segunda-feira, 9 de abril de 2012

Shows geram R$ 57 milhões em direitos autorais no Brasil


Arrecadação com apresentações teve um aumento de 36,4% em 2011, segundo Ecad


RIO - O aumento de shows — nacionais e internacionais — no Brasil teve consequências no mercado de direito autoral. Em 2011, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), órgão responsável pelo recolhimento e pagamento de direitos musicais no Brasil, contabilizou um crescimento de 36,4% na arrecadação com shows em comparação com 2010. O resultado, de acordo com o Ecad, teve como consequência a distribuição de R$ 57 milhões de direitos autorais para os compositores por shows.Contabilizando todos os segmentos em que o escritório atua, como TVs, rádios e internet, o Ecad distribuiu R$ 411,8 milhões a 92.650 compositores em 2011. No caso dos shows, o órgão aponta a realização de grandes concertos como os de Paul McCartney, U2, Eric Clapton, Justin Bieber, Amy Winehouse, Pearl Jam, Britney Spears e do festival Rock in Rio como fator preponderante para justificar o crescimento.
— Desde 2009, mais shows têm vindo ao Brasil. É uma soma de moeda forte e crise global que permite essa situação — diz Mario Sérgio Campos, gerente executivo de Distribuição do Ecad. — Além disso, a gente começou, no fim de 2010, um projeto para ampliar as gravações de shows. Em eventos grandes, é fácil checar que músicas foram realmente executadas, mas, em apresentações menores, nem sempre os promotores dos shows informam corretamente a lista. Por isso, aumentamos em mais de 600% a quantidade de gravações. Depois, temos funcionários que ouvem e conferem as músicas. É uma forma de se dar mais segurança. Quanto mais grava$ções fizermos, melhor será a qualidade da distribuição.
A boa arrecadação de 2011 deve refletir na distribuição deste ano. O Ecad fecha os balanços e faz os pagamentos referentes a shows a cada três meses, o que significa que os direitos autorais referentes às apresentações do fim do ano passado só chegaram aos titulares neste ano. Mario Sérgio Campos acrescenta, ainda, que é intenção do escritório lançar uma campanha entre os produtores de eventos para conscientização.
— Infelizmente, a gente ainda sofre resistência por parte de alguns promotores de shows. O funcionário do Ecad atua devidamente credenciado. Ele tem treinamento, tem toda a informação necessária para gravar o show, tem o roteiro fornecido pelo próprio produtor, mas acontece de não nos permitirem acesso para a gravação. Se o produtor já pagou o direito autoral, por que não podemos entrar para gravar? — diz o gerente do Ecad. — Isso tudo é um entrave. Às vezes, nós deslocamos uma pessoa para um local, ela é impedida de fazer a gravação e temos um dia perdido. Há situações em que compramos o ingresso para não perder o show.
Sorocaba lidera ranking
A lista de autores com maior rendimento em direito autoral com shows no Brasil em 2011 foi liderada por Sorocaba, o compositor paulista que faz dupla com Fernando e escreveu o hit "Meteoro", de Luan Santana. Em seguida, vêm Paul McCartney, John Lennon, Victor Chaves, Thiaguinho, Durval Lelys, Jorge Ben Jor, Carlinhos Brown, Roberto Carlos e Manno Góes. Já a música mais executada em shows, segundo o Ecad, foi "Fugidinha", de Rodriguinho e Thiaguinho.

terça-feira, 27 de março de 2012

Rebobine, por favor

A fita cassete faz 50 anos resistindo à era digital através de pequenos selos, aplicativos e produtos de consumo pop


Carlos Albuquerque
carlos.albuquerque@oglobo.com.br

Uma charge que circula pela internet mostra um walkman de capa e capacete pretos falando para um iPod branco: “I am your father” (Eu sou o seu pai), numa alusão à célebre frase de Darth Vader para Luke
Sywalker no filme “O império contra-ataca”, de George Lucas. A brincadeira ganha um sentido todo especial em 2012, quando a fita cassete completa 50 anos. Enquanto o aparelho criado da Sony parou
de ser produzido no Japão em sua versão original em 2010, a pequena
fita cassete, inventada pela Philips em 1962 e carinhosamente
apelidada de K7, resiste ao seu fim várias vezes anunciado.
Em pleno reinado dos players digitais, ela respira sem a ajuda de
aparelhos, mantendo-se através de pequenos selos no Brasil (como o
mineiro Pug Records) e no exterior, sempre em tiragens
limitadíssimas. Além disso, sua imagem e seu formato ainda inspiram
de aplicativos — como o Stereolizer, que simula um rack de gravação
em cassete — a obras de arte — como as criações da artista americana Erika Iris Simmons, feitas com pedaços de fita —, além de vários
produtos de consumo pop.
— Sou louco por fitas cassete e tenho uma grande coleção que escuto
no toca-fitas que ainda tenho no carro. Meus caronas nem acreditam
quando descobrem isso — garante o cantor americano de folk rock Kurt
Vile, que se apresenta no dia 13 de abril, no Circo Voador, ao lado de
Thurston Moore, do Sonic Youth, autor do livro “Mix tape: The art of
cassette culture”, lançado em 2005. — Quero fazer como os meus
amigos do Dinosaur Jr. e relançar meus discos em cassete. Esse
formato é parte da História da música.
Vile se refere à iniciativa do Dinosaur Jr, um dos mais amados grupos
de rock alternativo dos Estados Unidos, que relançou, no fim do ano
passado, três álbuns no hoje inusitado formato de fitas cassete.
Intitulada “The cassete trilogy”, a caixa, de apenas 500 cópias, trazia
os discos “Dinosaur”, “You’re living all over me” e “Bug”.
Em 2011, outros dois grupos também entraram nessa onda retrô. O
Animal Collective lançou uma fita cassete com quatro músicas inéditas.
O Of Montreal foi mais longe e lançou, em outubro, uma caixa (de
madeira) contendo dez discos da banda em versão cassete. As
iniciativas replicam, de certa forma, uma outra, bem anterior, feita
pelo Radiohead, que, em 1997, quando os CDs já dominavam o
mercado, lançou “Ok Computer” também nesse formato — a fita pode
ser encontrada, ainda hoje, na Amazon.
Dois anos depois, já escasseando nas lojas, a fita cassete foi o meio
encontrado por um grupo brasileiro para se lançar para o estrelato
indie.
— Na época, uma cópia em CD não era tão fácil ainda. Marcelo
(Camelo) e eu colecionávamos fitas-demo das bandas de que
gostávamos; esse era, então, o meio mais natural para a gente lançar
o Los Hermanos — conta Alex Lerner, produtor do grupo. — As fitas
eram feitas manualmente num double-deck lá de casa. Todo o dinheiro
que ganhávamos com a venda era reinvestido na compra de novas TDK
60.
— Lembro que lançamos três fitas: duas com cinco músicas inéditas em
cada e uma coletânea das duas — completa o baterista Rodrigo Barba.
— Eu tenho um 3 em 1 no qual ainda dá para escutar todas essas fitas.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Reedição de discos antigos supera lançamento de inéditos no Brasil


Levantamento mostra que gravadoras consideram o passado menos arriscado que o presente


RIO - A observação atenta dos CDs de artistas brasileiros que chegam ao mercado não deixa dúvidas: o passado é cada vez mais presente. Desde as caixas que reeditam obras completas dos grandes nomes da MPB, passando pelas raridades do samba e das primeiras décadas da canção no Brasil e chegando às pérolas obscuras ou consagradas do rock nacional, a impressão que se tem é que a indústria fonográfica hoje lança mais CDs antigos reeditados do que produtos inéditos. Impressão que se confirma num levantamento feito pelo GLOBO junto a quatro gravadoras (Sony, Universal, Warner e Biscoito Fino), somente levando em conta CDs (DVDs e Blu-Ray não foram considerados) de artistas brasileiros lançados desde janeiro de 2011 — e acrescentando o planejamento até o fim de 2012. A proporção é de 55% de relançamentos contra 45% de lançamentos - uma conta confirmada por executivos da indústria fonográfica.
Há muitas razões para o fenômeno — que se repete em todo o mundo, notam os executivos. Uma delas é levantada por José Celso Guida, diretor executivo da Biscoito Fino — gravadora que investe pouco em relançamentos até por ser jovem, de pouco mais de uma década, e não dispor de um catálogo enorme.
— Para se produzir um CD novo ainda se gasta muito, e o retorno demora e é incerto. Algumas gravadoras podem escolher não ter risco e se capitalizar com produtos antigos — argumenta. — É o momento que estamos passando. É aquela história: durante o nevoeiro, o marinheiro leva o barco devagar. Neste momento de maré baixa, é até prudente investir menos. Há um crescimento no mercado digital, mas no físico não. Quando se fala em crescimento do físico, ele se dá por conta de fenômenos como a Paula Fernandes, não é generalizado.
O aumento da participação no mercado de um consumidor mais exigente, que procura comprar os discos originais, também provocou o fortalecimento das reedições. O momento atual vem sendo alimentado ao longo da última década, quando o formato das coletâneas — que teve um sucesso incontestável nos anos 1990 — entrou em decadência.
— A primeira leva de reedições veio com a chegada do CD — lembra José Eboli, presidente da Universal Music Brasil, traçando um histórico. — Aquela foi uma época áurea para a indústria: com um novo formato, ela começou a vender de novo aqueles discos para as pessoas que já os tinham. Depois veio a fase das séries de coletâneas, como "Millennium", "Personalidade", cada gravadora tinha as suas. Isso foi explorado à exaustão, e os clientes passaram a recusar porque era sempre mais do mesmo. Às vezes, um mesmo artista tinha coletâneas parecidas lançadas por gravadoras diferentes, era confuso. Com a fonte das séries secando, começaram os relançamentos mais bem produzidos. Aí entrou o trabalho dos pesquisadores especializados, para valorizar esses produtos com um olhar diferente, o levantamento de raridades.
Pesquisadores como Charles Gavin, Rodrigo Faour e Marcelo Fróes estão por trás de várias reedições, em parcerias com as majors. Com seu selo Discobertas, Fróes é um dos responsáveis, talvez o maior na esfera independente, pela atual enxurrada de relançamentos. Só de 2011 para cá, ele pôs nas lojas (em caixas ou em CDs avulsos) artistas como Celly Campello, Zimbo Trio, Ed Lincoln, Moreira da Silva, Xangô da Mangueira e Candeia. Outra independente que procura valorizar os arquivos da música brasileira é a Joia Moderna, do DJ Zé Pedro. Ela já relançou CDs de Vanusa, Lecy Brandão e Edy Star, entre outros.
A tendência não parece dar mostras de enfraquecimento em 2012. Há produtos fortes no planejamento das gravadoras: o relançamento de "Transa", de Caetano Veloso, e de uma caixa com a discografia de Chico (ambos na Universal); a reedição da obra de Luiz Gonzaga (Sony); a coleção completa de álbuns dos Titãs (Warner). Em todos os casos, o material traz bônus, algo que Sergio Affonso Fernandes, presidente da Warner Music Brasil, chama de "aprofundamento do olhar sobre o catálogo".
— As edições dos Titãs serão especiais — adianta Sergio Affonso. — Teremos uma totalmente inédita do "Cabeça dinossauro", por exemplo.
iTunes: novo olhar sobre os catálogos
Há uma força simbólica no fato de haver mais relançamentos que lançamentos no mercado da música brasileira. Mais do que isso, nota o diretor da Biscoito Fino:
— Relançamento demais é estagnação. Mas não acredito que seja esse o caso com o mercado brasileiro.
O fantasma da estagnação é afastado, explica Eboli, quando se olha a importância das reedições e dos produtos inéditos no faturamento da gravadora:
— A conta mais importante para nós é a do número de vendas. O ideal é que ela esteja dividida com 60% do faturamento de produtos novos e 40% para catálogo. É claro que isso varia, mas se for muito diferente disso, por exemplo o contrário, é preocupante. Porque significa que você não está produzindo hoje o catálogo para o futuro.
O presidente da Warner acrescenta:
— Normalmente, a reedição é para compor venda, não é um produto que faz uma diferença fundamental no faturamento. Mas é claro, se você bota 35 títulos juntos no mercado e cada um vende duas mil unidades, você tem 70 mil discos vendidos, o que é considerável.
Há um dado novo na relação das gravadoras com o catálogo. A chegada do iTunes ao Brasil promete um novo olhar sobre o material que eles possuem em seus arquivos.
— O iTunes te obriga a olhar para o catálogo, porque você tem que digitalizar, disponibilizar tudo. E mexer ali te leva a pensar em novas reedições — nota Sergio Afonso.
Eboli foi avisado pelos diretores da Universal internacional sobre a força do catálogo para o iTunes, mas mesmo assim se surpreendeu.
— Discos como "Elis & Tom" foram top ten — conta.
O digital, aliás, é visto por ele como o possível futuro dos catálogos. O executivo crê que as atuais reedições, como aconteceu com as coletâneas, entrarão em decadência:
— Vai chegar uma hora em que o atual formato de reedições vai se esgotar também. Estamos chegando perto do esgotamento da exploração desse catálogo com produtos físicos.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Internet 4G pode chegar ao Brasil antes da Copa, mas para poucos


  • Redução dos preços só virá com o tempo
  • MÔNICA TAVARES
Publicado: 
 
Atualizado: 
BRASÍLIA — A banda larga móvel de altíssima velocidade (4G), que será licitada em maio, é apontada como um grande avanço da tecnologia, permitindo o acesso a voz e conteúdo multimídia com velocidade dez vezes superior à internet móvel (3G), utilizada hoje nos smartphones e nos tablets. O governo considera fundamental que o serviço 4G esteja funcionando durante os grandes eventos esportivos, principalmente na Copa do Mundo, mas esse novo sistema está muito longe de transformar o dia a dia da maioria dos brasileiros, que usam celulares pré-pagos como instrumento de trabalho e em substituição ao telefone fixo.
Para a consultora jurídica da ProTeste, Flavia Lefèvre, os grandes beneficiários do 4G serão as empresas e as classes A e B. As demais camadas da população não terão acesso ao serviço 4G — que permite acessar, além de voz, chamadas de vídeo, conteúdo multimídia, jogos e navegação com grande rapidez — porque os preços serão muito altos.
— O pequeno consumidor mal fala no celular. A média da recarga do cartão do celular é de R$ 5 — destaca.
O ex-ministro das Comunicações Juarez Quadros, sócio-diretor da Orion Consultores, tem a mesma opinião. O típico usuário do serviço será quem tem conta pós-paga, de maior poder aquisitivo, e o mercado corporativo. Para a grande maioria da sociedade, a internet 4G não terá qualquer influência, admite. Entretanto, Quadros não descarta totalmente a possibilidade de o serviço 3G ficar mais barato, por uma questão de concorrência. Os consumidores que usam esse serviço hoje devem migrar para o 4G, mas ele não se arrisca a fazer qualquer projeção de queda de preço.
— O preço do serviço 4G chegará alto ao país, e os aparelhos também serão mais caros (entre R$ 1.500 a R$ 1.800) — destaca o vice-presidente da Anatel, Jarbas Valente.
Ele acredita que haverá uma contrapartida para as classes menos favorecidas, porque o preço da assinatura mensal do pacote 3G (voz e dados), hoje em torno de R$ 60, terá uma queda de 50% até 2014 com a implantação da tecnologia 4G.
Redução dos preços só virá com o tempo
Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, aposta que, com o tempo e maior volume de vendas, os preços da nova tecnologia cairão, inclusive para pacote de serviços que será oferecido pelas operadoras. Tude destaca que hoje já existem planos pré-pagos 3G bem baratos, na base de R$ 0,50 por dia.
Para ele, o serviço 4G terá um papel importante para o sistema de banda larga móvel no país, porque, além de aumentar a velocidade, ajudará a descongestionar as redes 3G utilizadas pela maioria dos internautas. A banda larga móvel cresceu 99,3% no ano passado frente a 2010, com mais 20,5 milhões de novos acessos.
A licitação da faixa de frequência 2,5 gigahertz (GHz), que será usada para o serviço 4G, está prevista para maio, com edital lançado em abril. Uma das principais exigências é que as sedes da Copa das Confederações e da Copa do Mundo tenham o serviço até o fim de 2013.
No mesmo edital serão divulgadas as regras para a licitação da faixa de 450 MHz, que levará a banda larga para a área rural. Neste caso, a empresa que ofertar o menor preço ao consumidor vencerá o leilão. A Anatel espera que o valor fique em torno de R$ 60 mensais para os serviços de voz e dados, mesmo preço praticado em áreas urbanas. Cerca de 8,3 milhões de pessoas vivem em área rural.
Os moradores das grandes cidades serão os primeiros a desfrutar da tecnologia 4G. O novo sistema vai reforçar as comunicações de voz e dados, principalmente nas regiões metropolitanas, onde a rede 3G está congestionada. Mas o funcionamento do serviço depende da instalação de muitas torres e estações, o que exigirá grandes investimentos por parte das operadoras.
Ex-diretor da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o professor José Leite Pereira Filho explica que a frequência de 2,5 GHz é considerada muito alta, por isso a necessidade de reforçar a rede no Rio e em São Paulo:
— A velocidade cai onde há muita gente conectada.
Para criar competição no leilão da tecnologia 4G, o governo quer atrair cinco empresas que já operam no país com o sistema 3G: Sky, Vivo, Oi, Claro e Nextel. Mas grupos estrangeiros também poderão explorar o serviço. Os principais fornecedores de equipamentos são Ericsson, Nokia-Siemens, Huawei e ZTE.
O governo estuda oferecer à população de baixa renda uma internet móvel com preço acessível, mas o programa apelidado de “Banda Larga no Bolso” ainda não tem nenhuma perspectiva de ser implantado. Pelas previsões, o projeto não será concluído antes de um ano.
Para obter uma redução significativa no valor do serviço, o governo teria de abrir mão de parte dos tributos recolhidos pelas empresas. A proposta é que estas fiquem isentas dos tributos, mas reduzam as tarifas para os usuários.
Colaboração: Guilherme Matos (2IA)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Novas percepções do mundo digital



Prosa e Verso, 11/02/21012

 Livros discutem mudanças cognitivas, econômicas e políticas provocadas pela comunicação fragmentária da web


"Eu costumava mergulhar em um livro ou artigo extenso”, escreve Nicholas Carr nas primeiras páginas de “A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros” (Agir, tradução de Mônica Gagliotti Fortunato Friaça), recém-lançado no Brasil. “Passava horas percorrendo longos trechos de prosa. Agora, raramente isso acontece. Minha concentração começa a se extraviar depois de uma ou duas páginas”. O livro chega ao país dois anos após seu lançamento nos EUA e quase quatro depois de Carr ter aberto este debate, em agosto de 2008, nas páginas da tradicional revista de ensaios “The Atlantic Monthly”, num artigo de título provocante: “O Google está nos deixando burros?”.
Leia mais: Entrevista com Nicholas Carr, autor de "A geração superficial"

A sensação de que estamos perdendo a capacidade de nos concentrar na leitura de textos de fôlego é desconcertante, quase um embaraço. E a tese de que o crescente hábito de nos informarmos pela internet tem alguma responsabilidade nisso é tão tentadora quanto antiga. Em 1996, Steve Wozniak, o excêntrico cofundador da Apple, falava disso em entrevista a um jovem repórter brasileiro: “meus alunos leem diferentemente de nós”, dizia. Milionário, Woz dedicava longas horas a ensinar pré-adolescentes a usar o computador numa escola pública do Vale do Silício. “Nós lemos de forma linear, uma frase após a outra, uma página após a outra, absorvendo lentamente a informação. A garotada, habituada com o mundo online, é mais eficiente. Lê um trecho, pula para outro, absorve a informação em fragmentos”. 


Entre a democratização e a superficialidade 

O título brasileiro do livro de Carr, “A geração superficial”, pode dar a impressão de que o autor se queixa dessa turma educada num mundo pós-internet. É a tradução que distorce a ideia original. Ele próprio se inclui no pacote de quem vê o próprio cérebro se transformando, embora, nascido em 1959, já estivesse na universidade quando os primeiros computadores criados por Woz saíram da fábrica. Carr, porém, não crê que a leitura fragmentada incentivada pela web seja “mais eficiente”. 

De tanto repetir o bordão “A mídia é a mensagem”, perdemos a ideia que o intelectual pop Marshall McLuhan queria transmitir com a frase. Especialista em literatura medieval, McLuhan chegou ao estudo dos efeitos da mídia intrigado com mudanças que ele próprio via num mundo cada vez mais pós-literário de rádio e TV. Prestamos tanta atenção no conteúdo que chega pelos vários dispositivos e não percebemos que as ferramentas que nos informam afetam mais nossa percepção do mundo do que a própria informação que carregam. O livro impresso pós-Gutenberg organizou o raciocínio, permitiu argumentos complexos nascidos de um longo encadeamento de ideias. Inventou um jeito de pensar que não existia antes. Rádio e TV começavam a inventar outros novos jeitos de pensar. 

Segundo Carr, a web radicaliza o processo. Quando quebramos a linearidade e começamos a juntar cacos nem sempre conexos de informação, ficamos mais superficiais. Inúmeros estudos indicam que o link perturba a concentração. 

Quando um grupo lê um texto de forma linear e outro lê o mesmo texto interligado por hiperlinks, a segunda turma reclama de confusão, umas tantas vezes não consegue lembrar do que leu. E o uso continuado da internet literalmente treina o cérebro a se informar de forma diferente. A exposição contínua à web cria a expectativa de que uma novidade tem que aparecer a cada minuto: clique, clique. O mesmo assunto interminável cria tédio. 

“Ninguém lê ‘Guerra e Paz’”, diz outro intelectual, o professor Clay Shirky, da Universidade de Nova York. “É longo demais e não é tão 
interessante”. Seu libelo contra dois baluartes da cultura literária, Liev Tolstói e Marcel Proust, sugere que supervalorizamos um tipo de cultura em detrimento de outra. Há muito mais na internet que possa nos enriquecer de uma forma distinta. A declaração de Shirky está no livro de Carr, que a considera “teatral demais para ser levada a sério”. Talvez, mas os leitores brasileiros poderão julgar por si mesmos sem o filtro de Carr. “Lá vem todo mundo: o poder de organizar sem organizações”, o mais debatido livro de Shirky, também está chegando ao país, editado pela Zahar (em tradução de Maria Luiza X. de A. Borges). 

Ambos são nomes proeminentes em um intenso debate que vem ocorrendo nos EUA faz pouco menos de uma década a respeito dos efeitos gerados pela internet. Nicholas Carr e Clay Shirky pertencem à classe que os americanos chamam de intelectuais públicos. O próprio McLuhan foi um dos pais fundadores desse grupo. Ao contrário de professores dedicados ao debate protegidos pelas paredes da academia, intelectuais públicos travam suas discussões perante todo mundo. Na tradição acadêmica brasileira, um tanto inspirada pela francesa, textos de intelectuais são muitas vezes intransponíveis. Já britânicos e americanos escrevem bem. Em seu livro, Clay Shirky se debruça sobre o aspecto colaborativo da internet.
Sua tese é de que a informação picada observada por Carr pode ser vista por outro ângulo: é um diálogo ocorrendo simultaneamente em todo o mundo. Esse diálogo não só conecta pessoas como modifica a sociedade de uma forma profunda. Lançado nos EUA em fevereiro de 2008, o livro não incluiu alguns dos melhores exemplos desse fenômeno. Incluam-se na lista a surpreendente eleição de Barack Obama para a presidência e o chacoalhar ainda sem término à vista de ditaduras árabes. 

O Partido Democrata é uma máquina azeitada há décadas. É preciso conhecer os chefetes locais do partido em cada canto, porque são eles que mobilizam eleitores para votar num ou noutro candidato nas primárias. Da mesma forma, é preciso ser íntimo dos simpatizantes mais ricos para conseguir doações que banquem a campanha. Em 2008, estava tudo nas mãos de Hillary Clinton. Usando a internet, Obama mobilizou
'Lá vem todo mundo', livro de Clay Shirky
um público que não pertencia à máquina do partido para votar nas primárias e conseguiu, de centavo em centavo doados pela população em geral, angariar dinheiro suficiente. George W. Bush era tão impopular que qualquer candidato democrata seria eleito presidente. Estava tudo combinado para ter sido Hillary. Foi Obama. 

A internet descentraliza o acesso à informação, facilita diálogos entre pessoas com interesses comuns e, assim, desconstrói centros de poder. Organiza, como sugere o subtítulo do livro, sem a necessidade de organizações. 

Outro dos intelectuais públicos nesse debate, Cass Sunstein, professor de Direito da Universidade de Chicago, vê o fenômeno de Shirky por outro ângulo. Ao facilitar o diálogo entre pessoas com interesses comuns, a internet cria comunidades fechadas. Gente de esquerda só conversa e lê seus pares; gente de direita, idem. O resultado pode ser um embrião de democracia no Egito, mas também um debate cada vez mais radicalizado entre PT e PSDB, Republicanos e Democratas, PSOE e PP na Espanha, Trabalhistas e Conservadores no Reino Unido. Construir pontes entre grupos com opiniões distintas é cada vez mais difícil. Há intolerância no ar. As democracias estão se polarizando. 



Um debate travado em livros e blogs 

Mas não deixa de ser irônico que boa parte deste debate público esteja sendo travado em livros. A Carr e Sunstein, céticos da internet, juntam-se pensadores como um dos pais da realidade virtual, Jaron Lanier, e Andrew Keen. Em seu “O culto do amador” (Zahar), Keen afirma que a mesma criação coletiva defendida por Shirky tem pouca qualidade e, ao ser igualada à produção profissional, ameaça eliminar o modelo econômico que financia qualidade. 

Tampouco Shirky está sozinho. A seu lado estão dois professores da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY), Jeff Jarvis e Jay Rosen, e o diretor de redação da revista “Wired”, Chris Anderson. É Anderson que propõe, em “A cauda longa” e “Free: o futuro dos preços” (ambos da Editora Campus), que um novo modelo econômico pode sustentar tanto a produção profissional quanto a amadora. 

Debates intelectuais à moda antiga, com ambos os lados costurando argumentos muitas vezes intrigantes, muitas vezes novos, em várias páginas de livros, continuam a ocorrer. Assim como ocorrem, também, na internet. O próprio Nicholas Carr é autor de um blog provocador atualizado com frequência, “Rough Type”.

Como diz o rabino da piada após ouvir cauteloso os dois lados, ambos têm razão.

***
Entrevista

Nicholas Carr: ‘Precisamos olhar criticamente a tecnologia’


Autor de ‘A geração superficial’, escritor americano diz que internet estimula ‘uma forma primitiva’ de leitura.
A ansiedade que vivemos hoje sobre os efeitos da internet sobre nossa cognição não é nova. Essa parece ser uma marca de toda grande transformação das tecnologias de informação, ao menos desde o livro impresso (que muitos na época temiam ser uma forma de “diluição” do conhecimento). Como a situação atual se distingue das mudanças tecnológicas do passado? 

NICHOLAS CARR: Toda nova tecnologia importante, se passa a ser amplamente usada, gera tanto euforia quanto ansiedade. Mas o caso da internet é diferente de todos os anteriores, no escopo e na intensidade de seu uso. É a primeira tecnologia de mídia que as pessoas podem carregar o dia todo, usando-a no trabalho, na vida social, para entretenimento e comunicação. Também é a primeira tecnologia de mídia interativa que transmite textos, imagens, sons e filmes, além de rodar softwares e aplicativos. Isso é algo novo no mundo — uma tecnologia que está constantemente influenciando a maneira como pensamos e nos comunicamos. Por isso, precisamos olhar criticamente para essa tecnologia e perguntar: como ela influencia nossos hábitos mentais? Muitas pesquisas sobre mídias digitais mostram que nosso uso da internet tende a nos colocar em um estado de distração perpétua, bombardeado por interrupções constantes. Isso faz com que tenhamos mais dificuldade para nos engajar em pensamentos contemplativos e reflexivos e também para armazenar memórias ricas e ter insights conceituais profundos. Há muitas qualidades na internet — por isso a usamos tanto — mas acredito que ela nos transforma em pensadores mais superficiais. 


Você argumenta que, enquanto o livro impresso originou uma evolução nos hábitos de leitura (da leitura em voz alta para a silenciosa, mais reflexiva), a internet favorece “uma forma mais primitiva de leitura”. Por quê? 

A leitura não é uma habilidade nata nos humanos, como a fala, por exemplo. Temos que aprender a ler, e por isso as ferramentas que usamos para ler vão influenciar a qualidade de nossa leitura. O livro impresso, como tecnologia, nos protege de distrações e foca nossa atenção nas palavras do autor, no argumento ou na história. Estimulando a atenção e a calma, a página impressa encoraja uma forma mais profunda de leitura, na qual somos capazes de usar o máximo de nossa imaginação e nossa habilidade interpretativa para compreender o texto. A tela do computador não tem a calma da página impressa. As palavras do autor são forçadas a competir com outros estímulos que chegam através do computador. O leitor distraído não lê com profundidade; ele passa os olhos no texto, lê na diagonal. A leitura se torna um simples ato de decodificação, em vez de um sofisticado ato de interpretação e imaginação. 


Como essa mudança nos hábitos de leitura pode influenciar a fruição da literatura? 


Com o tempo, a forma como as pessoas leem vai influenciar a forma como escrevem. Acredito que a chegada do livro impresso, criando um grupo muito mais amplo de leitores atentos, encorajou os autores a expandir as fronteiras da literatura, a experimentar novas formas e gêneros, por exemplo. Se a internet e os livros eletrônicos encorajam a leitura distraída, os autores não serão mais capazes de assumir que escrevem para leitores atentos, profundos. Por consequência, acredito que teremos menos experimentação, menos complexidade, menos aventura na escrita. A grande literatura exige não apenas escritores talentosos, mas leitores atentos. 


Em um artigo recente, você diz que as editoras deviam distribuir e-books de graça. Por quê? 

Sugeri isso como uma estratégia de mercado para as editoras. Muitas pessoas com Kindles, Nooks e iPads podem querer comprar o livro impresso, mas vão preferir o e-book para suas máquinas. Se as editoras dessem um exemplar eletrônico junto com o exemplar impresso, isso encorajaria as pessoas a comprar mais livros impressos. Essa estratégia também combateria a Amazon, que, na minha opinião, está ganhando muito poder no mercado editorial.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Luiza para presidente


Guilherme Fiúza, O Globo

Luíza foi ao Canadá para provar que a opinião pública brasileira virou geleia. A frase de um comercial imobiliário na Paraíba que se espalhou pelo Brasil inteiro é um divisor de águas na cultura de massa. Até então, uma mensagem insignificante podia ganhar dimensão pública por contágio. A grande novidade é que, depois de Luíza, o contágio não precisa mais de mensagem. Nem insignificante. Em questão de horas, um país inteiro passou a repetir essas seis palavras: "Menos Luíza, que está no Canadá".

Qual era a charada? Nenhuma. Que código, que sentido subliminar, ou pelo menos que estranheza justificava tão irresistível propagação? Ninguém saberia responder. Mas nem seria preciso resposta, porque ninguém perguntava. O que explicava a repetição era a repetição. O espetáculo da inércia mental nunca tinha sido tão exuberante. Quase meio século atrás, outras seis palavras aparentemente sem sentido se espalharam pelo mundo: "Lucy in the sky with diamonds." A diferença é que John Lennon não estava tentando vender apartamento para emergentes que podem mandar a filha estudar no Canadá. Estava escrevendo um capítulo da contracultura — e Lucy teria despencado do céu em dois minutos se o seu único atrativo fosse uma virose no Twitter.

Na época de Lucy, Luíza não seria nada. No Brasil de hoje, ela poderia ser presidente da República. O furacão Luíza veio expor, de forma quase cruel, a precariedade dos símbolos que o senso comum consagra. A menina real, Luíza Rabello, não tem nada com isso — ou melhor, não tinha. Agora terá, pela importância que o público passou a lhe atribuir a partir de... Nada. Circularam rumores de que Luíza estará na próxima edição do Big Brother. Se ela pensar grande, poderá ir direto para Brasília. E nem precisará de um padrinho popular, que repita seu nome exaustivamente aos quatro ventos. A internet já fez isso por ela, sem precisar de palanque, voz rouca, suor e lágrimas providenciais.

Fora isso, no Brasil de 2012, os requisitos para se estar no BBB ou na Presidência da República são até parecidos. Na Presidência convém falar menos. E, se não tiver nada de relevante a dizer, não tem problema. Basta espalhar no Twitter que Luíza do Canadá é uma grande gestora, que o povo acredita. Mesmo se ela tiver sido apenas uma militante política com passagem opaca por cargos públicos, todos graças a indicações partidárias? Perfeitamente. Os fatos, hoje, são um detalhe. O que o senso comum respeita mesmo é a repetição.

E não se preocupe, Luíza, se você gastar todo o seu primeiro ano de governo enxugando gelo do seu próprio caos administrativo. Mesmo se você bater o recorde de ministros demitidos por acusação de fraude. Aquela imagem da supergerente que sabia o que se passava em todos os ministérios serviu só para te eleger. Agora você é uma paraquedista, recém- chegada do Canadá, pronta para passar o país a limpo com o detergente da ética.

Se a faxina bombar no Twitter, você pode até terminar o seu primeiro ano de mandato com aprovação recorde. Aí você poderá continuar amiga de todos esses ministros que você nomeou e tentou proteger, mesmo depois de acusados de garfar o país. Quando eles caírem de podres, elogie- os publicamente e mantenha as boquinhas com os grupos deles. Ninguém vai notar. "Fisiologismo" não tem a menor chance no Twitter. Enquanto Luíza prepara sua candidatura, poderá aprender um pouco observando o governo atual. Tratase de um governo detalhista. Se a opinião pública acredita nas mensagens que se repetem — e isso já é uma mão na roda — por que não ir além, escolhendo as mensagens que ela deve repetir?
Isso é muito importante, porque a imprensa livre, além de bisbigra lhoteira, se mete em assuntos demais, o que pode confundir a mensagem que o povo precisa ouvir. As manchetes dos últimos seis meses, totalmente descontroladas, quase puseram o governo popular no banco dos réus — com histórias soturnas de uso sistemático da máquina pública para engordar esquemas políticos. Mas os ideólogos do governo não descansarão enquanto não protegerem o país dessas linhas cruzadas da mídia livre. E Luíza está com sorte, porque acaba de ser lançada uma grande ideia, para ela anotar em seu caderno de campanha.

Em discurso no Fórum Social Mundial, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, defendeu a criação de uma mídia para a classe C. "Toda essa gente que emerge ficará à mercê da ideologia disseminada pelos veículos de comunicação existentes?", questionou o ministro, conclamando o governo a "radicalizar a democracia" parindo uma mídia nova. A plateia exultou com a proposta governamental de organizar melhor o que a opinião pública deve assimilar, ou melhor, repetir. Os dias que se seguiram foram de grande excitação entre os companheiros. Todo mundo festejou a ideia. Menos Dilma, que estava em Cuba.