supermercado de anunciar nos jornais para reduzir receitas desses grupos.
No México, segundo Roberto Rock, diretor-editorial do “El Universal”, os frequentes assassinatos de jornalistas impuseram um clima de medo em que a principal ameaça à liberdade de expressão é a autocensura. O país já perdeu uma centena de jornalistas na última década, vítimas de traficantes de drogas que se vingaram depois que detalhes de seus cartéis criminosos foram revelados.
Segundo Marco Arauz, subdiretor-geral do “El Comercio”, o personalismo do presidente equatoriano Rafael Correa criou um clima de permanente tensão entre governo e mídia. A situação pode piorar com a proposta de criação de um conselho que terá o poder de aplicar sanções contra conteúdo publicado por veículos de imprensa. Até autoridades são proibidas de dar entrevistas e, a exemplo de Hugo Chávez, Correa fala horas na TV.

Mais de três mil cidades sem acesso a notícias e propaganda

  • Estudo revela que cresce no país a atuação de rádios comunitárias
BRASÍLIA E RECIFE — Coordenado pelo economista Luis Roberto Antonik, diretor-geral da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert), o estudo “Tudo o que você precisa saber sobre rádio e televisão — licenças, outorgas, taxa de penetração, receitas e receptores” revela que 3.350 municípios do país não têm rádio comercial. Isso prejudica a população local em vários aspectos, especialmente na falta de acesso à propaganda política partidária local e a notícias. Para os empresários dessas localidades, a carência impede que tenham acesso à publicidade.
O estudo confirma que o serviço de rádio comunitária vem crescendo muito desde que foi instituído. No último dia 4 de março, o Ministério das Comunicações publicou um aviso de habilitação para autorizar a abertura de novas rádios comunitárias em 75 municípios brasileiros que ainda não contam com qualquer emissora desse tipo nos estados de Piauí, Paraíba, Goiás, Tocantins, Alagoas, Rio Grande do Norte, Bahia e Maranhão. No ano passado, 719 municípios foram contemplados com o serviço e neste ano serão atendidas mais 706 cidades. O ministério diz que a meta do governo é dar condições para que todos os municípios brasileiros tenham pelo menos uma rádio comunitária até o fim de 2013.
Cada vez mais rara, a TV em preto e branco ainda é a principal distração do pernambucano Alberto Jorge Alves Ribeiro, de 58 anos, que mantém um pequeno comércio na chamada Favela do Papelão, comunidade no bairro São José, em Recife. Cercado de vizinhos muito pobres, mas que já conseguiram comprar modelos recentes e mais sofisticados de TV, Alberto passa o dia em sua pequena oficina, onde também vende refrigerantes e alimentos industrializados, como bolachas e balas. A TV é usada para matar o tempo, assistir a algum programa interessante, sobretudo os dedicados a assuntos policiais locais. É a sua principal companheira, enquanto aguarda a chegada de algum cliente, e ele se queixa do aparelho defasado:
— Eu me acostumei com TV em preto e branco. Era assim, quando nasci. A cores é melhor, até que gostaria de ter uma bonita e grande, mas ela nem caberia aqui — diz Alberto. — Por enquanto a minha velhinha, em preto e branco, ainda quebra muito o galho.
Pelo menos 50% dos 184 municípios pernambucanos não possuem emissoras de rádio comerciais em suas sedes, revela a Associação de Rádios Comunitárias de Pernambuco. Segundo o presidente da entidade, José Rufino da Silva, são 300 no estado, das quais cerca de 180 têm concessão do governo. Em Itapetim, a 421 quilômetros de Recife, as notícias da cidade eram divulgadas pelos alto falantes da igreja católica, a “rádio” informal Pedras Soltas, que agora já é reconhecida pelo governo e se orgulha de prestar serviços à comunidade, divulgando notícias que interessam à cidade.
— Os assuntos locais são os mais solicitados — afirma Erivan Rubens, diretor e um dos fundadores da Pedras Soltas. (Mônica Tavares e Letícia Lins)

Desigualdade em preto e branco na TV

  • Avanços tecnológicos no setor de televisão, rádio e telecomunicações não chegam a várias cidades do país

  • MÔNICA TAVARES


Alberto Ribeiro, 58, ainda usa TV preto e branco na sua oficina de conserto de aparelhos
Foto: Foto: Hans von Manteuffel / Agência O Globo
Alberto Ribeiro, 58, ainda usa TV preto e branco na sua oficina de conserto de aparelhos Foto: Hans von Manteuffel / Agência O Globo
BRASÍLIA E RECIFE — As mudanças na legislação nos setores de rádio, TV e telecomunicações, aliadas ao avanço da convergência digital, terão grande impacto no dia a dia dos consumidores e das empresas nos próximos anos. Mas ainda há grandes barreiras regionais e tecnológicas para que as mudanças cheguem ao conjunto da sociedade, pois enquanto o governo trabalha para antecipar a universalização da TV digital no país, uma parte da população ainda nem consegue ver a “telinha” colorida.
Até 2009, cerca de 4,7% dos domicílios brasileiros da área urbana e rural contavam apenas com TV em preto e branco. Este percentual era ainda maior nas regiões Norte e Nordeste. No Norte, 9,5% das residências não tinham televisão colorida e no Piauí (NE) esse percentual chegava a 14,8%. No estudo inédito “Tudo o que você precisa saber sobre rádio e televisão — licenças, outorgas, taxa de penetração, receitas e receptores”, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) traça um panorama da radiofusão no país. O estudo revela que, nos estados do Nordeste, por exemplo, as disparidades ainda são muito grandes no acesso à televisão.
Do total de 107 milhões de aparelhos de TV em funcionamento no Brasil no fim de 2012, apenas cerca de 15%, ou 16 milhões, tinham acesso digital (com conversor embutido ou setup box). São vendidos por ano no país cerca de 15 milhões (14%) de aparelhos de TV. Isso significa que, sem incentivo, todos os equipamentos só serão renovados em 2020. Embora os números revelem que nas dez maiores regiões metropolitanas do país a TV está em 98,4% dos lares, segundo os últimos dados da PNAD/IBGE, ela ainda não chegou a cerca de 15% dos domicílios do Piauí, e quase 13% dos de Tocantins.
O governo quer que até meados de 2016 a TV digital esteja totalmente implementada nos 885 maiores municípios do país. Nestas cidades moram cerca de cem milhões de pessoas. O acesso às novas tecnologias não é problema em cidades com renda per capita alta, como Brasília. No sítio onde mora nos arredores da capital, o administrador de empresas Eli Valter Gil Filho aponta a sala de TV como seu cantinho predileto. O home theater não tem cabos. Um único aparelho lê Blu-Ray e DVDs e comanda a distribuição do som. Ele ainda pode ver filmes salvos em pendrives. E pode assisti-los em 3D.
— Acompanho os lançamentos, mas tenho a consciência de que os fabricantes têm coisas guardadas e ficam esperando a gente comprar o que está nas lojas para mostrarem as novidades — disse.
Há poucas emissoras no país
Nas cidades menores, o governo pretende prorrogar o prazo para a transição do sistema analógico para o digital até 2018. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, informou que está em avaliação a possibilidade de concessão de subsídio ou mesmo doação de conversores para que a TV analógica possa captar o sinal digital. Esses equipamentos seriam doados para a população carente ou para as famílias cadastradas no Bolsa Família.
As dificuldades para que esses avanços se concretizem são muitas. Uma delas é o número de emissoras no país, muito menor do que o seu potencial, segundo a Abert. Até o fim de 2011, o país contava com 514 emissoras de TV licenciadas pelo Ministério das Comunicações, sendo 311 comerciais e 203 educativas. Para a associação, há um déficit no país de cerca de mil geradoras de televisão, que poderiam ser instaladas em cidades menores.
Com base na receita do setor publicitário, a estimativa dos radiodifusores é de que num município com cem mil habitantes, por exemplo, podem funcionar duas geradoras de TV. Para a instalação de uma emissora deste porte são necessários cerca de R$ 2,5 milhões em investimentos. Estes financiamentos estão disponíveis no BNDES ou no Banco do Brasil. Uma das grandes dificuldades, porém, é que nos últimos anos não foram abertas licitações para novas emissoras.
Em cerca de 20% das cidades brasileiras não há estação retransmissora de televisão (RTV). Para ter acesso à programação, a população usa antenas parabólicas. A Abert estima que, dos 22 milhões de domicílios que têm antenas parabólicas, dez milhões de domicílios têm apenas este recurso para acessar a TV aberta por estarem situados em zonas rurais ou em municípios que não têm sinal de RTV. Em 2012, havia cerca de dez mil retransmissoras e repetidoras no país. (Colaborou Gabriela Valente)

domingo, 7 de abril de 2013

Vine. A nova aposta do Twitter: vídeos de seis segundos

  • Em três meses, Vine já é o aplicativo de clipes mais usado nos EUA
SÉRGIO MAGGI

Empresas aproveitam a rede social para divulgar produtos. Trailer de Wolwerine foi anunciado pelo Vine
Foto: Reprodução
Empresas aproveitam a rede social para divulgar produtos. Trailer de Wolwerine foi anunciado pelo Vine Reprodução
RIO — Seis segundos não são suficientes para o homem mais rápido do mundo percorrer 100 metros (o recorde mundial de Usain Bolt é de 9,58s). Mas o Twitter acredita que seja tempo bastante para se passar uma mensagem em vídeo. A empresa lançou em janeiro o Vine, um aplicativo que permite produzir vídeos com a duração máxima dos tais 6 segundos e compartilhar na rede. O funcionamento lembra muito o de uma imagem animada do tipo GIF: eles se repetem infinitamente. A grande diferença é que no Vine, os vídeos têm áudio. Apesar do aplicativo estar disponível apenas para iPhone e iPad — a empresa promete em breve uma versão para Android — os vídeos podem ser compartilhados com qualquer pessoa, através do Twitter ou Facebook.
A empresa responsável pelo Vine foi comprada pelo Twitter no ano passado por apostar na mesma filosofia do microblog: “restrição inspira a criatividade, seja através de um tweet de 140 caracteres ou seis segundos de vídeo”.
— Os vídeos do Vine têm tudo a ver com abreviação, a versão curta de algo maior. São pequenas janelas que nos permitem ver as pessoas, ideias e objetos que compõem sua vida — descreve Dom Hofmann, cofundador do Vine.
Outro motivo da aposta foi a facilidade para se produzir e publicar os vídeos. Assim como o Instagram permite fotos com sofisticados filtros com um simples toque na tela, para gravar um microvídeo basta pressionar o dedo sobre a tela do smartphone ou do tablet e deixar que o aparelho capte as imagens. Não existe o botão REC. Ao levantar o dedo, a gravação é pausada momentaneamente, o que permite criar uma narrativa com várias cenas, sem um programa de edição de vídeos.
— Assim como o Twitter, queremos tornar mais fácil para as pessoas se juntarem para compartilhar e descobrir o que acontece no mundo. — explica Dick Costolo, presidente do Twitter.
Empresas descobrem potencial da rede
Essa facilidade de produzir os vídeos fez com que o Vine caísse no gosto dos americanos. Segundo o instituto Onavo Insights, que rastreia o uso de aplicativos nos EUA, no final de fevereiro, o novo produto do Twitter já era utilizado em 2,66% de todos os aparelhos da Apple nos EUA, ultrapassando outros aplicativos de compartilhamento de vídeos. O Cinemagram era usado em 1,07% dos aparelhos com iOS, enquanto o SocialCam aparecia com 0,50% e o Viddy, com 0,31%.
O Vine ficou ainda mais popular em março. No dia 25, dois dias antes do lançamento do trailer completo, um teaser do filme “Wolverine – imortal” foi apresentado na rede social. A estratégia deve virar uma tendência para o lançamento de filmes, programas de TV e videogames.
Grandes empresas estão descobrindo que seis segundos podem ser tempo suficiente para divulgar suas marcas. Gigantes como a General Electric, a rede de farmácias Walgreens e a loja de roupas online ASOS já produzem e divulgam seus microvídeos no aplicativo.
Como o Twitter, o Vine mostrou a sua importância para o jornalismo. Quando a Quinta Avenida, em Nova York, foi fechada após o estouro de um cano de água, segundos depois as primeiras imagens já tinham sido publicadas pelos usuários do aplicativo. Bem antes das autoridades de San Francisco explicarem porque os trens tinham parado de funcionar, o vídeo de um trem quebrado em um das estações já circulava no Vine. As imagens foram logo usadas por redes de TV locais. E no começo de fevereiro, quando um atentado suicida atingiu a embaixada americana na Turquia, o jornalista Tulin Daloglu, do site Al Monitor, imediatamente publicou as primeiras imagens do local atingido na ferramenta.
Pornografia é problema
O Vine, porém, é afetado por um problema que assola a internet: a pornografia. Muitos usuários sobem vídeos em que aparecem nus ou com conteúdo explícito. Dois dias após o lançamento, um desses vídeos apareceu na página principal do aplicativo, o que levou o Twitter a bloquear a pesquisa por tags com termos pornográficos, como #porn e #sex. E implantar um sistema para os usuários denunciarem vídeos impróprios. As publicações marcadas ganham uma mensagem de aviso antes de serem reproduzidas. Dependendo do conteúdo, o usuário pode ser banido da rede.
Além disso, o aplicativo virou alvo na disputa entre o Twitter e o Facebook. A rede social de Mark Zuckberg bloqueou o acesso do Vine à funcionalidade que permite adicionar os amigos do Facebook. Em julho de 2012, o microblog tinha feito o mesmo bloqueio contra o Instagram, que pertence ao Facebook.
Muita gente pode torcer o nariz e achar que vídeos de seis segundos são bobagens. Mas foi exatamente o que se pensou sobre mensagens limitadas a 140 caracteres, quando o Twitter apareceu.

sábado, 6 de abril de 2013

Assim se passaram 40 anos



Coluna de Cora Rónai
Em 03 de abril de 1973, Martin Cooper fez a primeira ligação de celular da História
Se um habitante de 1973 entrasse numa máquina do tempo e viesse dar uma voltinha em 2013, encontraria um mundo relativamente parecido com o que conhecia. Não temos os carros voadores dos Jetsons, não colonizamos a Lua, não nos teletransportamos, não temos robôs fazendo o serviço de casa. O que este ser do passado mais estranharia nas ruas, com certeza, seriam as pessoas falando sozinhas de mão na orelha – isso para não falar na ausência de cabines telefônicas e de orelhões, e na onipresença de lojas de operadoras de celulares. Mais tarde, quando tivesse tempo de saber como os telefones móveis estão difundidos, e como transformaram o planeta, custaria a crer que mudança tão radical tivesse ocorrido em apenas 40 anos. Na verdade, mesmo para quem se lembra de como era o mundo há quatro décadas – e eu me lembro – essa evolução é inacreditável.
Em 3 de abril de 1973, Martin Cooper, da Motorola, fez a primeira ligação de celular da História. Ele chamou a imprensa, atravessou a Sexta Avenida, em Nova York, e ligou para Joel Engel, do Bell Labs, que estava trabalhando num conceito parecido.
– Joel, aqui é Marty. Estou te ligando de um telefone celular, um celular portátil, de verdade.
Ao contrário de Cooper, Engel apostava as fichas num modelo de celular para carros. Cooper, porém, que havia criado uns aparelhinhos de comunicação para a polícia de Chicago, intuía que o telefone móvel ideal tinha que acompanhar o usuário, aonde quer que ele fosse. Sua inspiração era o comunicador usado pelo Capitão Kirk, de “Star Trek”. Aquele primeiro aparelho, no entanto, estava bem longe do pequeno objeto dourado do capitão: era um tijolão de mais de um quilo, que passou a ser conhecido como the brick , o tijolo (embora se chamasse DynaTAC). Sua bateria durava vinte minutos, e levava dez horas para recarregar.
Na ativa
Foram precisos mais dez anos para que o DynaTAC se transformasse numa proposta viável comercialmente. Ele chegou ao mercado com uma vida de bateria um pouco ampliada (30 minutos de conversa) e preço de US$ 4 mil. Os custos de operação eram igualmente salgados, o que fazia dele um objeto de elite. Um outro modelo, com mais autonomia, vinha com uma bateria parecida com as de filmadoras profissionais, que se carregava a tiracolo. Era perfeitamente ridículo.
O resto é história. E que História! Nunca houve uma tecnologia que fosse aceita tão vasta e rapidamente; nunca houve, tampouco, uma tecnologia que mudasse de tal maneira a forma como interagimos uns com os outros. Um único aparelho, o Nokia 1100, vendeu 250 milhões de unidades (e é, até hoje, o recordista mundial); já existem seis bilhões de celulares. Em pouco tempo, teremos mais telefones do que pessoas sobre a face da terra.
Não há ramo da atividade humana que não tenha sido afetado pelos celulares. O impacto da telecomunicação universal é maior do que jamais teríamos imaginado: em países do terceiro mundo que nunca chegaram a ter linhas fixas, o PIB cresceu quando os celulares alcançaram a população.
Até a forma como contamos histórias mudou diante da nova realidade: acabaram os enredos em que a distância mantinha as pessoas desinformadas sobre os destinos umas das outras, e em que as notícias chegavam por cartas e telegramas.
Ninguém pode prever o que vai acontecer nos próximos 40 anos. Fala-se em mais video, em maior rapidez de conexão com a internet, em comunicação entre celulares e eletrodomésticos e máquinas de venda. A verdade, porém, é que tudo isso é detalhe diante da grande revolução que já aconteceu.
Ah, sim: Martin Cooper está vivo e bem. Aos 84 anos, continua dando expediente no Vale do Silício. Ele é casado com Arlene Harris, uma das inventoras do sistema pré-pago e primeira mulher a integrar o Wireless Hall of Fame. Que dupla!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Traição na Web


Por Arthur Dapieve

No varejo, a internet nunca deixou de ser o que sonhamos: iluminadora e subversiva

Não, calma, não é nada disso que você está pensando. Não me conectei ontem. No final dos anos 1980, o “Jornal do Brasil” começou a implantar computadores na redação, a princípio como meros processadores de texto. No “Caderno B”, só havia três máquinas. Uma estava comigo. No começo dos 1990, os editores do GLOBO fizeram um curso sobre a então nascente World Wide Web no Departamento de Informática da PUC-Rio. Eu era um deles. Entre 2000 e 2002, trabalhei no primeiro grande site jornalístico independente do país, o “NoPonto”, no qual eu tinha um blog em que indicava e comentava brevemente textos interessantes disponíveis na internet.
Talvez por causa dessa estrada eu não sofra nem de um deslumbramento acrítico com as possibilidades da internet — que, sim, são infinitas — nem muito menos caia no consumo conspícuo dos novos produtos da indústria de alta tecnologia — que também parecem inesgotáveis. Na verdade, tais comportamentos me incomodam. Conversando ali, trocando e-mails aqui, percebi que meu desconforto não é incomum entre quem trabalha ou no ou com o ramo desde “as antigas”. As coisas tomaram um rumo que, por inexperiência, não prevíamos e nem queríamos. Ficou a sensação de que fomos traídos.
Acho que a minha ficha só começou a cair há quase dois anos, quando morreu Steve Jobs, um dos fundadores da Apple. Admito que fui surpreendido quando seu desaparecimento precoce foi lamentado não apenas como a perda do visionário (que ele era) como também o martírio de um santo (que ele nunca foi). Para mim, fazia tanto sentido depositar flores na porta da sua empresa quanto teria sido fazer uma vigília na frente da Ford quando o velho Henry Ford bateu as botas em 1947. Ambos foram capitalistas inovadores, certo, mas mesmo assim capitalistas em busca do máximo lucro.
Não entenda mal. Não demonizo nem a Apple nem o lucro: espanta-me é que Jobs tenha posado, com sucesso, como uma espécie de homem santo budista. As suas lojas no exterior parecem templos erigidos à tecnologia. Os sacerdotes não raspam a cabeça nem se vestem de laranja, são uns cabeludos de camiseta azul. Para não quebrar o clima, o pagamento é disfarçado. Na hora de passar o cartão de crédito, forma-se uma fila diante do “sumo sacerdote” com uma máquina na mão. Atendido o último da fila, ela some no ar. Não há balcão nem máquinas registradoras. Como se a experiência fosse gratuita (está longe de ser). O materialismo nunca foi tão espiritual.
De modo análogo, acho curioso que milhões de pessoas percam horas de lazer voluntariamente produzindo de graça conteúdo para o Facebook, conteúdo que será embolsado por Mark Zuckerberg mais cedo ou mais tarde. Claro, a sua rede social é útil, mas meu tênis me é bastante útil, e nem por isso eu quero, em gratidão, passar meus dias como escravo numa fábrica do Sudeste asiático. Exagero, claro. Exagero porque acho insólito um empresário conseguir que os consumidores trabalhem gratuitamente para ele e até proclamem “quem não está no Facebook, não existe”. Bem, eu não existo, mas tenho uma camiseta na qual se lê “No, I’m not in the f*#$%g Facebook”.
A internet abriga coisas maravilhosas — como a Wikipedia, enciclopédia colaborativa que acerta tanto quanto “Britânica”, mas que está passando o pires entre seus usuários para poder sobreviver, ou como o Renê Silva, que desde garoto cobre o Complexo do Alemão por dentro — e abriga coisas terríveis. Possivelmente minoritárias, estas são populares e galvanizam a web com o “lado sombrio da força”.
Lá atrás, no século passado, achávamos que o velho projeto acadêmico de troca livre de informações seria a cura para a ignorância, desconcentrando o acesso ao saber e, portanto, ao poder. Éramos, vejo hoje, uns tolinhos imaginando que o mundo digital se descolaria das mazelas do mundo terreno e criaria um paraíso ciberespacial.
No varejo, a internet nunca deixou de ser o que sonhamos: iluminadora e subversiva. No atacado, no entanto, ela se concentra em torno de uma dúzia de sites — e de ainda menos empresas de tecnologia de ponta que lhes dão acesso de onde quer que nos encontremos — e ajuda a espalhar a futilidade, a ignorância e a intolerância. Logo o que, na origem, imaginávamos que ela fosse combater. Quem já se deu à pachorra de ler comentários imoderados embaixo de qualquer texto ou tema minimamente polêmico ou seguir um debate típico no Twitter sabe quão baixo o nível pode descer. Aí a internet vira o gramado no qual o lateral do Madureira aplaude a expulsão do Seedorf.
Não, não me tornei um ludista tardio. Tenho e-reader e uso o computador na média mundial, inclusive para me escangalhar de rir. Porém, a própria dinâmica de um mundo no qual — mais do que nunca na História — “tudo o que é sólido desmancha no ar” dificulta o surgimento de um Marx, de alguém que reflita consistentemente sobre o atual estágio do capitalismo, o tecnológico, e da luta de claques, quer dizer, de classes.