segunda-feira, 22 de outubro de 2012

‘Sempre se infunde medo em nome do bem’, afirma Paul Virilio







A velocidade destrói. Em uma espécie de paradoxo vinculante onde se combinam o progresso e a catástrofe, a velocidade e seu corolário de suportes técnicos interconectaram o mundo ao mesmo tempo que criaram uma perigosa simultaneidade de emoções. Esta é a tese central que, com uma antecipação surpreendente, vem argumentando o urbanista e pensador francês Paul Virilio. Antes que a extrema velocidade da internet se instalasse na vida cotidiana de quase todo o mundo, Paul Virilio intuiu o risco intrínseco no coração dessa hipercomunicação e os desarranjos profundos acarretados pelo desenvolvimento tecnológico e a velocidade.

A férrea crítica que Paul Virilio faz lhe valeu o apelido de “pensador e promotor da catástrofe”. O intelectual francês, filho de um comunista italiano refugiado, entretanto, não nega a validade dos progressos, mas propõe uma espécie de reflexão sobre o tempo, uma filosofia política para pensar e controlar a velocidade.
Homem afável, de frases curtas e contundentes, Virilio aponta que “a velocidade das transmissões reduz o mundo a proporções ínfimas”, ao mesmo tempo que a rapidez substituiu a uniformização das opiniões pela “uniformização das emoções”. Para Virilio, os conceitos de democracia e direitos humanos estão em perigo. O uso atual da tecnologia leva a uma reatualização do totalitarismo. A velocidade é poder, poder de destruição, poder que inibe a possibilidade de pensar.

Em seu último livro, A administração do medo, o ensaísta francês aponta um outro mecanismo de controle político com que o poder administra as sociedades humanas: o medo. Medo da bomba atômica, medo do terrorismo e o medo verde, o temor diante do esgotamento dos recursos naturais e do desastre ecológico.
Muitas das ideias enunciadas por Paul Virilio quase no final dos anos 1970 se viram repentinamente atualizadas pelos atentados do 11 de setembro. As sociedades escatológicas antecipadas pelo autor, a camisa de força tecnológica que os Estados puseram nos indivíduos, a velocidade como fator totalitário e adormecedor, a irreflexão dos meios de comunicação e o fluxo ininterrupto de imagens e emoções tão instantâneas quanto universais passaram a fazer parte da nossa realidade. Televigilância, traçabilidade dos indivíduos, controle da informação, procedimento de simulação da realidade para tapar o real não são ideias negras, mas a luminosa realidade que nos deslumbra. Virilio propõe um antídoto irônico: criar um “Ministério do Tempo” para, como na música, regular os ritmos da vida.

A ditadura da velocidade

Você se interessou de forma muito cedo pelo fenômeno da velocidade, inclusive antes que a sua realidade irrompesse em nosso mundo. Um de seus livros mais famosos, Velocidade e política, data de 1977. O que o levou a intuir com tanta antecipação que a velocidade iria converter-se em um ator central da vida humana, o que você chama de “uma potência de destruição”?

Virilio--Há dois elementos. Eu nasci em 1938 e, por conseguinte, sou filho da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto encontramos dois dados que me marcaram muito. O que se chamou “a guerra relâmpago” e o Holocausto. Não se pode compreender a nossa época sem a clarividência funesta da guerra total, isto é, o extermínio em massa das populações civis durante os bombardeios e também nos campos de concentração. O que vivemos hoje se desprende da importância da velocidade nestes acontecimentos. O revés do exército polonês, o revés do exército francês e os países invadidos em poucos dias são um reflexo dessa velocidade. Sou então um filho dessa guerra relâmpago, da guerra em alta velocidade. Todo o meu trabalho e o interesse que tive pela aceleração me levaram a compreender até que ponto a velocidade era um elemento determinante da história moderna, ou seja, da história da Revolução Industrial.

Você sugere que hoje estamos sob uma espécie de ditadura da velocidade.

Totalmente, e tanto mais quanto que passamos da velocidade móvel, isto é, da velocidade dos tanques, dos automóveis e dos aviões supersônicos, à velocidade da luz e das ondas eletromagnéticas. Estas ondas veiculam a informação, as comunicações, e, sobretudo, a interatividade. Isto significa que a nossa sociedade não é uma sociedade ativa, mas interativa, ou seja, a sociedade atual coloca em funcionamento a velocidade das ondas eletromagnéticas para interagir. Não se pode compreender a globalização sem esta aceleração absoluta em todos os campos, inclusive o campo financeiro. A crise financeira mundial que estourou em 2008, não é só um problema financeiro, mas um derivado da velocidade. As cotizações automatizadas entre bancos, realizadas por plataformas automáticas, exerceram um papel central na crise. O fator de tudo isto foi a velocidade: a velocidade domina, a velocidade da luz, das ondas, se impôs sobre a velocidade dos móveis, do transporte, dos meios de transmissão tradicionais. É impossível compreender a realidade do mundo sem esta configuração. Nos anos 1940, se falava da aceleração da história; hoje, estamos diante da aceleração do real, da aceleração da realidade. Todos os setores da nossa civilização estão afetados pela aceleração do real. É uma evidência que ainda não foi plenamente reconhecida.

Hannah Arendt dizia que a ditadura se plasma em uma espécie de velocidade do movimento.

O terror é a concretização da lei do movimento. O terror é indissociável da velocidade. A temática da velocidade é também a questão da surpresa, e a surpresa é o medo. Quando alguém nos pega de surpresa, dizemos: “ai, que susto você me deu”. A velocidade absoluta e a surpresa estão intimamente ligadas. Trata-se de um fenômeno de pânico, um fenômeno que se refere ao terror. Nossa época é muito singular. Nossa percepção do tempo e das distâncias foi transtornada. A Terra é muito pequena para qualquer forma de progresso. A velocidade das transmissões reduz o mundo a proporções ínfimas.

A sincronização das emoções

Outra característica que você destaca em nossa modernidade, ou em nossa atualidade, é a sincronização das emoções. Todos sentem quase a mesma coisa, no mesmo momento.

Absolutamente. As sociedades de antes estavam sob o signo da padronização das opiniões. Se tomamos a Revolução Industrial como referência, nos encontramos com a padronização dos produtos, o que chamamos a indústria, e também das opiniões. Através do desenvolvimento da imprensa e dos meios de comunicação se operou uma uniformização das opiniões públicas. Agora, atualmente, com a interatividade, já não se trata mais da uniformização das opiniões, mas da sincronização das emoções. Estamos diante de uma sociedade onde a comunidade de emoções substitui a comunidade de interesses. Trata-se de um acontecimento político prodigioso. As sociedades viveram sob o regime da comunidade de interesses, o que explica a estrutura das classes sociais, os ricos e os pobres, o marxismo, etc., etc. Hoje vivemos sob o regime de uma comunidade de emoção, estamos naquilo que chamei de comunismo dos afetos: sentir a mesma emoção, no mesmo instante. No 11 de setembro de 2001, diante de uma catástrofe telúrica equivalente a um terremoto ou um tsunami, o mundo esteve na mesma sintonia de emoção. É um acontecimento político inédito na história da humanidade. Trata-se de um acontecimento pânico que coloca em questionamento a democracia. A tirania do tempo real representa uma ameaça considerável que não foi levada em conta. Fazem-se brincadeiras sobre a telerrealidade e essas coisas, mas este fenômeno nada tem a ver com a telerrealidade. Acontece que se chegou a sincronizar a mesma realidade!

Em que sentido esta sincronização das emoções coloca a democracia em perigo?

A democracia é a reflexão comum e não o reflexo condicionado. Não existe opinião política sem uma reflexão comum. Mas hoje predomina não a reflexão, mas o reflexo. O próprio da instantaneidade consiste em anular a reflexão em proveito do reflexo. Quando me convidam para um debate na televisão, me dizem: “Que bom, você trabalha desde 1977 nos fenômenos da velocidade. Tem um minuto para explicar-me tudo isso”. Não é possível. Estamos diante de um fenômeno reflexo, mas a democracia reflexa é uma impossibilidade, não existe. A mesma coisa acontece com a confiança. As Bolsas estão em crise porque há uma crise da confiança. E por que há uma crise de confiança? Porque a confiança não pode ser instantânea. A confiança em um sistema político ou financeiro não é automática. A opinião também não pode ser instantânea. Então, os sistemas administrados pelos políticos, inclusive o sistema financeiro, são fenômenos que tendem para o automatismo. A automatização é o contrário da democratização.

A lentidão e a aceleração

Podemos pensar que existem dois mundos paralelos: o mundo da lentidão – o mundo primitivo, que está fora da bolha tecnológica – e o muno da velocidade, o mundo desenvolvido exposto sem freio à atração da velocidade.

Em primeiro lugar, quero dizer que o mundo da velocidade instantânea leva à inércia. De alguma maneira, a lentidão das sociedades antigas anuncia a inércia das sociedades futuras. A rapidez absoluta leva à inércia e à paralisia. A interatividade prescinde do deslocamento físico e da reflexão, por conseguinte, o aumento constante da velocidade nos levará à inércia. O problema já não diz respeito tanto à lentidão ou à velocidade, mas à inteligência do movimento. Quando me perguntam: “Acaso é preciso diminuir?”, eu respondo: “Não, é preciso refletir”.

E qual é o ponto central dessa reflexão?

Devemos refletir sobre o ritmo. Como na música, nossa sociedade deve reencontrar-se com o ritmo. A música encarna perfeitamente uma política da velocidade. Através dos tempos, o ritmo, a música é a própria encarnação da política da velocidade. Devemos elaborar uma musicologia da vida. O problema não consiste tanto em diminuir a velocidade, mas em inventar ritmos sociais, políticos ou econômicos que funcionem. Do contrário, terminaremos na inércia, isto é, na lentidão e na paralisia maiores que as das sociedades do passado, as sociedades sedentárias, rurais. De fato, não necessitamos de uma visão revolucionária, mas de uma espécie de força de revelação.

As regras do jogo colocadas hoje tornam, contudo, impossível retroceder frente à velocidade.

Eu não exponho um trabalho retrospectivo sobre o bem-estar do passado, mas uma reflexão sobre o porvir. Sou um progressista. Por isso, não falo de desacelerar, mas de elaborar uma inteligência do movimento, uma espécie de economia política da velocidade. Isto consiste em reencontrar-se com o tempo. O descontrole do tempo despedaçou o sistema de produção e do trabalho. Constatamos as consequências desta desregulação do tempo na empresa France Telecom, onde os empregados se suicidam. Falta-nos o ritmo. Todas as sociedades antigas eram rítmicas: havia a liturgia, as festas, as estações, a alternância do dia e da noite, o calendário, etc., etc. Mas com a aceleração do real perdemos esta organização rítmica. Vivemos em uma sociedade caótica. A velocidade reduz o mundo a nada. O mundo é muito pequeno para o progresso, muito pequeno para a instantaneidade, a ubiquidade. Esta é uma das grandes questões políticas e um dos grandes desafios do futuro em termos de direitos humanos.

O controle do mundo pelo medo

Seu último livro, A administração do medo, agrega à velocidade outro fator de controle: você afirma ali que o medo é uma arte para governar.

Estamos diante de um acontecimento cósmico. A raiz do medo é o que se chamou de equilíbrio do terror, o medo do fim do mundo engendrado durante a Guerra Fria. Podemos dizer que o primeiro grande medo de destruição em massa tem 40 anos e remonta ao projeto de instalação de mísseis em Cuba, nos anos 1960. Em 2001, entramos em outra fase, que é o desequilíbrio do terror. Depois, com os atentados de 11 de setembro, o desequilíbrio se converte em um terrorismo cego, que pode golpear em qualquer momento e em qualquer lugar com uma potência colossal. Ainda nos encontramos nesse desequilíbrio do terror. Um punhado de indivíduos desarmados pode causar tanto prejuízo quanto um exército. Um grupo de homens pode assim provocar desastres consideráveis com um mínimo de meios. O terceiro grande medo que nos a espreita é o do esgotamento dos recursos naturais. A Terra é muito pequena para o progresso e seus recursos podem ser insuficientes para o futuro. Vivemos com esses medos. A angústia, a falta de esperança, o caráter suicida de muitos jovens têm muito a ver com esta dominação do medo sobre nossas consciências. Enfrentamos um fenômeno de pânico globalizado.

Você tem uma interpretação diferente da ecologia, muito crítica. Não a qualifica como uma ideologia totalitária, mas com as características de um instrumento que está aí para amedrontar.

O medo ecológico se soma ao medo engendrado pela Guerra Fria, ao medo instalado pelo terrorismo. Não sou contra a ecologia, absolutamente. A ecologia é necessária para preservar a Terra. Mas não se pode aceitar o que propõe o discurso ecológico atual, isto é, uma espécie de difusão do medo global. Não esqueçamos que existe uma constante: sempre se infunde medo em nome do bem! É preciso evitar isso. Os ecologistas são tentados a convencer mediante o medo! O discurso ecológico deve imperativamente ampliar seu campo e relacionar a ciência do meio ambiente com a filosofia, com as ciências humanas, com a democracia. Por trás da ecologia há uma ideologia ameaçante, que é a do espaço vital. Quando se pensa no nazismo se o associa com o racismo, mas não com a dimensão do espaço vital. Os nazistas colocavam cartazes que diziam: “Bosque proibido aos judeus”. Tratava-se de um espaço vital. Se quisermos uma ecologia humana, humanitária, devemos desconfiar da dimensão vitalista própria do nazismo. Não sou contra a ecologia, absolutamente. Mas, como filho da guerra total, lembro essa noção de espaço vital que foi a mola propulsora da Segunda Guerra Mundial.
A administração do medo – da bomba, do desastre ecológico, do terrorismo, do desemprego, do imigrante, da insegurança – tornou-se o principal instrumento de gestão política. Dessa estratégia nasceu outra ameaça: a vigilância, o seguimento, a traçabilidade dos indivíduos.
Isso explica o desenvolvimento da televigilância, as propostas para reclamar as pegadas dos indivíduos. Podemos até pensar que, amanhã, a noção de identidade, de documento de identidade, será substituída pela traçabilidade das pessoas. Uma vez que se controlam todos os movimentos de um indivíduo, a questão de sua identidade perde todo interesse. Basta obter informações sobre seus movimentos e a velocidade para localizar a pessoa ou o produto. A traçabilidade é um elemento inquietante da vigilância. O medo sempre foi um instrumento para governar.

Em A administração do medo você ressalta que a propaganda em torno desse grande Eldorado que são as novas tecnologias é também vetor do medo porque anestesia as pessoas.

Albert Einstein dizia: “Nossa tecnologia ultrapassou a nossa humanidade”. Está óbvio que as tecnologias representam hoje uma ameaça na medida em que não controlamos o progresso. Os avanços tecnológicos deixaram de ser controlados pela humanidade.

A força da velocidade, do medo, da tecnologia, de metas eficazes, da aspiração a resultados, de estratégias de gestão, o sonho tecnológico de um ser humano melhor desembocou em uma humanidade ameaçada pelas próprias máquinas que cria.

Sim, sem dúvida. O homem começa a estar sobrando. Assistimos agora a uma retomada econômica sem empregos. Já se fala de inativos crônicos e não de desempregados conjunturais. A corrida atrás de produtividade substitui os produtores, isto é, o trabalho do ser humano. Nossa civilização está ameaçada. O respeito pelos direitos humanos está sendo questionado. Necessitamos de um esquema de pensamento diferente para evitar a catástrofe. Precisamos elaborar um pensamento político da velocidade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Revista americana Newsweek vai se tornar 100% digital no fim de 2012


G1





Última edição impressa será lançada no dia 31 de dezembro.
Edição estará na web e também em tablets por meio de assinatura.

Do G1, com informações da France Presse

 A revista americana Newsweek anunciou nesta quinta-feira (18) que sua última edição impressa será lançada no dia 31 de dezembro, passando, a partir da data, a ser totalmente digital.
"A Newsweek Global, como será chamada a publicação totalmente digital, será uma edição única e mundial voltada para um público líder de opinião e altamente móvel que deseja aprender sobre acontecimentos mundiais em um contexto sofisticado", afirmou Tina Brown, editora-chefe e fundadora da Newsweek Daily Beast Company on-line em um comunicado.
A editora afirmou que sabe que esta decisão levará a algumas demissões.
"Estamos fazendo uma transição na Newsweek, não estamos dizendo adeus. Esta decisão não tem nada a ver com a marca ou com o jornalismo, que está mais forte do que nunca. É sobre os desafios econômicos da edição impressa e sua distribuição", disse Brown.
A edição estará na web e também em tablets através de uma assinatura, com "seleção de conteúdo", disponível no site The Daily Best.
Barry Diller, diretor e chefe-executivo do conglomerado IAC (InterActiveCorp), empresa que administrava a empresa conjunta da Newsweek/Daily Beast desde sua união, em 2010, assegurou que estavam vendo novas opções, agora que as duas companhias saíram do negócio.
O jornal The Washington Post vendeu anteriormente a revista Newsweek ao multimilionário da Califórnia Sidney Harman
.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O poder das grandes ideias em Huntington



Neste início de um novo ano, a pouco mais de dez dias da posse do novo presidente
norte-americano e com as expectativas de importantes mudanças políticas e
econômicas, poderíamos dizer que nos encontramos em um momento huntingtoniano.
Samuel Huntington, teórico político que faleceu no dia 24 de dezembro aos 81 anos,
refletiu sobre o poder do pensamento, e pertence à raça de homens que cultivaram
"grandes ideias", cujas obras mais famosas não só explicaram a transformação
histórica, como aparentemente a cristalizaram - alterando nossa maneira de olhar o
mundo, para melhor, mas também para pior.

Em 1968, quando Ordem Política nas Sociedades em Mudança foi publicado, a maioria
dos cientistas políticos afirmava que o segredo da democracia era a modernização. À
medida que as sociedades atrasadas se equiparassem às mais avançadas, teriam de
desenvolver também sistemas políticos mais abrangentes. Huntington usou um argumento
contrário: como muitas vezes a modernização trouxe o caos, o fator "sine qua non" de
uma sociedade bem-sucedida é a ordem, que pode refrear os demônios desencadeados
pela mudança social, e também criar as condições de uma reforma política gradual.
Segundo esta perspectiva, um sistema que impõe a ordem, até mesmo a ordem
autoritária, seria legítimo.

Na União Soviética, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, "o governo governa",
escreveu. Os três países "têm instituições políticas fortes, flexíveis e coerentes:
burocracias eficientes, partidos políticos bem organizados". Publicado no momento em
que os esforços para a construção de uma nação democrática no Vietnã do Sul se
revelaram desastrosos, o livro de Huntington modificou totalmente o debate. O Choque
das Civilizações, de 1996, também captou o momento histórico, embora com um
argumento diferente. O impulso unificador da ordem que era o fulcro da análise de
Huntington sobre a Guerra Fria - quando os regimes democráticos e autoritários
podiam coexistir, embora com desconforto - dava lugar a uma visão sombria de um
mundo dividido de forma irreconhecível. Huntington descreveu civilizações diferentes
com valores diferentes - mais especificamente, os do Ocidente e os do mundo
islâmico.

Nestes dois livros, Huntington aparentemente calibrou seus respostas enquanto a
história estava se fazendo. À medida que os acontecimentos foram mudando, também
mudaram as interpretações. Era de se esperar. A adaptação da teoria à realidade é a
essência do ofício do filósofo que reflete sobre o poder das ideias. Mas nem sempre
foi assim. Na idade clássica, quando as guerras duravam anos, e até mesmo décadas, e
a tecnologia evoluía lentamente, historiadores tinham uma visão mais aberta. Para
eles, nenhum evento histórico era mais importante do que outro. Todos
desenrolavam-se em ciclos recorrentes, dominados pelas profundas correntes da
natureza humana. Bernard Madoff é acusado de fraudar investidores em US$ 50 bilhões,
utilizando o mesmo esquema usado por Charles Ponzi em 1921. Os "instrumentos"
financeiros de Wall Street passaram por uma revolução nas últimas nove décadas, mas
as pessoas são movidas pelos mesmos apetites - inveja, cobiça, medo.

Foi na era moderna, com sua crença no progresso humano, que os pensadores começaram
a interpretar o mundo de um modo diferente - não como um registro da loucura humana,
e sim como a atuação de forças históricas em transformação. O filósofo italiano
Giambattista Vico afirmava no século 18 que todas as civilizações passam por três
estágios: a idade dos deuses, na qual as divindades governam a humanidade; a idade
dos heróis aristocráticos, em que os indivíduos superiores reinavam sobre os
inferiores; e a idade dos seres humanos comuns, em que homens e mulheres se governam
no espírito da igualdade.

Esta última fase acabou dando lugar à decadência e à desintegração caracterizadas
por comportamentos grotescos (reality shows). A este ponto, os deuses retornam
(Homem de Ferro, Hulk), e o ciclo dos três estágios recomeça. Ao mesmo tempo,
pensadores franceses como Voltaire, Condorcet e Turgot converteram a ideia cristã do
progresso espiritual em uma visão de aperfeiçoamento humano racional. Esta crença do
Iluminismo na perfectibilidade humana é, entre outras coisas, uma grande máquina de
fabricar ilusões. No início do século 19, um dos gigantes criadores de grandes
ideias, G.W.F. Hegel, tentou conciliar razão e religião por meio da lógica da
"dialética". Até mesmo eventos terríveis podem representar avanços para a sociedade
humana. A Revolução Francesa caiu na violência irracional, mas sua violência
"necessária" provocou reação racional contra esta verdadeira barbárie.

O mais influente teórico da história do século 19, Karl Marx, adotou a dialética de
Hegel, mas submeteu-a a uma revisão para adaptá-la à sua teoria do materialismo
histórico, cujas raízes estavam na luta de classes e na concorrência econômica. Para
Marx, "dialética" significava que os sistemas políticos plantam as sementes de sua
própria destruição. O triunfo do capitalismo burguês fomentava as injustiças
econômicas que, previa Marx, dariam origem ao proletariado, que, um dia, derrubaria
a burguesia. É possível observar os últimos 15 anos através das lentes marxistas. A
prosperidade e o sucesso espalharam as sementes da atual crise econômica, o que por
sua vez alimentou a ira crescente da "classe" dos financistas de Wall Street. Em
termos mais amplos, a visão de Marx foi desacreditada.

O mesmo, neste sentido, ocorreu com a teoria de Huntington sobre o "autoritarismo
modernizante". Em seu prefácio a uma recente edição de Ordem Política, Francis
Fukuyama, observou que o sistema soviético não foi absolutamente o governo eficiente
que Huntington afirmava que havia sido. A ideia de Huntington sobre o inevitável
choque das civilizações também soa diferente hoje - sua severa visão de mundo
assemelha-se de modo desconcertante ao pensamento sobre o qual se fundamenta a
cruzada do governo Bush contra o Islã político, embora o próprio Huntington se
mostrasse cético quanto ao que definiu como "missão" imperialista dos Estados Unidos
no Iraque. Huntington compreendeu corretamente muitas coisas. Mas em sua grandeza,
elas penderam para a excessiva simplificação. "Talvez", como escreveu Fukuyama,
"todas as grandes teorias estejam, em última análise, destinadas ao fracasso".

E por que teria de ser assim? Provavelmente porque em seu desejo de explicar tanto,
os grandes pensadores tendem a pular os elementos complicadores e as evidências do
contrário. Pintando em amplas e muitas vezes brilhantes pinceladas, frequentemente
eles não percebem as sombras e as rachaduras. A própria sedução da produção de
grandes ideias - sua promessa de que tudo se encaixa ou pelo menos pode-se fazer com
que pareça encaixar - é também um perigo. Com frequência, ela oferece algo
irresistível, a possibilidade de mudar, ou pelo menos controlar nossas vidas por
meio das ideias, mesmo que estas ideias não passem de invenções abstratas. No
entanto, enquanto houver uma história pública e privada, os seres humanos tentarão
interpretá-la à sua maneira. Para melhor, e para pior.

Lee Siegel, autor de Against the Machine, é professor da Rutgers University


http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-poder-das-grandes-ideias-em-huntington,305369,0.htm


Contribuição: Pedro Bentes

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

New York Times anuncia lançamento de edição digital para o Brasil



G1








Edição online será em português, destinada ao público brasileiro.

Lançamento será em 2013, segundo anunciou o jornal.

Da France Presse

NYT (Foto: Reprodução)NYT (Foto: Reprodução)
O jornal americano The New York Times anunciou que lançará no próximo ano uma edição online em português destinada ao público brasileiro.
"A nova edição online oferecerá conteúdos de qualidade que o Times levará a uma audiência brasileira educada", afirma o jornal em um comunicado.
A edição terá traduções para o português de artigos do jornal, mas também textos especialmente escritos por jornalistas locais, que devem representar um terço do volume de conteúdo.
Os textos terão como temas assuntos internacionais, economia e cultura, além de "temas de interesse particular para o leito brasileiro". A edição deve ter 40 artigos por dia, assim como fotos. Gráficos e elementos multimídia serão adicionados no futuro
.

No futuro, receita virá principalmente de leitores, diz analista de mídia


G1


 




Ken Doctor fala nesta segunda (15) em encontro de imprensa em SP.
Segundo ele, América Latina tem pouco tempo para se adaptar

Giovana SanchezDo G1, em São Paulo

O autor e analista Ken Doctor, que apresentará palestra nesta segunda (15), em encontro da SIP (Foto: Divulgação)O autor e analista Ken Doctor, que proferirá
palestra nesta segunda (15), em
encontro da SIP (Foto: Divulgação)
Há pelo menos 15 anos, falar de tablets, conteúdos digitais e mídias sociais era tão estranho quanto nos pareceria hoje ignorar a presença dessas tecnologias em nossa vida. Para o consultor de mídias digitais Ken Doctor, autor de "Newsonomics – doze novas tendências que moldarão as notícias e o impacto na economia mundial", o modo como nos comunicamos e compartilhamos as notícias é especialmente afetado por essa mudança analógico-digital.
"Se você olhar para os anos 1990, era tudo uma questão de pequenos experimentos em empresas jornalísticas e muito otimismo. Nos anos 2000, as previsões eram de tempos terríveis, de perdas, perdas em receitas. Agora, há um reconhecimento de que o mundo mudou completamente, mas que há um novo lugar para as empresas jornalísticas", disse Doctor em entrevista aoG1, por telefone.
O analista é um dos palestrantes presentes nos debates desta segunda-feira (15) na 68ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa, que ocorre até o dia 16, em São Paulo.
Seguno ele, uma das principais tendências para os meios de comunicação no futuro próximo consiste na fonte da receita vinda diretamente dos leitores - e menos dos anunciantes. "O 'New York Times' hoje lucra mais com leitores do que com anunciantes. E isso é uma mudança enorme, e eu vejo essa mudança em empresas da América do Norte, da Europa, assim como da Ásia."
Leia a seguir a íntegra da entrevista com o consultor:
 G1 - Em seu livro, o senhor fala das leis que modelarão as notícias no futuro próximo. Como o senhor vê esse futuro? Qual seria o modelo desejável e possível?
Ken Doctor - 
Basicamente, as empresas de mídia estão enfrentando agora o que eu chamo de ponto de convergência, quando o mundo está se tornando principalmente digital e restam alguns impressos. E isso aconteceu nos últimos 15 anos, quando havia basicamente só impressos e poucos digitais. Os digitais vêm aumentando, mas agora é a convergência. Então eles estão aprendendo a ser basicamente digitais, planejar os dois, como produzir conteúdo, distribuir em smartphones e em tablets, e como servir os anunciantes.
Essa é a grande distinção da era em que estamos ingressando. Eu a vejo nos seguintes termos: se você olhar para os anos 1990, era tudo uma questão de pequenos experimentos em empresas jornalísticas e muito otimismo. Nos anos 2000, as previsões eram de tempos terríveis, de perdas, perdas em receitas. Agora, há um reconhecimento de que o mundo mudou completamente, mas que há um novo lugar para as empresas jornalísticas.
G1 - O senhor poderia resumir as principais leis que o senhor fala em seu livro?
Ken - 
Sim... Eu escrevi o livro há três anos, mas sigo atualizando bastante. As principais coisas que aponto agora são como os leitores e as receitas vindas de leitores - que chamamos de circulação no negócio de jornais - é realmente a tendência mais importante na nossa frente. O [jornal americano] "New York Times" hoje lucra mais com leitores do que com anunciantes. E isso é uma mudança enorme, e eu vejo essa mudança em empresas da América do Norte, da Europa, assim como da Ásia.
O apoio nos leitores para bancar a maioria dos custos para criar as notícias é um fenômeno que está realmente se lançando pelo mundo dos jornais. Agora, há duas razões para isso: uma é que os anúncios têm diminuído, e continuam diminuindo, mas a segunda razão é a circulação digital, que se chama paywall [sistema que bloqueia o acesso ao conteúdo caso não haja pagamento]. Acho paywall um termo bobo, já que os leitores estão acostumados a pagar por jornais há décadas e mais décadas, mas dada a mudança do acesso livre para o conteúdo na internet as pessoas usam o termo paywall. É só circulação digital. Toda a noção de ter leitores que estão realmente interessados em um certo título, em um certo jornal, seja um jornal nacional, local, semanal, e fazê-lo pagar tanto pelo acesso digital quanto pelo acesso impresso é uma grande ideia, e hoje há mais de 500 jornais diários pelo mundo que implementaram a circulação digital apenas nos últimos dois anos.
Acho que essa é a principal tendência a se observar enquanto avançamos e é parte do que falarei em São Paulo.
G1 - Uma das leis que o senhor cita é a de conteúdo darwinista. O senhor pode explicar do que se trata?
Ken -
 Basicamente é o que chamamos da morte das distâncias. Antes era assim: onde você morava, você tinha a opção de um ou alguns jornais ali, e eles te davam todas as notícias, não apenas as locais, mas as notícias nacionais, internacionais, de economia, tudo. E eram os editores nesses jornais locais que decidiam o que você veria a cada dia. Eles pegavam muito conteúdo por toda a grade, assim como em agências e de seus repórteres, e a maioria dos leitores recebia as notícias do dia pelos olhos dos editores locais. E, agora, em 15 anos isso mudou completamente.
As pessoas vão a fontes de notícias nacionais, no Brasil, em Nova York, em Berlim, ou em pequenas cidades, em todo lugar. Eles podem ter fontes internacionais de notícias, como a BBC, CNN, NYT, Wall Street Journal e Financial Times com um clique ou um toque em um tablet. As pessoas estão indo direto para notícias nacionais ou internacionais, sites específicos de esportes, de economia, e isso reduziu o mundo dos jornais locais, que estão voltando a serem locais. E é isso que as pessoas estão procurando, já que podem ter toda a notícia nacional e de esportes que querem diretamente.
Então, conteúdo darwinista significa simplesmente que o melhor conteúdo que vai ganhar. Se você não pode ser o melhor no que faz, você provavelmente não sobreviverá.
G1 - Em que estágio o senhor acredita que nós brasileiros, em particular, e os latino-americanos, no geral, estamos dessas mudanças que o senhor vê no futuro próximo?
Ken -
 O que tenho visto é que o crescimento das economias da América Latina e o crescimento da classe média têm ajudado as empresas de mídia a achar mais sucesso do que muitas empresas na Europa e nos EUA. Ao mesmo tempo, os mesmos desafios existem. São os mesmos desafios de quebra digital, de leitores querendo suas notícias em iPhones, tablets, assim como impressos, de leitores querendo cada vez mais vídeos - e eu sei que a televisão é particularmente forte em seu país, assim como na América Latina. Então é uma mistura, de um lado os editores latino-americanos têm mais tempo para se ajustar, mas só alguns anos a mais, dados os fatos únicos da América Latina. Ao mesmo tempo, para os editores de notícias, a necessidade de se mover muito mais rápido em direção ao vídeo online é muito importante, visto como a audiência gosta de receber suas notícias.
A programação do evento na íntegra está disponível na página da 68ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa na internet
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